terça-feira, 25 de agosto de 2020

Morfologia: verbos e substantivos (derivação regressiva e derivação progressiva)




Já vimos anteriormente ("Morfologia: a estrutura das palavras sob o ponto de vista sintático-semântico") que as classes das palavras podem mudar de acordo com o seu sentido (semanticamente), com sua função sintática na frase e em sua estrutura (formalmente), como nos exemplos abaixo:


a) O cão é o melhor amigo do homem.

b) A amizade do cão é eterna.


Onde na letra (a) temos "amigo" como adjetivo, pois tem o sentido de qualificar, é o núcleo do predicativo do sujeito "O cão" e apresenta-se em sua forma primária de adjetivo apresentando apenas o radical "amig-" e a vogal temática "-o" (ou desinência de gênero masculino, como veem outros gramáticos).


Já na letra (b) o termo "amizade" sofre derivação, tendo em vista que passa a ser um substantivo (cujo sentido é nomear seres concretos ou abstratos), é o núcleo do sujeito da oração e recebe o afixo (no caso aqui sufixo) derivacional "-ade", posposto ao radical "ami(z)-": "ami(z)+ade".


Pois então. O enfoque neste trabalho recairá sobre os substantivos e os verbos. Para entendê-los é preciso ter em mente qual palavra tem origem na língua, ou seja, qual é a primária, pois só assim poderemos saber quem deriva de quem. Tarefa esta que não é tão simples. Não o é porque a palavra primitiva pode ter origens remotas: grega, latina, ou até indoeuropeia. Mas muitos pesquisadores tentam solucionar o problema (pelo menos de uma maneira didática e um tanto generalizada, já que se verifica excessões) dizendo que os substantivos que designam ação são derivados dos seus respectivos verbos. Mas como têm morfemas reduzidos esses substantivos se classificam com o que ficou conhecido de DERIVAÇÃO REGRESSIVA.


Sigamos estes exemplos para as coisas ficarem mais claras:


pescar - pesca


consolar - consolo


atacar - ataque


Na primeira coluna temos os verbos (pescar, consolar, atacar) e na segunda seus respectivos substantivos (pesca, consolo, ataque). Ora, como vemos, todas as palavras da primeira coluna são verbos em sua forma infinitiva (lembrando que forma infinitiva são também formas nominais, pois podemos dizer "O falar é fundamental para o psicanalista"). São verbos porque, nestes exemplos,  indicam uma ação, um movimento. E estão na forma infinitiva formalmente porque recebem a desinência "-r" após o  tema: pesca-r, consola-r, ataca-r. Se estivessem conjugados, estariam na forma finita: pescá-va-mos.


Se já sabemos então que são verbos, deduz-se consequentemente que são as formas primitivas. Ou seja, a forma inicial da palavra, tendo como seu derivado os substantivos, os quais estão no segundo grupo de palavras: pesca, consolo, ataque.


Estas palavras vão receber a classificação, como já dissemos, de DERIVAÇÃO REGRESSIVA. Mas por que se dá isso?


 Dá-se porque, como já anotado com o substantivo e o adjetivo, vão sofrer variações de sentido, de sintaxe e formalmente. É só observar as frases abaixo:


c) Pesquei bastante ontem.


d) A pesca está proibida nessas águas.


Em (c) temos o verbo pescar no passado (pretérito perfeito do indicativo), indicando o núcleo do predicado (predicado verbal), com a seguinte estrutura formal: pesqu (radical) + ei (desinência número pessoal) + 0 (desinência modo temporal zero). Observação: é a desinência zero que indica que está no pretérito perfeito, pois é marcado por ausência. E, enfim, o "-qu-" é uma adaptação ortográfica do "-c-" de pesca, pois se não era impossível obter fonema (som) oclusivo velar surdo, representado foneticamente por /k/.


Na letra (d), com a derivação regressiva, a palavra tranforma-se em substantivo. Primeiro porque em termos de sentido (semântico) passa a designar o NOME de uma ação, com seu respectivo artigo; segundo porque, sintaticamente, passa a ser sujeito da oração; terceiro porque há mudanças formais nítidas. A estrutura morfológica da palavra se enxuga; já que temos: pesca (radical) + a (desinência de gênero feminino),  "A pesc-a".


O mesmo se sucede com as outras palavras do grupo. Mas com uma mudança observável: o tema muda do "-a" em "pesca" para "-o" (consolo) e "-e" (ataque).


São por essas razões que muitos professores vão dizer que só há desinência em feminino quando a palavra termina em "-a", sendo aquelas que terminam em "-o" apenas uma indicação de vogal tamática, assim, na verdade, o que delimita seu gênero seria o artigo "o" ou "a" obrigatoriamente em português posicionado antes do substantivo, já que podemos ter  palavras como "O estudante" ou "A estudante". Depreende-se facilmente que só visualizamos o gênero através do artigo, pois em ambas temos o tema "-e", "estudant-e". Salvo usos que podem se consagrar: presidente ou presidenta. Mas isso é uma questão que veremos em outra exposição.


Importa aqui observar que termos colocado na lista de exemplos as palavras "consolo" e "ataque" não foi mera coincidência; foi para dizer que o morfena final de consolo (consol-o) para uns é desinência de gênero e para outros vogal temática. E o morfema final do substantivo deverbal "ataque" (ataqu-e) será sempre vogal temática, cujo critério de gênero recairá no artigo explícito ou implícito "o". Assim: "O ataque às bases foi cruel", "Ataques à ordem pública só prejudicam o país".


Para completar, dissemos no parágrafo anterior "substantivo deverbal" (uma de suas outras denominações), porque deriva regressivamente de um verbo de ação, formando consequentemente um substantivo que demonstra acão, fundamentalmente. Enfim, decai (como o próprio prefixo "de-" o indica) de sua forma verbal.


Mas, diante disso tudo, poderia acontecer o inverso? Há palavras substantivas que se transformam em verbos? Se as há, como saber que, neste caso, são os verbos que são derivados e os substantivos as palavras primárias?


Bem. Vamos por partes... Sim. A resposta é sim. Há palavras que originariamente são substantivos e se transformam em verbos. E o nosso dia a dia está repleto delas. Principalmente no mundo da tecnologia: tuitar, escanear, printar, logar etc. Essas palavras novas são chamadas de NEOLOGISMOS, assunto que veremos mais tarde.


O que vem ao caso agora é saber como descobrimos qual é a palavra primitiva. Bem, em geral a palavra primitiva, da qual surge o verbo, é a palavra que dá nome a algum "objeto" ou "substância", segundo a definição do filólogo Mário Barreto. Assim, portanto, teríamos:


fuzil (objeto) - fuzilar (verbo)


azeite (objeto) - azeitar (verbo)


sapato (objeto) - sapatear (verbo)



Com esta classificação, DERIVAÇÃO PROGRESSIVA, fica mais fácil enxergar que primeiro surgiu o objeto e depois seu derivado. Assim, o primeiro par já nos basta para fazermos uma análise dos constituintes morfológicos:


fuzil (radical)


fuzil (radical) + a (vogal temática) + r (desinência verbal de infinitivo)


Repare que o substantivo fuzil não possui morfema de vogal temática (ou de desinência de gênero), que será zero, como também em mar, lápis, papel etc. Em "mar", para ficarmos só nesse exemplo, esse morfema só vai aparecer no plural, "mares"; onde se tem: mar (radical) + e (vogal temática) + s (desinência de número plural).


Diante do exposto, na derivação progressiva, GRAMPO é o nome de um objeto que serve para prender as coisas. Logo, em "Ela GRAMPEOU seu cabelo" temos seu correspondente derivado em verbo.


Não seria diferente com a invenção do escâner, que virou nome de aparelho que digitaliza, digitalizador (termo que não caiu no nosso gosto). E depois, verbo: escanear. Isso, pelo menos a princípio, pois uma breve consulta no dicionário Houaiss nos faz ver que escâner provém de "scanner", que em inglês quer dizer explorador, daí talvez ter surgido o nome do aparelho por analogia, pois "explora", copiando documentos com códigos binários. No nosso idioma, é um estrangeirismo, surgido com a popularização do aparelho. Mas esse estrangeirismo, consequentemente, se aportuguesou, pois já consta grafia própria no nosso idioma, conforme constatamos acima e de exemplo extraído de dicionário renomado. Nesse sentido, não há problema algum em ver como derivação progressiva o termo "escanear", outra invenção criativa da língua.


Em verdade, não é tarefa simples descobrir a palavra primária, pois a maior parte de nossa língua provém do latim, outra parte do grego, sem contar ainda com a hipotética língua indoeuropeia, que seria a base de tudo. Imagina descermos tudo isso para ver o que deriva de quê. Por exemplo, seguindo esse critério diacrônico, ou seja, de história da evolução da língua, o linguísta Said Ali vai dizer que "janta" é deverbal, é derivado de "jantar", adequando-se aos nossos exemplos; mas "almoço" (do latim "admorteriu" ou "admorsu") é palavra primitiva, tendo surgido antes de "almoçar", e por isso, pertence à derivação progressiva.


Assim, tentando resolver esse impasse há quem queira (Horácio Rolim, por exemplo) acabar com esse inconveniente fazendo somente uma análise sincrônica (estado da língua num dado momento, sem se socorrer à história evolutiva, à etimologia). Desse modo, segundo Horácio em seu livo "Princípios de Morfologia", a palavra "pesca" não seria proveniente de "pescar", já que o morfema "-a" formaria somente um tema nominal no substantivo "pesca" e, no verbo infinitivo ("pescar"), o morfema "-a-" formaria um tema com flexão verbal na primeira conjugação apenas, com acréscimo do morfema "-r" ao final. Assim, segundo seu raciocínio, "pesca" teria unicamente um radical nominal e "pescar" um radical verbal - neutralizando, com astúcia, as dificuldades em se descobrir a palavra primitiva. E vai além, pois como pode ser derivada uma palavra como "fuzil" se ela aparece na íntegra, sem nenhum morfema derivacional, portanto? Só se viabiliza então como um simples radical nominal.


De qualquer forma, apesar de serem boas as ideias precedentes, elas ainda não foram agasalhadas pela gramática tradicional. Por isso e levando em conta ainda o critério de uma exposição mais didática (mesmo que hajam excessões), torna-se mais pertinente e claro a exposição feita no decorrer do trabalho, sob o estabelecimento de "derivação regressiva" e "derivação progressiva". Exposição amplamente defendida por inúmeros linguístas e gramáticos. E que, por fim, atende à demanda escolar e de uma compreensão mais simplificada (sem deixar de ser autêntica) do estudo da constituição das palavras; esposada, desse modo, por bons manuais expostos em nossas bibliotecas. O que não invalida, evidentemete, empreendimentos sinceros para melhor entender a língua, mas que, muito possivelmente, só o tempo dará adesão e validez necessária às especulações e experimentos que se iniciam atualmente no mundo acadêmico.


Prof. Ivonilton G de Souza


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