quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

A coesão em exemplos e algumas palavras a mais



Conforme vimos em lições anteriores, a coesão é responsável pelo encadeamento discursivo com suas remissões (retomadas) ao já dito, suas projeções, seu encadeamento racional, portanto lógico. Cumpre, dessa maneira, o papel de "costurar" o texto, de "amarrá-lo", preenchendo eventuais lacunas. Delineia o pensamento com ritmo, pausas, idas e vindas, recuperando o que foi falado e preparando o que está por vir. Além de sugerir, "emendar", acrescentar, e até mesmo dar um toque estilístico, pessoal e esclarecedor com o valioso auxílio dos OPERADORES ARGUMENTATIVOS tais como "desse modo", "a propósito", "aliás", "de acordo com essa afirmação", "diante disso", "bem o sabemos" etc.


Já a coerência é o correspondente da coesão em significado. Desse modo, os termos usados na coesão devem ter um  significado adequado à ideia proposta do enunciador. E claro, não podemos esquecer também que, quem profere um discurso, deve levar em conta o meio por qual profere e quem são seus receptores (quem vai recebê-lo). Por isso, se estou falando (por meio oral, entende-se) numa situação informal e para amigos do convívio familiar, é até mais adequado usar a conjunção popular "aí" do que usar "por conseguinte". Portanto, o significado norteia a expressão a ser usada. Não só nesse sentido, mas também e principalmente para se obter a própria coerência em si. Se não, veja:


No almoço como bastante, PORTANTO sou magro.


Ora, não há algo estranho nesta frase? Evidentemete que sim. Espera-se, pois, que quem coma muito não fique magro, porém gordo. Diante disso, temos uma falta de coerência ao usarmos o conector "portanto". E qual seria a conjunção mais adequada? Seria, já o vimos no outro trabalho, a conjunção adversativa "mas", "porém", "contudo", "todavia"... Assim:


No almoço como bastante, PORÉM sou magro.


Enfim, faltou clareza no raciocínio, faltou coerência, porque não foi selecionada a conjunção adequada. Só poderíamos aceitar a hipótese dessa frase estar certa, e portanto coerente, se a se situação em que se deu fosse uma piada e o enunciador flertasse com a ironia. Ou seja, se houvesse uma linguagem conotativa, se houvesse, para concluir, um recurso estilístico-expressivo, como muitos poetas e artistas das palavras sabem bem usar.


Bem. Feitas essas observações preliminares, vamos passar a elencar as principais conjunções e seus respectivos significados dentro dos períodos compostos. Basicamente se dividem em dois grupos: o das orações coordenadas (sintaticamente independentes) e o das orações subordinadas (ou dependentes).


Orações coordenadas


- Conjunções aditivas. São aquelas que incluem um ou mais ítens à principal. Representadas por: "e", "nem...nem", "não... nem", "não só... mas também" (ênfase).


a) Carlos cuida da casa e Maria trabalha fora.


b) Nem sabe falar inglês nem francês.


c) Não joga vôlei nem basquete.


d) Não só estuda mas também dá aulas. (Neste exemplo é evidente que o par "não só... mas também" enfatiza o enunciado.)


- Conjunções adversativas. Este grupo de conjunções tem como significado ligar a oração anterior, contudo negando-a. Assim cria-se uma oposição à ideia expressa anteriormente. São elas: "mas", "contudo", "porém", "todavia", "entretanto". Ex.:


a) Acordei muito cansado, mas fui trabalhar.


b) O país vive num momento inseguro, contudo nos resta esperanças.


c) Economizo dinheiro, porém sempre me falta para pagar as contas.


d) A cidade grande é violenta, entretanto ainda há lugares calmos.


- Conjunções alternativas. São aquelas que excluem uma das possibilidades do grupo. Indicadas por "ou", "ou...ou", "seja...seja", "quer... quer", "ora...ora" etc


a) Você estuda ou trabalha?


b) Ou você prática esporte ou vai ter problemas de saúde.


c) Seja rico seja pobre o importante é ser honesto.


d) Quer vençamos o jogo quer percamos o importante é não desistir.


e) Ora você está feliz ora você é só tristeza.


- Conjuncões conclusivas. Remetem-se ao término da proposição, concluído algum raciocínio. Eis algumas: "logo", "portanto", "por isso", "por conseguinte" etc.


a) Penso, logo existo. (Descartes)


b) Todo homem é mortal; Sócrates é um homem; portanto Sócrates é mortal.


c) Estudei bastante, por isso passei na prova


d) A média da temperatura mundial está subindo, porconseguinte as geleiras vão derreter.


- Conjunções explicativas. Tem o papel de justificar a primeira oração. São algumas: que, porque, pois etc.


a) Acorde cedo amanhã, que vamos viajar.


b) Não falte o trabalho, porque há muitos desempregados querendo seu emprego.


c) Não gaste todo dinheiro, pois não se sabe o dia de amanhã.


Orações subordinadas


- Conjunções concessivas. São as que não impedem que algo se realize. Ei-las: "apesar de", "embora", "mesmo que", "não obstante" etc


a) Apesar de estar frio, não vou sair de casaco.


b) Embora sejamos um povo trabalhador, não somos ricos.


c) Mesmo que tenha propósitos firmes, me deixo seduzir pela vaidade.


d) Não obstante ter realizado todos meus desejos, não ou feliz ainda.


- Conjunções condicionais. São termos que introduzem possibilidades, dúvidas, hipóteses: "se", "caso", "a menos que", "salvo se", "a não ser que".


a) Se você tocasse o instrumento, eu teria cantado na festa.


c) Caso você decida ir ao teatro, eu vou também.


d) A menos que o nosso time não jogue, eu estou decidido a entrar em campo.


e) Salvo se reivindicar melhores salários, não teremos aumento.


f) A não ser se ele for generoso, nunca vai nos pagar melhor.


- Conjunções finais. Indicam a finalidade máxima de alguma ação: "para que", a fim de que", "porque", "com o propósito de" etc.


a) Estudo bastante para que possa passar de ano.


b) A fim de que nossa relação seja solucionada, falei com meu advogado.


c) Treino muito, porque quero vencer o campeonato.


d) Acordo cedo com o propósito de não me atrasar ao trabalho.


- Conjunções temporais. Como o nome já o diz, introduzem subordinadas relacionadas a tempo. São algumas: "quando", "antes que", "depois que", "enquanto", "desde que" etc.


a) Quando a quarentena terminar, iremos num baile.


b) Antes que anoiteça, termine suas obrigações.


c) Depois que nos casarmos, seremos mais felizes.


d) Enquanto o país não resolver o problema da fome, não se fala em desenvolvimento humano.


e) Desde que você foi embora, não consigo dormir bem.


- Comparativas. Iniciam uma oração que comparam algo na oração anterior. Representadas por: mais... (do) que", "tanto... quanto", "como", "assim como" etc.


a) O mar é mais perigoso do que a floresta.


b) Ele é tanto inteligente quanto bonito.


c) O pássaros cantam como se estivessem executando uma sinfonia.


d) Assim como o amor dos filhos aos pais é importante, a educação dos pais aos filhos é fundamental.


- Consecutivas. Iniciam uma oração que dá sequência a algo iniciada na primeira. Alguns elementos coesivos são: "tão... que", "tal... que", "tão...de sorte que"etc.


a) Fez tão rápido a tarefa que ainda deu tempo de sair para jogar bola.


b) Discursou de tal maneira, que foi aplaudido.


c) Ensinou tão bem aos alunos de sorte que foi aplaudido ao final da aula.


- Integrantes. São aquelas que vão formar orações subordinadas com valor de objeto direto, objeto indireto,  predicativo do sujeito, complento nominal e aposto. Formadas por: "que" (precedido ou não de preposição) e "se".


a) Desejo que vença. (objeto direto).


b) Não sei se te amo. (objeto direto)


c) A felicidade depende de que estejamos bem consigo mesmo. (objeto indireto)


d) A luta pela vida é que nos move. (predicativo do sujeito)


e) O desejo de que venças é constante. (complemento nominal)


f) Faça o bem: que é excelente ideia. (aposto)


- Conformativas. São orações subordinadas que encerram uma ideia de conformidade com a principal. São encabeçadass pelas conjunções: "segundo", "conforme", "consoante", "como" etc.


a) Segundo me disseram, os Estados Unidos são extremamente capitalistas.


b) Conforme está escrito na Bíblia, devemos amar uns aos outros.


c) Consoante ao que foi dito nos autos do processo, não há indícios de crime no réu.


d) Como se sabe, o sol é uma estrela de quinta grandeza.


- Proporcionais. São as orações que registram algo que está acontecendo ou irá acontecer em relação ao enunciado da oração principal. Alguns elementos são: " à medida que", "ao tempo que", "quanto mais... menos" etc.


a) À medida que o desemprego cresce, a população se revolta.


b) Ao tempo que vou te amando cada vez mais, você vai me desprezando.


c) Quanto mais se pesquisa, mais se transforma a sociedade.



Essas são as principais conjunções e suas respectivas orações (claro que a lista pode se estender). Vale ressaltar que neste trabalho tomamos como base o livro de Celso Cunha e Lindley Cintra: "Nova Gramática do Portugês Contemporâneo". Mas algumas lacunas ainda podem ser preenchidas, já que, claramente, esta gramática traz uma exposição bem resumida do assunto e com intenções normativas e didáticas.


Por isso, se nos determos com mais acuidade, veremos que muitas das conjunções ou das chamadas LOCUÇÕES CONJUNTIVAS (ou seja, a reunião de duas palavras para formarem uma unidade) são, na verdade, provenientes de outra natureza gramatical. Assim é que podemos ter advérbios em "Assim que terminou o exercício, foi jogar bola" ("assim", advérbio); preposições em Arrumou-se para ir à festa ("para"); advérbios e conjunções em "Ainda que seja feliz, falta-me algo" ("ainda que", advérbio e conjunção)";  preposição + advérbio em "Fiz tudo, contudo estou triste" (com+tudo, preposição e advérbio); ou mesmo verbo como em "Seja culto seja humilde, o importante é ser honesto" ("seja...  seja", verbo). Desse modo, já podemos vislumbrar que muitas palavras podem adquirir, de acordo com o sentido do texto ou mesmo com o passar do tempo - com o  "evoluir" da língua -,  um deslocamento semântico, podem adquirir outra função, enfim; acomodando-se, dessa maneira, a uma outra realidade linguística e discursiva. Mas tudo isso veremos em outra lição.


Prof. Ivonilton G de Souza


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Coesão: o encadeamento lógico do texto


Em coesão referencial vimos que há palavras que retomam outras, "costuramdo" o texto sem repetições desagradáveis e, por isso mesmo, trazendo mais concisão e elegância. São os pronomes demostrativos (este, isso, aquilo etc), os pronomes pessoais (ele, nós, lhe, te, o etc), os sinônimos e mesmo as "ausências" podem marcar uma coesão referencial (indicada muitas vezes já pelo contexto e/ou uma desistência verbal. Ex.: "Cantei ontem"; logo: "[Eu] cantei ontem").

No estudo que se segue agora vamos ver o processo de coesão no seu aspecto lógico e sintático-semântico da frase, ou melhor, período - para colocarmos as coisas nos seus termos certos.

Sim, amigos, período (e de preferência período composto). Por quê? Porque é no período composto que utilizamos com mais frequência as CONJUNÇÕES. E o que são conjunções? Conjunções, como vimos na outra aula, são termos que vão ligar diversos elementos do texto, deixando-os unidos numa lógica COERENTE. Assim, é bom rever antes o que é frase, período simples e período composto.

Frase é qualquer sentença iniciada por maiúscula e terminada por ponto com sentido completo: Ex.:
 
Ai!

Tô cansado.

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Você foi ao colégio hoje?

Já o período é a frase dotada de verbo (não confunda: em "Ai!" não temos verbo), por isso é considerado também como oração. Se há uma só oração é período simples, como em:

Cheguei cedo ao trabalho. (Um só verbo; período simples)

Se há mais de uma oração é período composto (ou complexo):

Andei, corri e nadei. (Aqui há três verbos; portanto, três orações.)

Ainda que chova, vou viajar. (Duas orações.)

Bem. Isso foi só para refrescar a memória. Mas já posso aproveitar dois dos nossos exemplos para dar início ao nosso assunto. O primeiro a ver é o período composto:

Pedalei, corri e nadei.

Repare que são três verbos (portanto três orações) e só entre o penúltimo e o último separamos com o termo "e". E o que faz esse termo aí? Simples. Esse termo vai ser um elo, entre a oração precedente "corri" com a última "e nadei". Portanto é uma CONJUNÇÃO. Mas não basta só dizer que é uma conjunção. É também uma CONJUNÇÃO ADITIVA. E isso fica bem claro quando percebemos que a partícula "e" tem o papel semântico de adicionar mais uma atividade física praticada pelo interlocutor. Diante disso, em "corri" temos uma oração assindética, pois foi separada pela primeira por vírgula e em "e nadei" temos uma oração sindética, já que a passagem da segunda oração para esta última foi feita por tal conjunção.

É importante salientar que o uso da conjunção deve ser adequado; se não, tira o sentido lógico da frase, pois se colocássemos "mas" em vez de "e" tudo ficaria muito estranho e sem sentido: *Pedalei, corri, mas nadei. Não fica estranho? Sim, claro que sim. Já que vínhamos tendo uma sequência de coisas relacionadas a esporte, não faz sentido colocar o "mas".

Por quê? Porque o "mas" é outra conjunção, com outro significado. Temos, pois, aqui uma conjunção adversativa, que serve a outros propósitos, como no outro exemplo citado: 

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Ora, agora sim o "mas" encontrou seu lugar certo. Já que se esperava, ao contrário de Carlos e Joana, que ela que NÃO fosse feliz - afinal passaporte de felicidade na sociedade em que vivemos é ter um relacionamento amoroso, por mais que haja gente que não pensa assim; mas essas pessoas creio que seja a minoria. Percebem agora de onde vem o termo CONJUNÇÃO ADVERSATIVA? Nessas conjunções há, como indicado, uma adversidade. Ou seja, vão contra uma ideia anterior, frustrando expectativas. Assim, em

Maria foi à praia, mas choveu

temos, no início da segunda oração, uma conjunção adversativa, fazendo dessa oração uma ORAÇÃO COORDENADA SINDÉTICA ADVERSATIVA. Oração, porque possui um verbo; coordenada porque mantém uma independência sintática com a primeira (podendo até ser dividida por ponto); sindética, porque sua passagem em relação à antecedente se faz por conjunção; adversativa porque quebra a ideia da primeira oração. E qual é a ideia da primeira? Ora, é ir à praia para pegar sol, MAS aconteceu uma adversidade: choveu.

Desse modo as conjunções e os conectores vão "costurar o texto", encadear sua lógica, fazendo com que haja uma progressão de ideias. Ideias essas que vão - de acordo com a fluidez do pensamento - se concatenado, vão tecendo suas teias. É possível colocar "Maria foi à praia. Choveu"? Claro que é... Mas deixa de ter coesão e perde certa clareza da expressão. Além de indicar uma certa descontinuidade do pensamento. Claro, se o propósito é estilístico, tudo bem! Se um escritor quer tratar a vida de um trabalhador de maneira mecânica e representar isso na estrutura, na forma do seu texto, tudo bem. Dará até mais sentido a sua técnica - como neste pequeno exemplo criado por mim:

João acordou às 5. Se vestiu. Tomou café. Pegou o ônibus. Martelou, martelou, martelou. Almoçou. Arrotou. Trabalhou. Trabalhou. Trabalhou. Ônibus. Bebeu. Riu. Cuspiu. Casa. Brigou. Dormiu. Às 5 acordou...

Seguindo ainda o roteiro de exemplos que dei no início, vamos ver o período complexo (composto)

Ainda que chova, vou viajar.

Já sabemos que há nesta frase duas orações. Mas aqui temos uma oração principal "Vou viajar" e a oração subordinada "Ainda que chova". Pois bem. É subordinada porque depende sintaticamente da primeira, pois indica uma CONCESSÃO desta, algo que não serve como obstáculo a realização do termo principal. Haja visto que, mesmo "chovendo", nada impede que a viagem seja feita. Por isso então que o sentido fica muito semelhante a essas:

Mesmo que chova, vou viajar.

Apesar de chover, vou viajar.

Ou até em:

Chovendo ou não, vou viajar.

Ora, se temos uma oração concessiva, logo a conjunção que se encontra nela é uma CONJUNÇÃO CONCESSIVA também, a saber: "Ainda que...". É esta partícula que vai fazer o nexo com a oração principal e dar o sentido que vimos. Pode ser comutada, conforme já vimos respectivamente, por "Mesmo que..." e "Apesar de...".

Já na frase "Chovendo ou não, vou viajar" não há textualmente uma conjunção, mas denota uma concessão, pois já vimos seu valor aproximativo com as anteriores.

Para concluir estas breves palavras sobre conjunções, observemos detalhadamente a frase acima citada:

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Há nesta frase quatro orações:

1°: Carlos era casado;

2°: Joana namorava;

3°: Mas só Maria [...] era feliz;

4°: que nunca teve ninguém.

Na primeira temos a oração inicial. Na segunda, como não há conjunção, temos uma oração coordenada (independente) assindética à primeira. Na terceira, temos a conjunção "mas" com valor adversativo (de oposição de ideia) à oração (ou mesmo o todo) anterior, por isso é uma oração coordenada sindética adversativa. Mas repare que no meio desta há uma outra (a quarta) que se subordina a ela e ligada pelo CONECTIVO "que". Repare que dissemos conectivo, não conjunção. Isso se explica porque essa partícula é, na verdade, um pronome. É só desdobrar que tudo fica mais claro.

Maria era feliz. Ela [Maria] nunca teve ninguém.

Viram?... O "que" da oração "que nunca teve ninguém" é um PRONOME RELATIVO, pois substitui Maria (faz referência a). Por isso, faz parte do processo coesivo também, evitando a repetição do termo anterior e unindo (assim conector) os períodos ou orações. O que faz dessa oração ser subordinada é o fato de ter dependência da principal "...mas só Maria era feliz".

Mas, seguindo os conselhos do mestre Tom Jobim na música Wave,

"Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho"

creio ser melhor dar uma ponta de esperança a Maria e colocar uma CONCESSIVA. Talvez ela não seja tão feliz assim e as coisas mudem:

Carlos era casado, Joana namorava, mas, apesar de ainda ter esperança com José, só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Bem... Depois desse momento de conjecturas e preocupações com a vida de Maria, cabe-nos observar que as orações (com o correto modo de usar os conectivos e, especificamente, as conjunções) podem crescer infinitamente ao gosto do escritor. Como se percebe, coloquei outra subordinada (através da conjunção "apesar de...") na principal "... mas só Maria era feliz". Ressaltamos com isso o poder criativo e ilimitado da organização das frases. E, por conseguinte, as conjunções ajudam-nos a tecer, a armar, a costurar esse tecido flexivel e móvel ao sabor da criatividade e ao delineamento lógico da razão - que, se às vezes escapa, é por um capricho estético (como no exemplo que dei do trabalhador) ou até inconsciente, fazendo com que mergulhemos no universo da fantasia e das sensações inusitadas - do estranhamento, como um crítico literário já fez observar. Mas isso é outra história.


Prof. Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Morfologia: radical e raiz (os constituintes imediatos)



Nos textos anteriores trabalhamos somente com o conceito de radical. Isso porque RADICAL é o morfema extraliguístico (sustenta a significação exterior) mais evidente numa palavra. O que se apresenta de maneira mais clara e imediata na constituição da palavra e, vale ressaltar, em sua plena atualidade, ou seja, num registro sincrônico e vivo da língua. Mas o que queremos dizer com "registro sincrônico e vivo da língua"? Sincrônico quer dizer num ponto fixo, exato na linha do tempo, sem levar em consideração sua linha evolutiva, sua diacronia portanto. E vivo porque é a maneira como atualmente a usamos. Para facilitar as coisas, veja um exemplo, primeiramente de diacronia:


pede > pee > pé (diacronia, estudo da mudança da língua)


Com o que vimos acima, observamos por quais mudanças, através da história interna da língua, a palavra "pé" já passou. O interessante é que em palavras atuais ainda há reflexos da língua antiga como:


pedicure


pedestre


pedalar


Repare que em todas a forma básica "ped-" é igual. Mas em pezinho essa forma desaparece, passando a ser o radical somente "pe-", acompanhado do sufixo de grau diminutivo "-inho" com a consoante de ligação "-z-". Conclui-se então que o primeiro radical traz uma forma mais culta; o segundo, mais atualizada, por conseguinte popular. Poder-se-ia dizer que a realização do morfema "ped-" (ex.: ped + estre) é um alomorfe do radical "pe-" (pe + z + inho), cuja vogal temática sofreu crase com o "e" do radical depois que o "d" caiu, com a mencionada evolução do termo (repetindo: pede > pee > pé).


Feitas essas distinções iniciais entre diacronia e sincronia podemos prosseguir no nosso assunto; pois, afinal: Qual a diferença entre raiz e radical? Bem, RAIZ é a forma primária da palavra, a forma irredutível. E muitas vezes só é visualizada em uma forma latina, língua que deu origem a maioria das nossas palavras. Por isso foi necessário essa introdução ao conceito de diacronia, de história das palavras.


As palavras, assim, são passíveis de divisões até chegarem a uma forma mínima, às vezes só percebida ao estudioso do idioma. Ex.:


a) desconfiar

b) confiar

c) fiar


Como se vê em (a) temos o prefixo "des-". Mas em (b) esse prefixo cai fora, ficando apenas "confiar". Acontece que há outro prefixo que não é percebido claramente no estágio atual da língua. É o prefixo "con-"(que se escreve com "n" devido a acomodação fonética/ortográfica, pois deveria ser "m"). Até mesmo porque muitos desses prefixos são preposições que se juntaram aos radicais: complacente, compaixão, compatível etc. Semanticamente indicam algo que está junto a algo ou alguém.


A palavra assim pode ser "retalhada" morfologicamente até as últimas consequências, conforme se segue:


d) fia-r

e) fi-a

f)  fi


Em (d) destacamos o "-r" desinencial (verbo no infinitivo); depois em (b) separamos o morfema temático "-a-", ou seja tema da primeira conjugação, encontrado também em cant-a-r, am-a-r, palavre-a-r... Por fim, em (f) destacamos a raiz "fi-". Ora, é a mesma raiz que encontramos em fiança, fiador, fiado, inafiançável etc. Bem, todas essas palavras cognatas, ou seja, do mesmo grupo semântico, vem do latim "fidere".


Pois então. Para terem mais "confiança" no assunto guardem esta palavra na memória (voltarei a ela depois) e vamos a outro exemplo extraído da gramática do professor Evanildo Bechara. O vocábulo é este:


desregularizar


Ora, analisando-a, logo notamos que se trata de um verbo. Assim tirando a vogal temática "-a-" e o morfe de infinitivo "-r" temos


desregulariz.


Indo para o lado esquerdo da palavra temos o prefixo "des-", que também vamos apagar:


regulariz


Mas as coisas não param por aí. De "regulariz" podemos destacar outro sufixo: "-iz-". Ficando:


regular


Ora, regular pode ser dividido em


regul.


E para terminar logo, se não não sobra nada da palavra, temos ainda


reg.


Aliás, é a mesma raiz que aparece em "reger", "régua", segundo o professor Bechara. Com isso, chegamos à conclusão que para se chegar à RAIZ, também chamada de RADICAL PRIMÁRIO, deve-se destacar vários morfemas da palavra para obter-se sua base inicial, muitas vezes - mas nem sempre - de formação latina.


E muitas vezes também essa raiz já não faz mais sentido para nossa sincronia, para nosso estágio atual da língua. E é neste ponto que voltamos ao nosso exemplo: confiar.


Há muito tempo a noção de preposição "com" desapareceu e está totalmente integrada à palavra. Assim como a noção de prefixo também é quase despercebida nesse morfema. Desse modo, analisando sincronicamente a palavra, ou seja, em termos atuais, seria mais fácil dizer que em "confiar" o radical é "confi-". Por isso, cabe mais o estudo da língua (nas escolas principalmente) em seu momento presente, deixando as observações diacrônicas para os estudiosos da história da língua, para os etimologistas com vasta erudição.


Soma-se a isso, o fato de "confiar", apesar de ser uma palavra cognata (do mesmo grupo) de fiar, ter já um sentido próprio e diverso. Ninguém diz: - Eu vou fiar em você. Se alguém diz isso, ou é em áreas muito restritas, ou não está se apropriando bem da língua. Há o sentido de fiar ainda, mas atualmente denota mais coisas relativas a empréstimos, por exemplo: "Ele é meu fiador". Ou seja, de dar crédito monetário, mais adequada às questões pecuniárias. E, assim, pouco se tem lembrança de "fiar" como "confiar", manter laços de comprometimento, enfim.


E podemos - pegando esse gancho - ir um pouco além, já que pouco interessa ao estudante comum que a raiz da palavra comer é "ed-" (!). Isso mesmo, pois houve uma prefixacão do "com" em "edere" ("com + edere"), este último igual ao nosso comer, logo a raiz é, como dito, "ed-". Parece estranho mas é o mesmo que se vê em compartilhar, comprazer etc.


Desse modo, há duas vertentes ao analisar morfologicamente as palavras. A vertente diacrônica e a vertente sincrônica, esta mais em voga nos estudos "hodiernos" (talvez provocando com essa palavra já tão em desuso, que quer dizer "hoje em dia").


Bem, voltando... Na verdade, o que se tem é algo chamado de CONSTITUINTES IMEDIATOS. E o que é isso? Isso é nada mais nada menos do que analisar as palavras partindo, vamos dizer, de sua "totalidade" mais imediata. Assim, colhendo outro exemplo da "Moderna Gramática", de Bechara, vemos:


desrespeitosamente > desrespeitosa (constituintes imediatos)


E assim sugerindo destaques sucessivos:


respeitosa > respeit > speit (aqui, radical primário ou raiz)


Desse modo, o constituinte imediato de "desconfiantemente" seria "desconfiante-", destacando o morfema que indica advérbio "-mente": ("desconfiante-mente").


Enfim, análise sincrônica nos é válida porque atende à demanda de uma linguagem viva, sem precisarmos nos socorrer a conhecimentos eruditos e já perdidos da língua, favorecendo-nos assim numa compreensão mais, se é que posso usar esse termo, mais instrumental dela.


O mesmo se pode dizer para palavras compostas que já perderam seu sentido de composição há muito tempo, pois, a não ser consultando um manual de gramática tradicional, quem aqui se lembra que "fidalgo" provém de "filho de algo"? Ou seja, de nobres. Claro que esse sentido de composição já se perdeu há muito tempo e vemos a palavra em seu conjunto unitário. Por isso o radical dela, nesse sentido, é "fidalg-", como em fidalguia. O mesmo, cremos, pode se dizer de "telefone". A composição "tele"+"fone" (tranporte do som) já praticamente é ignorada (a menos se nos detivermos com atenção). Logo, seria melhor termos não dois radicais, mas somente um, como sugere seus inúmeros derivados: telefone, telefonar, telefonista, telefônica, telefonema, telefoninho etc. Portanto: telefon (R) + e (VT).


Diferente, é claro, de "navio-escola", "paraquedas", "sino-brasileiro", "pé-de-moleque" e até mesmo (por que não?) o sintagma "sala de aula"... Estas sim, verdadeiras palavras compostas.


Concluindo. O estudo da língua passou a ser essencialmente sincrônico, pois facilita a compreensão da constituição da palavra no seu estágio atual. Grande defensores dessa linha foram o mestre Mattoso Câmara e o veterano Said Ali. Apesar desse último ter escrito uma gramática histórica. Esse método de estudo teve imensa penetração nos nossos compêndios gramaticais nos anos 60 e 70 - com Bechara (já citado), Celso Cunha e outros.


Se as análises mórficas antes se pautavam pela história da língua, agora se pautam pela estrutura dada no momento atual da evolução. Isso traz a vantagem, como vimos, de podermos fazer a análise dos constituintes do léxico sem termos de socorrer-nos à formação inicial do termo, que muitas vezes só o erudito tem acesso. Podemos assim operacionalizá-la com os elementos disponíveis no nosso repertório linguístico sem maiores problemas. Há importância em saber sua formação histórica? Certamente o há. Talvez para captar sua essência e profundidade etimológica como tantos cientistas e renomados filósofos o fazem. Mas nunca para demonstrar a vaguidade ociosa e descompromissada da erudição. 


Ivonilton G de Souza

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Morfologia: verbos e substantivos (derivação regressiva e derivação progressiva)




Já vimos anteriormente ("Morfologia: a estrutura das palavras sob o ponto de vista sintático-semântico") que as classes das palavras podem mudar de acordo com o seu sentido (semanticamente), com sua função sintática na frase e em sua estrutura (formalmente), como nos exemplos abaixo:


a) O cão é o melhor amigo do homem.

b) A amizade do cão é eterna.


Onde na letra (a) temos "amigo" como adjetivo, pois tem o sentido de qualificar, é o núcleo do predicativo do sujeito "O cão" e apresenta-se em sua forma primária de adjetivo apresentando apenas o radical "amig-" e a vogal temática "-o" (ou desinência de gênero masculino, como veem outros gramáticos).


Já na letra (b) o termo "amizade" sofre derivação, tendo em vista que passa a ser um substantivo (cujo sentido é nomear seres concretos ou abstratos), é o núcleo do sujeito da oração e recebe o afixo (no caso aqui sufixo) derivacional "-ade", posposto ao radical "ami(z)-": "ami(z)+ade".


Pois então. O enfoque neste trabalho recairá sobre os substantivos e os verbos. Para entendê-los é preciso ter em mente qual palavra tem origem na língua, ou seja, qual é a primária, pois só assim poderemos saber quem deriva de quem. Tarefa esta que não é tão simples. Não o é porque a palavra primitiva pode ter origens remotas: grega, latina, ou até indoeuropeia. Mas muitos pesquisadores tentam solucionar o problema (pelo menos de uma maneira didática e um tanto generalizada, já que se verifica excessões) dizendo que os substantivos que designam ação são derivados dos seus respectivos verbos. Mas como têm morfemas reduzidos esses substantivos se classificam com o que ficou conhecido de DERIVAÇÃO REGRESSIVA.


Sigamos estes exemplos para as coisas ficarem mais claras:


pescar - pesca


consolar - consolo


atacar - ataque


Na primeira coluna temos os verbos (pescar, consolar, atacar) e na segunda seus respectivos substantivos (pesca, consolo, ataque). Ora, como vemos, todas as palavras da primeira coluna são verbos em sua forma infinitiva (lembrando que forma infinitiva são também formas nominais, pois podemos dizer "O falar é fundamental para o psicanalista"). São verbos porque, nestes exemplos,  indicam uma ação, um movimento. E estão na forma infinitiva formalmente porque recebem a desinência "-r" após o  tema: pesca-r, consola-r, ataca-r. Se estivessem conjugados, estariam na forma finita: pescá-va-mos.


Se já sabemos então que são verbos, deduz-se consequentemente que são as formas primitivas. Ou seja, a forma inicial da palavra, tendo como seu derivado os substantivos, os quais estão no segundo grupo de palavras: pesca, consolo, ataque.


Estas palavras vão receber a classificação, como já dissemos, de DERIVAÇÃO REGRESSIVA. Mas por que se dá isso?


 Dá-se porque, como já anotado com o substantivo e o adjetivo, vão sofrer variações de sentido, de sintaxe e formalmente. É só observar as frases abaixo:


c) Pesquei bastante ontem.


d) A pesca está proibida nessas águas.


Em (c) temos o verbo pescar no passado (pretérito perfeito do indicativo), indicando o núcleo do predicado (predicado verbal), com a seguinte estrutura formal: pesqu (radical) + ei (desinência número pessoal) + 0 (desinência modo temporal zero). Observação: é a desinência zero que indica que está no pretérito perfeito, pois é marcado por ausência. E, enfim, o "-qu-" é uma adaptação ortográfica do "-c-" de pesca, pois se não era impossível obter fonema (som) oclusivo velar surdo, representado foneticamente por /k/.


Na letra (d), com a derivação regressiva, a palavra tranforma-se em substantivo. Primeiro porque em termos de sentido (semântico) passa a designar o NOME de uma ação, com seu respectivo artigo; segundo porque, sintaticamente, passa a ser sujeito da oração; terceiro porque há mudanças formais nítidas. A estrutura morfológica da palavra se enxuga; já que temos: pesca (radical) + a (desinência de gênero feminino),  "A pesc-a".


O mesmo se sucede com as outras palavras do grupo. Mas com uma mudança observável: o tema muda do "-a" em "pesca" para "-o" (consolo) e "-e" (ataque).


São por essas razões que muitos professores vão dizer que só há desinência em feminino quando a palavra termina em "-a", sendo aquelas que terminam em "-o" apenas uma indicação de vogal tamática, assim, na verdade, o que delimita seu gênero seria o artigo "o" ou "a" obrigatoriamente em português posicionado antes do substantivo, já que podemos ter  palavras como "O estudante" ou "A estudante". Depreende-se facilmente que só visualizamos o gênero através do artigo, pois em ambas temos o tema "-e", "estudant-e". Salvo usos que podem se consagrar: presidente ou presidenta. Mas isso é uma questão que veremos em outra exposição.


Importa aqui observar que termos colocado na lista de exemplos as palavras "consolo" e "ataque" não foi mera coincidência; foi para dizer que o morfena final de consolo (consol-o) para uns é desinência de gênero e para outros vogal temática. E o morfema final do substantivo deverbal "ataque" (ataqu-e) será sempre vogal temática, cujo critério de gênero recairá no artigo explícito ou implícito "o". Assim: "O ataque às bases foi cruel", "Ataques à ordem pública só prejudicam o país".


Para completar, dissemos no parágrafo anterior "substantivo deverbal" (uma de suas outras denominações), porque deriva regressivamente de um verbo de ação, formando consequentemente um substantivo que demonstra acão, fundamentalmente. Enfim, decai (como o próprio prefixo "de-" o indica) de sua forma verbal.


Mas, diante disso tudo, poderia acontecer o inverso? Há palavras substantivas que se transformam em verbos? Se as há, como saber que, neste caso, são os verbos que são derivados e os substantivos as palavras primárias?


Bem. Vamos por partes... Sim. A resposta é sim. Há palavras que originariamente são substantivos e se transformam em verbos. E o nosso dia a dia está repleto delas. Principalmente no mundo da tecnologia: tuitar, escanear, printar, logar etc. Essas palavras novas são chamadas de NEOLOGISMOS, assunto que veremos mais tarde.


O que vem ao caso agora é saber como descobrimos qual é a palavra primitiva. Bem, em geral a palavra primitiva, da qual surge o verbo, é a palavra que dá nome a algum "objeto" ou "substância", segundo a definição do filólogo Mário Barreto. Assim, portanto, teríamos:


fuzil (objeto) - fuzilar (verbo)


azeite (objeto) - azeitar (verbo)


sapato (objeto) - sapatear (verbo)



Com esta classificação, DERIVAÇÃO PROGRESSIVA, fica mais fácil enxergar que primeiro surgiu o objeto e depois seu derivado. Assim, o primeiro par já nos basta para fazermos uma análise dos constituintes morfológicos:


fuzil (radical)


fuzil (radical) + a (vogal temática) + r (desinência verbal de infinitivo)


Repare que o substantivo fuzil não possui morfema de vogal temática (ou de desinência de gênero), que será zero, como também em mar, lápis, papel etc. Em "mar", para ficarmos só nesse exemplo, esse morfema só vai aparecer no plural, "mares"; onde se tem: mar (radical) + e (vogal temática) + s (desinência de número plural).


Diante do exposto, na derivação progressiva, GRAMPO é o nome de um objeto que serve para prender as coisas. Logo, em "Ela GRAMPEOU seu cabelo" temos seu correspondente derivado em verbo.


Não seria diferente com a invenção do escâner, que virou nome de aparelho que digitaliza, digitalizador (termo que não caiu no nosso gosto). E depois, verbo: escanear. Isso, pelo menos a princípio, pois uma breve consulta no dicionário Houaiss nos faz ver que escâner provém de "scanner", que em inglês quer dizer explorador, daí talvez ter surgido o nome do aparelho por analogia, pois "explora", copiando documentos com códigos binários. No nosso idioma, é um estrangeirismo, surgido com a popularização do aparelho. Mas esse estrangeirismo, consequentemente, se aportuguesou, pois já consta grafia própria no nosso idioma, conforme constatamos acima e de exemplo extraído de dicionário renomado. Nesse sentido, não há problema algum em ver como derivação progressiva o termo "escanear", outra invenção criativa da língua.


Em verdade, não é tarefa simples descobrir a palavra primária, pois a maior parte de nossa língua provém do latim, outra parte do grego, sem contar ainda com a hipotética língua indoeuropeia, que seria a base de tudo. Imagina descermos tudo isso para ver o que deriva de quê. Por exemplo, seguindo esse critério diacrônico, ou seja, de história da evolução da língua, o linguísta Said Ali vai dizer que "janta" é deverbal, é derivado de "jantar", adequando-se aos nossos exemplos; mas "almoço" (do latim "admorteriu" ou "admorsu") é palavra primitiva, tendo surgido antes de "almoçar", e por isso, pertence à derivação progressiva.


Assim, tentando resolver esse impasse há quem queira (Horácio Rolim, por exemplo) acabar com esse inconveniente fazendo somente uma análise sincrônica (estado da língua num dado momento, sem se socorrer à história evolutiva, à etimologia). Desse modo, segundo Horácio em seu livo "Princípios de Morfologia", a palavra "pesca" não seria proveniente de "pescar", já que o morfema "-a" formaria somente um tema nominal no substantivo "pesca" e, no verbo infinitivo ("pescar"), o morfema "-a-" formaria um tema com flexão verbal na primeira conjugação apenas, com acréscimo do morfema "-r" ao final. Assim, segundo seu raciocínio, "pesca" teria unicamente um radical nominal e "pescar" um radical verbal - neutralizando, com astúcia, as dificuldades em se descobrir a palavra primitiva. E vai além, pois como pode ser derivada uma palavra como "fuzil" se ela aparece na íntegra, sem nenhum morfema derivacional, portanto? Só se viabiliza então como um simples radical nominal.


De qualquer forma, apesar de serem boas as ideias precedentes, elas ainda não foram agasalhadas pela gramática tradicional. Por isso e levando em conta ainda o critério de uma exposição mais didática (mesmo que hajam excessões), torna-se mais pertinente e claro a exposição feita no decorrer do trabalho, sob o estabelecimento de "derivação regressiva" e "derivação progressiva". Exposição amplamente defendida por inúmeros linguístas e gramáticos. E que, por fim, atende à demanda escolar e de uma compreensão mais simplificada (sem deixar de ser autêntica) do estudo da constituição das palavras; esposada, desse modo, por bons manuais expostos em nossas bibliotecas. O que não invalida, evidentemete, empreendimentos sinceros para melhor entender a língua, mas que, muito possivelmente, só o tempo dará adesão e validez necessária às especulações e experimentos que se iniciam atualmente no mundo acadêmico.


Prof. Ivonilton G de Souza


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A estrutura do texto de ficção: espaço, tempo, personagens e conflito




Numa história ficcional há alguns elementos que são importantes para a sua constituição. São eles:


a) O espaço. Onde a história é contada. Em que lugar, podendo ser uma casa, uma rua, um bairro, uma cidade, um país etc.


Os espaços podem mudar conforme o andamento da história. Em uma crônica ou conto os espaços tendem a ser mais restritos, mas isso não é uma regra. Já nas novelas e, principalmente, romances os espaços são mais diversificados, devido a complexidade da história. Além disso a ficção moderna e contemporânea sempre oferecem mais ambientes, pois o intercâmbio de pessoas e povos ficou mais dinâmico.



b) O tempo. Toda narrativa envolve um tempo. Aliás, a característica principal de narrar é esta, ou seja, contar uma história com uma sucessão temporal. Em geral as narrativas usam o tempo passado (pretérito). Mas há histórias que usam o tempo presente. Aliás, o tempo presente apresenta uma certa neutralidade, pois, por exemplo, é comum encontrarmos nos jornais manchetes assim: "Homem rouba banco mas deixa pistas". Ora, o jornal geralmente noticia algo que já aconteceu. Se a manchete está no tempo presente (presente do Indicativo) é porque esse tempo é, muitas vezes, neutro. E está, na verdade, se referindo ao passado. Ou, conforme o contexto, até ao futuro, como em: "Não gaste todo seu dinheiro. Amanhã ACABA a grana e ficamos mal". Como se vê o verbo ACABA está no presente do indicativo e se refere a algo que só vai acontecer amanhã.


Pois bem. Nas histórias maiores principalmente (novelas e romances) o tempo da narração é, naturalmente, maior. E nos romances épicos podem passar várias gerações. Mas o tempo não é marcado só pela exterioridade dos eventos. É marcado também internamente, PSICOLOGICAMENTE na cabeça de cada personagem. Aliás, como pode até acontecer conosco, pois às vezes não temos a impressão de o tempo passar muito rápido ou demorar uma eternidade? Pois então, o mesmo acontece com os personagens. Uma sensação, um sentimento, uma angústia ou alegria, pode se estender durante várias páginas, ser detalhada nos seus mínimos detalhes, em suas diversas matizes, enquanto tudo se passa cronologicamente em alguns poucos minutos. Cabe ao autor da história destacar ou não essa percepção de tempo.


Falta ainda ressaltar que o tempo pode ser linear ou não. Assim a história pode começar do "começo", ter o desenvolvimento de suas tramas (em geral com um ápice dramático) e terminar no "final". Este tipo de narrativa é a mais comum e chamamos de "narrativa linear". Ocorre, porém, que a história pode começar do final ou do meio. É muito comum, por exemplo, vermos isso no cinema. Não há histórias que primeiro aparece um assassinato e depois não se conta como tudo aconteceu até aquele crime? Quando se faz isso, se está começando do final. É bom lembrar, aliás, que grandes filmes surgiram da literatura. Depois que foram adaptados às telinhas. Enfim, na ficção pode haver um embaralhamento dos eventos a serem narrados: do meio pro começo e depois fim, do fim pro meio e então começo etc. Além de narrativas de histórias paralelas, com dois tempos iguais ou diferentes. Ex.: Um idoso se lembrando de sua vida e um outro observador contando como as coisas aconteceram sob outro ponto de vista. Enfim, as variantes são muitas. O que é importante observar é que esse embaralhamento de tempos narrativos se vê mais na literatura moderna e contemporânea, na qual o tempo passa a ter uma relatividade, subjetividade e fragmentação cada vez maior. Aliás, sem querer ir longe, o que se dá até com a física quântica. Essa, sem dúvida, é uma das características principais do que se costumou chamar de pós-mordenismo, mas que já tem seus experimentos em épocas anteriores.



c) Personagens. Personagens são serem animados (humanos, animais ou coisas, estes dois últimos em fábulas) que praticam a ação num determinado tempo, num determinado lugar e com certas características psicológicas. Assim, uma história pode ter só um personagem ou vários. É natural que quanto menor for a história (crônicas, contos) menos personagens tenha; e quanto maior (novela e romance), haja maior diversidade de personagens. Como se disse, num romance épico, pode haver várias gerações de personagens.


Os personagens carregam suas marcas físicas (cor da pele, formato do corpo, tipo de roupas etc) e psicológicas (alegre, triste, mal-humuraddo, gentil, ingênuo, inteligente etc.). Cabe ao autor ressaltar suas características de acordo com seu papel na história para dar verossimilhança ao que é narrado. Evidentemete que as características físicas e/ou psicológicas podem se transformar de acordo com o prosseguimento dos eventos. E é o que muitas vezes acontece. Às vezes mais, às vezes menos.


O que ocorre é que, dependendo do tipo de história (mais comum em romances) há basicamente duas maneiras de se descrever um personagem. Ou ele é plano: ou seja, são bastante marcados em perfís psicológicos, como num romance policial, onde um detetive vai ser sempre o durão e o bandido o covarde, por exemplo. Nesse sentido as características não sofrem grandes variações, são sempre planas, basicamente iguais. Ou ele é redondo: um só personagem revela uma riqueza de sentimentos, de conflitos interiores, passando por vários estágios ou características. Desse modo, às vezes está eufórico, às vezes está triste, às vezes sente dúvida, e outras tem convicções inabaláveis, por exemplo. Estes personagens são bastantes complexos e merecem uma atenção especial do leitor, pois revelam os labirintos, de maneira mais fidedigna, da mente humana. Pois todos nós revelamos, até certo ponto, conflitos interiores. É um turbilhão de emoções que passam pela gente diariamente e que muitas vezes não nos damos conta, mas eles estão lá, incoscientemente. E muitas vezes se expressam de maneira maquinal.  O escritor habilidoso vai saber observar tudo isso num personagem e trazer, através da linguagem, para o leitor, que pode, por sua vez, dar múltiplas significacões ao que se passa na mente do personagem, se identificando ou até tendo repulsa. Identificar-se ou criar repulsa é ter um ato de CATARSE. Termo grego, cunhado por Aristóteles, que (grosso modo) diz que só quando nos deparamos com a representação dos personagens que conseguimos nos enxergar e expulsar nossos males e "demônios", nos aliviando, consequentemente.



d) O conflito. Por último temos o conflito. Ele se dá através do diálogo, do jogo de interesses, da disputa entre os personagens. O conflito ocorre quando há ação. Assim, o conflito é a troca dialética, o confronto de subjetividades, de interesses. Nessa disputa cada um defende aquilo que almeja e pode entrar, a qualquer momento, em confronto com o outro. Há um momento certo para a história atingir o ápice do conflito. Em geral isso ocorre um pouco depois do meio. É através do conflito que se cria os enlaces da trama a ser contada. Um exemplo de conflito muito comum nas histórias de trama familiar (e até da vida de carne e osso moderna): 

Dois jovens apaixonados se casam, constroem uma bela casa e são até então felizes. E têm um filho. Mas a mulher, depois de um tempo, não ama mais seu marido e arranja um amante. Ele descobre e vai tomar satisfação com ela [primeiro conflito]. Depois consegue achar o amante dela e ameaça-o [segundo conflito]. Já muito desiludido então, o marido resolve se separar, mas há um problema: Com quem vai ficar o filho ainda pequeno? Então entram em disputa jurídica [terceiro conflito]. A sua ex-mulher consegue a guarda da criança e o seu ex-marido fica extremamente deprimido e tenta o suicídio [quarto conflito]. Mas depois encontra outra jovem e se casa novamente.


Como se vê, no conflito os interesses dos personagens são defendidos por cada qual. Às vezes no diálogo e às vezes em ações agressivas. Mas, além disso, o personagem pode também entrar em conflito consigo mesmo. Esses conflitos internos são muitos comuns em personagens mais redondos, mais complexos como disse. Fora isso, nesse pequeno resumo de história, vimos que ao começo tudo ia bem e seu ápice dramático se dá mais do meio para o final.



Conclusão


Esses tópicos, que estão sempre se entrelaçando e tecendo a malha do texto, são fundamentais para a construção de uma história ficcional. Há ainda muita coisa a ser vista como: o ponto de vista do narrador, a verossimilhança, o estilo do texto etc. Tudo isso será observado em aulas posteriores detalhadamente. Creio, porém, que o mais importante é ler bons romances. Isso nunca vai substituir fórmulas que tentam matematizar a literatura. Ainda mais fórmulas fixas (bem ao gosto da escola Estruturalista), já que em literatura tudo é maleável, movediço e lúdico. Além, é claro, de nos recompensarmos com o prazer do texto. Isso sim é insubstituível.



Prof. Ivonilton G de Souza

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Morfologia: a estrutura das palavras sob o ponto de vista sintático-semântico


Morfologia estuda também as classes gramaticais. Podemos dizer que uma mesma palavra pode assumir vários aspectos. E cada aspecto tem sua característica própria. Ora, um grupo de palavras que têm a mesma característica recebe uma só classificação. É como se tivéssemos um armário com várias gavetas. Há a gaveta das camisas, das calças, das meias, das roupas íntimas e por aí vai. Classificar, então, é arrumar esse armário, colocando cada coisa no seu lugar. Assim temos dez classes gramaticais: substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, preposição, conjunção, artigo, pronome, interjeição e numeral ( as duas últimas questionadas).


Vamos, por enquanto, trabalhar só com substantivo e adjetivo (no seu ponto de vista semântico-estrural). Depois veremos o resto.


Repare nessas palavras:


amigo - amizade

triste - tristeza

belo - beleza

Impulsivo - impulso


No primeiro grupo (coluna) temos palavras adjetivas; no segundo substantivos. 


É importante ter em mente que todo substantivo é precedido de artigo (o pássaro, o fenômeno,  a amizade, umas amizades). Aliás, seguindo esse critério, qualquer palavra pode virar substantivo. Até uma interjeição (ex.: "O ai que ele gritou me deu pena"; repare no "o" antes da interjeição "ai").


Mas, em termos de estrutura, o que muda na primeira coluna para a segunda? Não há grafias diferentes?


Claro que sim. Na segunda coluna foi colocado um morfema derivacional. Assim, a palavra, que antes era um adjetivo, se derivou (se transformou) em substantivo. Vejamos primeiro a palavra numa frase e depois na sua estrutura.


Ele é meu amigo. ("Amigo" nessa posição na frase é adjetivo, pois específica quem ele é.)


A amizade verdadeira não tem preço. ("Amizade" é um substantivo, pois nomeia um algo; no caso, um sentimento.)


O mesmo se dá com os outros exemplos:


A pobreza é triste.(Adj.)

A tristeza é o mal da alma. (Sub.)


A vida é bela. (Adj.)

A beleza da vida consiste no amor aos outros. (Sub.)


Mike Tyson era um boxeador impulsivo. (Adj.)

O meu impulso era gritar. (Sub.)


Bem. Vejamos mais de perto agora como fica MORFOLOGICAMENTE estas palavras.


amigo - amizade


Adj. em "Ele é amigo": amig- (radical); -o (tema).


Sub.: amig- (radical); -z- (consoante de ligação); -ade (sufixo).



triste - tristeza


Adj.: trist- (radical); -e (tema).


Sub.: trist- (radical); -eza (sufixo).



belo - beleza


Adj.: bel- (radical); -o (tema).


Sub.: bel- (radical); eza (sufixo).



impulsivo - impulso


Adj.: impuls- (radical); -ivo (sufixo).


Sub.: impuls- (radical); o (tema).




Tema é uma vogal temática, em geral colocada após o radical, base da palavra. É dessa base que as outras derivam. Acontece que há palavras que por sua natureza são adjetivos, outras adjetivos, outras advérbios, e por aí vai. Essa classificação (de qual classificação primordial da palavra) vai depender do seu ponto de vista semântico, do seu significado. E as mudanças se dão no ponto de vista sintático (relacional) também; ou seja, qual relação que se mantém junto às outras.


Assim, originariamente, "belo" é um adjetivo, pois qualifica e específica algo, mas pode se transformar em um substantivo, sem mesmo mudar sua estrutura. Ex.: O belo na poesia é imprescindível.


Repare que, para virar um substantivo, ela mudou sua posição na oração. Deixa de ser um predicativo do sujeito como em "Ele é belo" e passa a ser o sujeito da oração, no nosso exemplo. Além, é claro, de receber um artigo antes. Mas poderia derivar também: A beleza na poesia é fundamental.


Retornando ao que dizíamos: a característica inicial da palavra, em geral, vai determiná-la morfologicamente. Está bem óbvio que triste é um adjetivo antes de ser um substantivo (Maria é triste). Por isso depois do radical "trist-" só temos o tema "-e". Mas passa por um processo de derivação quando passa a ser um nome substantivo, portanto recebe um sufixo derivacional: "-eza".


O contrário se dá com o último par "impulsivo - impulso". Aqui temos vogal temática em "impulso" (impuls-o) e derivação no adjetivo impulsivo (impuls-ivo). Deduz-se então que impulsivo deriva do substantivo impulso. Vejamos um outro exemplo bem simples:


pedra - pedreiro


Substantivo: pedr-a.

Adjetivo: pedr-eiro.


Podemos ainda dividir mais morfologicamente pedreiro? Sim. Podemos sim.


pedr- (radical); -eir- (sufixo derivacional); -o (morfema de gênero do masculino).


Poderia (hoje em dia as mulheres fazem tudo) ser do gênero feminino também: pedreir-a.


Obs.: Há gramáticos que só veem morfemas femininos. Pois as palavras masculinas teriam morfema zero e a vogal seria somente um tema. Assim: menino, onde o "o" final seria o tema. O morfema ausente de feminino que daria seu gênero: menin- (R) + o (T) + (0, morfema zero). Bem diferente em menina: menin- (R) + a (morfema de gênero feminino).


Pois bem. Nesta exposição comparamos duas classes gramaticais com suas implicações semânticas e, principalmente, do ponto de vista da estrutura. Isso já dá subsídios para entender que há no estudo de morfologia uma ampla correlação com outros tópicos da gramática . Na verdade a linguagem é uma rede de tecido com uma maleabilidade semântica do discurso. Por isso o assunto não se esgota por aqui. Mas, mais do que descrever, o intuito principal deste estudo, e de outros que se seguirão, é guiar nosso raciocínio nessa rede, por vezes abstrata, mas que pode ter muita utilidade para a elucidação e construção de um mundo concreto.


Prof. Ivonilton G de Souza



terça-feira, 11 de agosto de 2020

Morfologia: a estrutura das palavras



A morfologia vai estudar as unidades mínimas significativas das palavras. Por isso, além de avaliar como seu esqueleto é feito, ou seja, sua estrutura, vai buscar os significados de cada parte que as compõem. Tomemos essas palavras:


Feliz

Infeliz

Felizmente

Infelizmente

Feliticitar


Ora, vemos que em todas elas há uma parte que não varia. Essa parte é a base e podemos chamar de radical: Feliz.  


(Obs.: em algumas por motivos fonéticos, de som, o "z" se transforma em "c", são as mudanças morfofonêmicas.)


Mas ao acrescentarmos o "in" em feliz o significado da palavra muda totalmente, pois passa a ter um sentido negativo. Ex.: "Marcelo vive triste; parece ser INFELIZ".


No entanto, a palavra continua sendo ainda um adjetivo.


A partícula "in" (de "infeliz", no nosso exemplo) é um morfema. E o que é um morfema? Morfema é a unidade mínima significativa da palavra. Mínima, porque não pode ser decomposto em unidades menores; significativa, porque possui um significado, possui, melhor dizendo, uma natureza semântica, representando algo. Neste exemplo, uma negação. Como também nesses outros morfemas: desfazer (des-), atípico (a-), utopia (u-).


Estes morfemas (e outros com significados diferentes, como sublinhar, por exemplo, colocar linha em baixo, daí "sub") receberão o nome de específico de PREFIXOS, já que são afixados antes da palavras. Assim, são AFIXOS, porque integrados à base das palavras, e são PREFIXOS, porque são colocados anteriormente. Em síntese: são AFIXOS PREFIXAIS.


No terceiro exemplo de nossa lista de palavras as coisas mudam. Foi acrescentada uma unidade não antes do radical (da base da palavra) mas no seu final. Trata-se, como vimos, também de um afixo, mas aqui agora não vem antes e sim depois, por isso chamaremos o morfema "-mente" ("felizmente") de SUFIXO. 


Mas as mudanças não param por aí. O morfema sufixal posposto ao radical mudou sua categoria gramatical, passando a ser agora um advérbio, que melhor poderemos observar (e contextualizá-lo) no exemplo de uma frase. Como esta:


Felizmente, todos chegaram bem de viagem.


Assim, como foi recebido o fato da "chegada bem de todos da viagem"?


Foi recebido "felizmente". Por isso temos um advérbio de modo.


Enfim, o que nos importa aqui é a questão mais específica da estrutura da palavra. E os exemplos, em regra, dizem que na estrutura da nossa língua a classe gramatical não sofre alteração quando há um prefixo, mas pode havê-la, ou não, em caso se sufixo, como no caso acima. Este sufixo, por fim, também traz um significado mínimo: o de transmitir a meneira, o modo (por isso advérbio de modo) de como se sente algo.


Na palavra seguinte da lista (infelizmente), colocamos o prefixo "in-" e o sufixo "-mente". Pois bem. Está na hora de dizer que o processo de colocar morfemas no radical da palavra (lembrando que o radical, que também é um morfema, terá sempre um significado extraliguístico, ou seja, aponta algo para fora da gramática, representa algo não na língua mas no mundo). Bem, esse processo de afixar morfemas e "criar" outras palavras recebe o nome de DERIVAÇÃO DAS PALAVRAS ou DERIVAÇÃO LEXICAL. No qual o termo léxico seria um sinônimo de palavra.


Assim, se colocamos um prefixo (PRÉ-história, INcomum, REcolocação, DESonento etc.), temos uma DERIVAÇÃO PREFIXAL.


Se o morfema vem depois (historiNHa, garotÃO, estimulaDO, conscienteMENTE, rapaziADA, portaRIA etc.), chamar-se-á de DERIVAÇÃO SUFIXAL.


Mas em caso de possuir tanto o prefixo como o sufixo teremos duas denominações, conforme os exemplos a seguir:


- DERIVAÇÃO PREFIXAL E SUFIXAL


É o nosso quarto exemplo da lista inicial: infelizmente. É fácil depreender que há nesta palavras dois afixos. O prefixo de negação "in-" e o sufixo adverbial "-mente". Como também em: DEScoloniZAR, e por aí vai...


- DERIVAÇÃO PARASSINTÉTICA.


Neste caso há semelhanças, mas também há diferenças. Vamos primeiro às semelhanças: são palavras com prefixos e sufixos. Mas qual são as diferenças? Simples. No grupo dessas palavras especiais, o prefixo e o sufixo entram juntos, concomitantemente. Não há um sem o outro. Ex.:


Enforcar

Entristecer

Acorrentar

Ajoelhar

Subterrâneo


Ora, para identificarmos a parassíntese nessas palavras basta omitir ou o prefixo ou o sufixo e veremos que não há correspondentes na nossa língua. Observemos:


Forcar (não existe)

Entriste (não existe)

Correnta (não existe)

Terrâneo (não existe)


Desse modo, não há como elidir (tirar) um dos afixos. São comuns em palavras que formam verbos como as três primeiras. E mais raras com substantivos, a última.


Para completar a análise de nossa lista inicial, veremos a última palavra (felicitar). Provém, naturalmente, da base "feliz". Mas o que difere a estrutura desta palavra das outras? Ora, é fácil perceber que felicitar pode ser conjugado: eu felicito, tu felicitas, ele/você felicita, nós felicitamos, vós felicitais, eles/vocês felicitam. Diante disso temos não propriamente uma derivação lexical, mas trata-se de uma flexão verbal de modo, tempo, número e pessoa. No exemplo que dei conjuguei o Presente (tempo) do Indicativo (modo), que possui três pessoas do singular (eu, tu, ele/você) e três do  plural (nós, vós eles/vocês). 


(Obs.: modernamente os gramáticos incluem o "você(s)" como pronome pessoal, cuja flexão verbal se inclui no "ele(s)".)


Pois bem. Se formos analisar os constituintes morfológicos da palavra felicitar teremos isso:


Felic-itar


No qual "-itar" forma o verbo no infinitivo impessoal do adjetivo "feliz". E, decompondo mais ainda, veremos que o "-a-" coloca esse verbo no paradigma da 1a conjugação, por isso chamamos de vogal temática (encontrada também em substantivos: sapato, vogal temática "o"); e o "-r", no final, traz a marca do infinitivo. O "-c-" do radical era "z" de feliz (mudança morfofonêmica) e o "-it-" seria, portanto, a "base" do morfema derivacional.


É assim que com as DESINÊNCIAS VERBAIS (ou seja, esses morfemas que ajudam a flexionar os verbos) conseguimos conjugar os verbos identificando, por exemplo, a pessoa sem ter que colocá-la explicitamente. Veja:


Ando eufórico com meu novo emprego.


Por acaso é : *[Ele] ando eufórico (?).

 

Não. Só pode ser: [Eu] ando eufórico. Por quê? Porque o morfema desinencial "-o" (de and-o) só pode indicar a primeira pessoa do singular: "eu". Assim, trata-se de um morfema de primeira pessoa do singular do presente do indicativo, que foi colocado junto ao radical "and-".


Mas nem sempre aparecem todos os morfemas, e o caso anterior é um dos exemplos. Quando não aparece, temos morfema zero [O], o zero é cortado como no símbolo matemático de vazio. 


(Obs.: o teclado não oferece esta opção.) 


É só verificar neste exemplo de substantivo:


Menino

Meninos


No segundo exemplo temos o morfema pluralizador "-s". No primeiro, o morfema de plural é zero.


O mesmo se sucede com os verbos:


Cant-a-va

Cant-á-va-mos


Tomando o segundo exemplo temos: o radical (usamos o símbolo R) é "cant-"; o "-a-" representa a vogal temática (VT); o "-va-" é a desinência de modo temporal (DMT), pretérito imperfeito do indicativo; e o "-mos" indica a desinência número pessoal (DNP), terceira pessoa do plural.


Mas no primeiro exemplo ("cantava") não aparece a desinência de número pessoal. Então essa ausência já nos indica que o verbo se refere a uma pessoa singular, por isso: morfema zero.


Bem. Ainda há outros processos de formação de palavras, que veremos em outra oportunidade. Mas esta introdução já é bem oportuna para perceber que as palavras são compostas de uma estrutura decomponível, passível de análise, onde seus constituintes podem ser reduzidos até uma unidade mínima significativa que ofereça sentido no mundo gramatical (intralinguístico) ou extralinguístico (como representação dos fenômenos observáveis, imaginados ou sentidos), que são as raízes e os radicais, como vimos. Ao dominar esse assunto, conseguimos deduzir certas palavras desconhecidas sem ter que nos socorrermos aos dicionários constantemente, conseguimos criar novas palavras (inclusive poeticamente) e descobrir aquelas já apagadas da memória do povo. Desse modo, é um estudo muito importante para o manejo do raciocínio estruturante e da língua em geral.


Prof.: Ivonilton G de Souza