sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A estrutura do texto de ficção: espaço, tempo, personagens e conflito




Numa história ficcional há alguns elementos que são importantes para a sua constituição. São eles:


a) O espaço. Onde a história é contada. Em que lugar, podendo ser uma casa, uma rua, um bairro, uma cidade, um país etc.


Os espaços podem mudar conforme o andamento da história. Em uma crônica ou conto os espaços tendem a ser mais restritos, mas isso não é uma regra. Já nas novelas e, principalmente, romances os espaços são mais diversificados, devido a complexidade da história. Além disso a ficção moderna e contemporânea sempre oferecem mais ambientes, pois o intercâmbio de pessoas e povos ficou mais dinâmico.



b) O tempo. Toda narrativa envolve um tempo. Aliás, a característica principal de narrar é esta, ou seja, contar uma história com uma sucessão temporal. Em geral as narrativas usam o tempo passado (pretérito). Mas há histórias que usam o tempo presente. Aliás, o tempo presente apresenta uma certa neutralidade, pois, por exemplo, é comum encontrarmos nos jornais manchetes assim: "Homem rouba banco mas deixa pistas". Ora, o jornal geralmente noticia algo que já aconteceu. Se a manchete está no tempo presente (presente do Indicativo) é porque esse tempo é, muitas vezes, neutro. E está, na verdade, se referindo ao passado. Ou, conforme o contexto, até ao futuro, como em: "Não gaste todo seu dinheiro. Amanhã ACABA a grana e ficamos mal". Como se vê o verbo ACABA está no presente do indicativo e se refere a algo que só vai acontecer amanhã.


Pois bem. Nas histórias maiores principalmente (novelas e romances) o tempo da narração é, naturalmente, maior. E nos romances épicos podem passar várias gerações. Mas o tempo não é marcado só pela exterioridade dos eventos. É marcado também internamente, PSICOLOGICAMENTE na cabeça de cada personagem. Aliás, como pode até acontecer conosco, pois às vezes não temos a impressão de o tempo passar muito rápido ou demorar uma eternidade? Pois então, o mesmo acontece com os personagens. Uma sensação, um sentimento, uma angústia ou alegria, pode se estender durante várias páginas, ser detalhada nos seus mínimos detalhes, em suas diversas matizes, enquanto tudo se passa cronologicamente em alguns poucos minutos. Cabe ao autor da história destacar ou não essa percepção de tempo.


Falta ainda ressaltar que o tempo pode ser linear ou não. Assim a história pode começar do "começo", ter o desenvolvimento de suas tramas (em geral com um ápice dramático) e terminar no "final". Este tipo de narrativa é a mais comum e chamamos de "narrativa linear". Ocorre, porém, que a história pode começar do final ou do meio. É muito comum, por exemplo, vermos isso no cinema. Não há histórias que primeiro aparece um assassinato e depois não se conta como tudo aconteceu até aquele crime? Quando se faz isso, se está começando do final. É bom lembrar, aliás, que grandes filmes surgiram da literatura. Depois que foram adaptados às telinhas. Enfim, na ficção pode haver um embaralhamento dos eventos a serem narrados: do meio pro começo e depois fim, do fim pro meio e então começo etc. Além de narrativas de histórias paralelas, com dois tempos iguais ou diferentes. Ex.: Um idoso se lembrando de sua vida e um outro observador contando como as coisas aconteceram sob outro ponto de vista. Enfim, as variantes são muitas. O que é importante observar é que esse embaralhamento de tempos narrativos se vê mais na literatura moderna e contemporânea, na qual o tempo passa a ter uma relatividade, subjetividade e fragmentação cada vez maior. Aliás, sem querer ir longe, o que se dá até com a física quântica. Essa, sem dúvida, é uma das características principais do que se costumou chamar de pós-mordenismo, mas que já tem seus experimentos em épocas anteriores.



c) Personagens. Personagens são serem animados (humanos, animais ou coisas, estes dois últimos em fábulas) que praticam a ação num determinado tempo, num determinado lugar e com certas características psicológicas. Assim, uma história pode ter só um personagem ou vários. É natural que quanto menor for a história (crônicas, contos) menos personagens tenha; e quanto maior (novela e romance), haja maior diversidade de personagens. Como se disse, num romance épico, pode haver várias gerações de personagens.


Os personagens carregam suas marcas físicas (cor da pele, formato do corpo, tipo de roupas etc) e psicológicas (alegre, triste, mal-humuraddo, gentil, ingênuo, inteligente etc.). Cabe ao autor ressaltar suas características de acordo com seu papel na história para dar verossimilhança ao que é narrado. Evidentemete que as características físicas e/ou psicológicas podem se transformar de acordo com o prosseguimento dos eventos. E é o que muitas vezes acontece. Às vezes mais, às vezes menos.


O que ocorre é que, dependendo do tipo de história (mais comum em romances) há basicamente duas maneiras de se descrever um personagem. Ou ele é plano: ou seja, são bastante marcados em perfís psicológicos, como num romance policial, onde um detetive vai ser sempre o durão e o bandido o covarde, por exemplo. Nesse sentido as características não sofrem grandes variações, são sempre planas, basicamente iguais. Ou ele é redondo: um só personagem revela uma riqueza de sentimentos, de conflitos interiores, passando por vários estágios ou características. Desse modo, às vezes está eufórico, às vezes está triste, às vezes sente dúvida, e outras tem convicções inabaláveis, por exemplo. Estes personagens são bastantes complexos e merecem uma atenção especial do leitor, pois revelam os labirintos, de maneira mais fidedigna, da mente humana. Pois todos nós revelamos, até certo ponto, conflitos interiores. É um turbilhão de emoções que passam pela gente diariamente e que muitas vezes não nos damos conta, mas eles estão lá, incoscientemente. E muitas vezes se expressam de maneira maquinal.  O escritor habilidoso vai saber observar tudo isso num personagem e trazer, através da linguagem, para o leitor, que pode, por sua vez, dar múltiplas significacões ao que se passa na mente do personagem, se identificando ou até tendo repulsa. Identificar-se ou criar repulsa é ter um ato de CATARSE. Termo grego, cunhado por Aristóteles, que (grosso modo) diz que só quando nos deparamos com a representação dos personagens que conseguimos nos enxergar e expulsar nossos males e "demônios", nos aliviando, consequentemente.



d) O conflito. Por último temos o conflito. Ele se dá através do diálogo, do jogo de interesses, da disputa entre os personagens. O conflito ocorre quando há ação. Assim, o conflito é a troca dialética, o confronto de subjetividades, de interesses. Nessa disputa cada um defende aquilo que almeja e pode entrar, a qualquer momento, em confronto com o outro. Há um momento certo para a história atingir o ápice do conflito. Em geral isso ocorre um pouco depois do meio. É através do conflito que se cria os enlaces da trama a ser contada. Um exemplo de conflito muito comum nas histórias de trama familiar (e até da vida de carne e osso moderna): 

Dois jovens apaixonados se casam, constroem uma bela casa e são até então felizes. E têm um filho. Mas a mulher, depois de um tempo, não ama mais seu marido e arranja um amante. Ele descobre e vai tomar satisfação com ela [primeiro conflito]. Depois consegue achar o amante dela e ameaça-o [segundo conflito]. Já muito desiludido então, o marido resolve se separar, mas há um problema: Com quem vai ficar o filho ainda pequeno? Então entram em disputa jurídica [terceiro conflito]. A sua ex-mulher consegue a guarda da criança e o seu ex-marido fica extremamente deprimido e tenta o suicídio [quarto conflito]. Mas depois encontra outra jovem e se casa novamente.


Como se vê, no conflito os interesses dos personagens são defendidos por cada qual. Às vezes no diálogo e às vezes em ações agressivas. Mas, além disso, o personagem pode também entrar em conflito consigo mesmo. Esses conflitos internos são muitos comuns em personagens mais redondos, mais complexos como disse. Fora isso, nesse pequeno resumo de história, vimos que ao começo tudo ia bem e seu ápice dramático se dá mais do meio para o final.



Conclusão


Esses tópicos, que estão sempre se entrelaçando e tecendo a malha do texto, são fundamentais para a construção de uma história ficcional. Há ainda muita coisa a ser vista como: o ponto de vista do narrador, a verossimilhança, o estilo do texto etc. Tudo isso será observado em aulas posteriores detalhadamente. Creio, porém, que o mais importante é ler bons romances. Isso nunca vai substituir fórmulas que tentam matematizar a literatura. Ainda mais fórmulas fixas (bem ao gosto da escola Estruturalista), já que em literatura tudo é maleável, movediço e lúdico. Além, é claro, de nos recompensarmos com o prazer do texto. Isso sim é insubstituível.



Prof. Ivonilton G de Souza

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