quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Morfologia: radical e raiz (os constituintes imediatos)



Nos textos anteriores trabalhamos somente com o conceito de radical. Isso porque RADICAL é o morfema extraliguístico (sustenta a significação exterior) mais evidente numa palavra. O que se apresenta de maneira mais clara e imediata na constituição da palavra e, vale ressaltar, em sua plena atualidade, ou seja, num registro sincrônico e vivo da língua. Mas o que queremos dizer com "registro sincrônico e vivo da língua"? Sincrônico quer dizer num ponto fixo, exato na linha do tempo, sem levar em consideração sua linha evolutiva, sua diacronia portanto. E vivo porque é a maneira como atualmente a usamos. Para facilitar as coisas, veja um exemplo, primeiramente de diacronia:


pede > pee > pé (diacronia, estudo da mudança da língua)


Com o que vimos acima, observamos por quais mudanças, através da história interna da língua, a palavra "pé" já passou. O interessante é que em palavras atuais ainda há reflexos da língua antiga como:


pedicure


pedestre


pedalar


Repare que em todas a forma básica "ped-" é igual. Mas em pezinho essa forma desaparece, passando a ser o radical somente "pe-", acompanhado do sufixo de grau diminutivo "-inho" com a consoante de ligação "-z-". Conclui-se então que o primeiro radical traz uma forma mais culta; o segundo, mais atualizada, por conseguinte popular. Poder-se-ia dizer que a realização do morfema "ped-" (ex.: ped + estre) é um alomorfe do radical "pe-" (pe + z + inho), cuja vogal temática sofreu crase com o "e" do radical depois que o "d" caiu, com a mencionada evolução do termo (repetindo: pede > pee > pé).


Feitas essas distinções iniciais entre diacronia e sincronia podemos prosseguir no nosso assunto; pois, afinal: Qual a diferença entre raiz e radical? Bem, RAIZ é a forma primária da palavra, a forma irredutível. E muitas vezes só é visualizada em uma forma latina, língua que deu origem a maioria das nossas palavras. Por isso foi necessário essa introdução ao conceito de diacronia, de história das palavras.


As palavras, assim, são passíveis de divisões até chegarem a uma forma mínima, às vezes só percebida ao estudioso do idioma. Ex.:


a) desconfiar

b) confiar

c) fiar


Como se vê em (a) temos o prefixo "des-". Mas em (b) esse prefixo cai fora, ficando apenas "confiar". Acontece que há outro prefixo que não é percebido claramente no estágio atual da língua. É o prefixo "con-"(que se escreve com "n" devido a acomodação fonética/ortográfica, pois deveria ser "m"). Até mesmo porque muitos desses prefixos são preposições que se juntaram aos radicais: complacente, compaixão, compatível etc. Semanticamente indicam algo que está junto a algo ou alguém.


A palavra assim pode ser "retalhada" morfologicamente até as últimas consequências, conforme se segue:


d) fia-r

e) fi-a

f)  fi


Em (d) destacamos o "-r" desinencial (verbo no infinitivo); depois em (b) separamos o morfema temático "-a-", ou seja tema da primeira conjugação, encontrado também em cant-a-r, am-a-r, palavre-a-r... Por fim, em (f) destacamos a raiz "fi-". Ora, é a mesma raiz que encontramos em fiança, fiador, fiado, inafiançável etc. Bem, todas essas palavras cognatas, ou seja, do mesmo grupo semântico, vem do latim "fidere".


Pois então. Para terem mais "confiança" no assunto guardem esta palavra na memória (voltarei a ela depois) e vamos a outro exemplo extraído da gramática do professor Evanildo Bechara. O vocábulo é este:


desregularizar


Ora, analisando-a, logo notamos que se trata de um verbo. Assim tirando a vogal temática "-a-" e o morfe de infinitivo "-r" temos


desregulariz.


Indo para o lado esquerdo da palavra temos o prefixo "des-", que também vamos apagar:


regulariz


Mas as coisas não param por aí. De "regulariz" podemos destacar outro sufixo: "-iz-". Ficando:


regular


Ora, regular pode ser dividido em


regul.


E para terminar logo, se não não sobra nada da palavra, temos ainda


reg.


Aliás, é a mesma raiz que aparece em "reger", "régua", segundo o professor Bechara. Com isso, chegamos à conclusão que para se chegar à RAIZ, também chamada de RADICAL PRIMÁRIO, deve-se destacar vários morfemas da palavra para obter-se sua base inicial, muitas vezes - mas nem sempre - de formação latina.


E muitas vezes também essa raiz já não faz mais sentido para nossa sincronia, para nosso estágio atual da língua. E é neste ponto que voltamos ao nosso exemplo: confiar.


Há muito tempo a noção de preposição "com" desapareceu e está totalmente integrada à palavra. Assim como a noção de prefixo também é quase despercebida nesse morfema. Desse modo, analisando sincronicamente a palavra, ou seja, em termos atuais, seria mais fácil dizer que em "confiar" o radical é "confi-". Por isso, cabe mais o estudo da língua (nas escolas principalmente) em seu momento presente, deixando as observações diacrônicas para os estudiosos da história da língua, para os etimologistas com vasta erudição.


Soma-se a isso, o fato de "confiar", apesar de ser uma palavra cognata (do mesmo grupo) de fiar, ter já um sentido próprio e diverso. Ninguém diz: - Eu vou fiar em você. Se alguém diz isso, ou é em áreas muito restritas, ou não está se apropriando bem da língua. Há o sentido de fiar ainda, mas atualmente denota mais coisas relativas a empréstimos, por exemplo: "Ele é meu fiador". Ou seja, de dar crédito monetário, mais adequada às questões pecuniárias. E, assim, pouco se tem lembrança de "fiar" como "confiar", manter laços de comprometimento, enfim.


E podemos - pegando esse gancho - ir um pouco além, já que pouco interessa ao estudante comum que a raiz da palavra comer é "ed-" (!). Isso mesmo, pois houve uma prefixacão do "com" em "edere" ("com + edere"), este último igual ao nosso comer, logo a raiz é, como dito, "ed-". Parece estranho mas é o mesmo que se vê em compartilhar, comprazer etc.


Desse modo, há duas vertentes ao analisar morfologicamente as palavras. A vertente diacrônica e a vertente sincrônica, esta mais em voga nos estudos "hodiernos" (talvez provocando com essa palavra já tão em desuso, que quer dizer "hoje em dia").


Bem, voltando... Na verdade, o que se tem é algo chamado de CONSTITUINTES IMEDIATOS. E o que é isso? Isso é nada mais nada menos do que analisar as palavras partindo, vamos dizer, de sua "totalidade" mais imediata. Assim, colhendo outro exemplo da "Moderna Gramática", de Bechara, vemos:


desrespeitosamente > desrespeitosa (constituintes imediatos)


E assim sugerindo destaques sucessivos:


respeitosa > respeit > speit (aqui, radical primário ou raiz)


Desse modo, o constituinte imediato de "desconfiantemente" seria "desconfiante-", destacando o morfema que indica advérbio "-mente": ("desconfiante-mente").


Enfim, análise sincrônica nos é válida porque atende à demanda de uma linguagem viva, sem precisarmos nos socorrer a conhecimentos eruditos e já perdidos da língua, favorecendo-nos assim numa compreensão mais, se é que posso usar esse termo, mais instrumental dela.


O mesmo se pode dizer para palavras compostas que já perderam seu sentido de composição há muito tempo, pois, a não ser consultando um manual de gramática tradicional, quem aqui se lembra que "fidalgo" provém de "filho de algo"? Ou seja, de nobres. Claro que esse sentido de composição já se perdeu há muito tempo e vemos a palavra em seu conjunto unitário. Por isso o radical dela, nesse sentido, é "fidalg-", como em fidalguia. O mesmo, cremos, pode se dizer de "telefone". A composição "tele"+"fone" (tranporte do som) já praticamente é ignorada (a menos se nos detivermos com atenção). Logo, seria melhor termos não dois radicais, mas somente um, como sugere seus inúmeros derivados: telefone, telefonar, telefonista, telefônica, telefonema, telefoninho etc. Portanto: telefon (R) + e (VT).


Diferente, é claro, de "navio-escola", "paraquedas", "sino-brasileiro", "pé-de-moleque" e até mesmo (por que não?) o sintagma "sala de aula"... Estas sim, verdadeiras palavras compostas.


Concluindo. O estudo da língua passou a ser essencialmente sincrônico, pois facilita a compreensão da constituição da palavra no seu estágio atual. Grande defensores dessa linha foram o mestre Mattoso Câmara e o veterano Said Ali. Apesar desse último ter escrito uma gramática histórica. Esse método de estudo teve imensa penetração nos nossos compêndios gramaticais nos anos 60 e 70 - com Bechara (já citado), Celso Cunha e outros.


Se as análises mórficas antes se pautavam pela história da língua, agora se pautam pela estrutura dada no momento atual da evolução. Isso traz a vantagem, como vimos, de podermos fazer a análise dos constituintes do léxico sem termos de socorrer-nos à formação inicial do termo, que muitas vezes só o erudito tem acesso. Podemos assim operacionalizá-la com os elementos disponíveis no nosso repertório linguístico sem maiores problemas. Há importância em saber sua formação histórica? Certamente o há. Talvez para captar sua essência e profundidade etimológica como tantos cientistas e renomados filósofos o fazem. Mas nunca para demonstrar a vaguidade ociosa e descompromissada da erudição. 


Ivonilton G de Souza

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