A coesão em exemplos e algumas palavras a mais
Conforme vimos em lições anteriores, a coesão é responsável pelo encadeamento discursivo com suas remissões (retomadas) ao já dito, suas projeções, seu encadeamento racional, portanto lógico. Cumpre, dessa maneira, o papel de "costurar" o texto, de "amarrá-lo", preenchendo eventuais lacunas. Delineia o pensamento com ritmo, pausas, idas e vindas, recuperando o que foi falado e preparando o que está por vir. Além de sugerir, "emendar", acrescentar, e até mesmo dar um toque estilístico, pessoal e esclarecedor com o valioso auxílio dos OPERADORES ARGUMENTATIVOS tais como "desse modo", "a propósito", "aliás", "de acordo com essa afirmação", "diante disso", "bem o sabemos" etc.
Já a coerência é o correspondente da coesão em significado. Desse modo, os termos usados na coesão devem ter um significado adequado à ideia proposta do enunciador. E claro, não podemos esquecer também que, quem profere um discurso, deve levar em conta o meio por qual profere e quem são seus receptores (quem vai recebê-lo). Por isso, se estou falando (por meio oral, entende-se) numa situação informal e para amigos do convívio familiar, é até mais adequado usar a conjunção popular "aí" do que usar "por conseguinte". Portanto, o significado norteia a expressão a ser usada. Não só nesse sentido, mas também e principalmente para se obter a própria coerência em si. Se não, veja:
No almoço como bastante, PORTANTO sou magro.
Ora, não há algo estranho nesta frase? Evidentemete que sim. Espera-se, pois, que quem coma muito não fique magro, porém gordo. Diante disso, temos uma falta de coerência ao usarmos o conector "portanto". E qual seria a conjunção mais adequada? Seria, já o vimos no outro trabalho, a conjunção adversativa "mas", "porém", "contudo", "todavia"... Assim:
No almoço como bastante, PORÉM sou magro.
Enfim, faltou clareza no raciocínio, faltou coerência, porque não foi selecionada a conjunção adequada. Só poderíamos aceitar a hipótese dessa frase estar certa, e portanto coerente, se a se situação em que se deu fosse uma piada e o enunciador flertasse com a ironia. Ou seja, se houvesse uma linguagem conotativa, se houvesse, para concluir, um recurso estilístico-expressivo, como muitos poetas e artistas das palavras sabem bem usar.
Bem. Feitas essas observações preliminares, vamos passar a elencar as principais conjunções e seus respectivos significados dentro dos períodos compostos. Basicamente se dividem em dois grupos: o das orações coordenadas (sintaticamente independentes) e o das orações subordinadas (ou dependentes).
Orações coordenadas
- Conjunções aditivas. São aquelas que incluem um ou mais ítens à principal. Representadas por: "e", "nem...nem", "não... nem", "não só... mas também" (ênfase).
a) Carlos cuida da casa e Maria trabalha fora.
b) Nem sabe falar inglês nem francês.
c) Não joga vôlei nem basquete.
d) Não só estuda mas também dá aulas. (Neste exemplo é evidente que o par "não só... mas também" enfatiza o enunciado.)
- Conjunções adversativas. Este grupo de conjunções tem como significado ligar a oração anterior, contudo negando-a. Assim cria-se uma oposição à ideia expressa anteriormente. São elas: "mas", "contudo", "porém", "todavia", "entretanto". Ex.:
a) Acordei muito cansado, mas fui trabalhar.
b) O país vive num momento inseguro, contudo nos resta esperanças.
c) Economizo dinheiro, porém sempre me falta para pagar as contas.
d) A cidade grande é violenta, entretanto ainda há lugares calmos.
- Conjunções alternativas. São aquelas que excluem uma das possibilidades do grupo. Indicadas por "ou", "ou...ou", "seja...seja", "quer... quer", "ora...ora" etc
a) Você estuda ou trabalha?
b) Ou você prática esporte ou vai ter problemas de saúde.
c) Seja rico seja pobre o importante é ser honesto.
d) Quer vençamos o jogo quer percamos o importante é não desistir.
e) Ora você está feliz ora você é só tristeza.
- Conjuncões conclusivas. Remetem-se ao término da proposição, concluído algum raciocínio. Eis algumas: "logo", "portanto", "por isso", "por conseguinte" etc.
a) Penso, logo existo. (Descartes)
b) Todo homem é mortal; Sócrates é um homem; portanto Sócrates é mortal.
c) Estudei bastante, por isso passei na prova
d) A média da temperatura mundial está subindo, porconseguinte as geleiras vão derreter.
- Conjunções explicativas. Tem o papel de justificar a primeira oração. São algumas: que, porque, pois etc.
a) Acorde cedo amanhã, que vamos viajar.
b) Não falte o trabalho, porque há muitos desempregados querendo seu emprego.
c) Não gaste todo dinheiro, pois não se sabe o dia de amanhã.
Orações subordinadas
- Conjunções concessivas. São as que não impedem que algo se realize. Ei-las: "apesar de", "embora", "mesmo que", "não obstante" etc
a) Apesar de estar frio, não vou sair de casaco.
b) Embora sejamos um povo trabalhador, não somos ricos.
c) Mesmo que tenha propósitos firmes, me deixo seduzir pela vaidade.
d) Não obstante ter realizado todos meus desejos, não ou feliz ainda.
- Conjunções condicionais. São termos que introduzem possibilidades, dúvidas, hipóteses: "se", "caso", "a menos que", "salvo se", "a não ser que".
a) Se você tocasse o instrumento, eu teria cantado na festa.
c) Caso você decida ir ao teatro, eu vou também.
d) A menos que o nosso time não jogue, eu estou decidido a entrar em campo.
e) Salvo se reivindicar melhores salários, não teremos aumento.
f) A não ser se ele for generoso, nunca vai nos pagar melhor.
- Conjunções finais. Indicam a finalidade máxima de alguma ação: "para que", a fim de que", "porque", "com o propósito de" etc.
a) Estudo bastante para que possa passar de ano.
b) A fim de que nossa relação seja solucionada, falei com meu advogado.
c) Treino muito, porque quero vencer o campeonato.
d) Acordo cedo com o propósito de não me atrasar ao trabalho.
- Conjunções temporais. Como o nome já o diz, introduzem subordinadas relacionadas a tempo. São algumas: "quando", "antes que", "depois que", "enquanto", "desde que" etc.
a) Quando a quarentena terminar, iremos num baile.
b) Antes que anoiteça, termine suas obrigações.
c) Depois que nos casarmos, seremos mais felizes.
d) Enquanto o país não resolver o problema da fome, não se fala em desenvolvimento humano.
e) Desde que você foi embora, não consigo dormir bem.
- Comparativas. Iniciam uma oração que comparam algo na oração anterior. Representadas por: mais... (do) que", "tanto... quanto", "como", "assim como" etc.
a) O mar é mais perigoso do que a floresta.
b) Ele é tanto inteligente quanto bonito.
c) O pássaros cantam como se estivessem executando uma sinfonia.
d) Assim como o amor dos filhos aos pais é importante, a educação dos pais aos filhos é fundamental.
- Consecutivas. Iniciam uma oração que dá sequência a algo iniciada na primeira. Alguns elementos coesivos são: "tão... que", "tal... que", "tão...de sorte que"etc.
a) Fez tão rápido a tarefa que ainda deu tempo de sair para jogar bola.
b) Discursou de tal maneira, que foi aplaudido.
c) Ensinou tão bem aos alunos de sorte que foi aplaudido ao final da aula.
- Integrantes. São aquelas que vão formar orações subordinadas com valor de objeto direto, objeto indireto, predicativo do sujeito, complento nominal e aposto. Formadas por: "que" (precedido ou não de preposição) e "se".
a) Desejo que vença. (objeto direto).
b) Não sei se te amo. (objeto direto)
c) A felicidade depende de que estejamos bem consigo mesmo. (objeto indireto)
d) A luta pela vida é que nos move. (predicativo do sujeito)
e) O desejo de que venças é constante. (complemento nominal)
f) Faça o bem: que é excelente ideia. (aposto)
- Conformativas. São orações subordinadas que encerram uma ideia de conformidade com a principal. São encabeçadass pelas conjunções: "segundo", "conforme", "consoante", "como" etc.
a) Segundo me disseram, os Estados Unidos são extremamente capitalistas.
b) Conforme está escrito na Bíblia, devemos amar uns aos outros.
c) Consoante ao que foi dito nos autos do processo, não há indícios de crime no réu.
d) Como se sabe, o sol é uma estrela de quinta grandeza.
- Proporcionais. São as orações que registram algo que está acontecendo ou irá acontecer em relação ao enunciado da oração principal. Alguns elementos são: " à medida que", "ao tempo que", "quanto mais... menos" etc.
a) À medida que o desemprego cresce, a população se revolta.
b) Ao tempo que vou te amando cada vez mais, você vai me desprezando.
c) Quanto mais se pesquisa, mais se transforma a sociedade.
Essas são as principais conjunções e suas respectivas orações (claro que a lista pode se estender). Vale ressaltar que neste trabalho tomamos como base o livro de Celso Cunha e Lindley Cintra: "Nova Gramática do Portugês Contemporâneo". Mas algumas lacunas ainda podem ser preenchidas, já que, claramente, esta gramática traz uma exposição bem resumida do assunto e com intenções normativas e didáticas.
Por isso, se nos determos com mais acuidade, veremos que muitas das conjunções ou das chamadas LOCUÇÕES CONJUNTIVAS (ou seja, a reunião de duas palavras para formarem uma unidade) são, na verdade, provenientes de outra natureza gramatical. Assim é que podemos ter advérbios em "Assim que terminou o exercício, foi jogar bola" ("assim", advérbio); preposições em Arrumou-se para ir à festa ("para"); advérbios e conjunções em "Ainda que seja feliz, falta-me algo" ("ainda que", advérbio e conjunção)"; preposição + advérbio em "Fiz tudo, contudo estou triste" (com+tudo, preposição e advérbio); ou mesmo verbo como em "Seja culto seja humilde, o importante é ser honesto" ("seja... seja", verbo). Desse modo, já podemos vislumbrar que muitas palavras podem adquirir, de acordo com o sentido do texto ou mesmo com o passar do tempo - com o "evoluir" da língua -, um deslocamento semântico, podem adquirir outra função, enfim; acomodando-se, dessa maneira, a uma outra realidade linguística e discursiva. Mas tudo isso veremos em outra lição.
Prof. Ivonilton G de Souza