Morfologia: a estrutura das palavras
A morfologia vai estudar as unidades mínimas significativas das palavras. Por isso, além de avaliar como seu esqueleto é feito, ou seja, sua estrutura, vai buscar os significados de cada parte que as compõem. Tomemos essas palavras:
Feliz
Infeliz
Felizmente
Infelizmente
Feliticitar
Ora, vemos que em todas elas há uma parte que não varia. Essa parte é a base e podemos chamar de radical: Feliz.
(Obs.: em algumas por motivos fonéticos, de som, o "z" se transforma em "c", são as mudanças morfofonêmicas.)
Mas ao acrescentarmos o "in" em feliz o significado da palavra muda totalmente, pois passa a ter um sentido negativo. Ex.: "Marcelo vive triste; parece ser INFELIZ".
No entanto, a palavra continua sendo ainda um adjetivo.
A partícula "in" (de "infeliz", no nosso exemplo) é um morfema. E o que é um morfema? Morfema é a unidade mínima significativa da palavra. Mínima, porque não pode ser decomposto em unidades menores; significativa, porque possui um significado, possui, melhor dizendo, uma natureza semântica, representando algo. Neste exemplo, uma negação. Como também nesses outros morfemas: desfazer (des-), atípico (a-), utopia (u-).
Estes morfemas (e outros com significados diferentes, como sublinhar, por exemplo, colocar linha em baixo, daí "sub") receberão o nome de específico de PREFIXOS, já que são afixados antes da palavras. Assim, são AFIXOS, porque integrados à base das palavras, e são PREFIXOS, porque são colocados anteriormente. Em síntese: são AFIXOS PREFIXAIS.
No terceiro exemplo de nossa lista de palavras as coisas mudam. Foi acrescentada uma unidade não antes do radical (da base da palavra) mas no seu final. Trata-se, como vimos, também de um afixo, mas aqui agora não vem antes e sim depois, por isso chamaremos o morfema "-mente" ("felizmente") de SUFIXO.
Mas as mudanças não param por aí. O morfema sufixal posposto ao radical mudou sua categoria gramatical, passando a ser agora um advérbio, que melhor poderemos observar (e contextualizá-lo) no exemplo de uma frase. Como esta:
Felizmente, todos chegaram bem de viagem.
Assim, como foi recebido o fato da "chegada bem de todos da viagem"?
Foi recebido "felizmente". Por isso temos um advérbio de modo.
Enfim, o que nos importa aqui é a questão mais específica da estrutura da palavra. E os exemplos, em regra, dizem que na estrutura da nossa língua a classe gramatical não sofre alteração quando há um prefixo, mas pode havê-la, ou não, em caso se sufixo, como no caso acima. Este sufixo, por fim, também traz um significado mínimo: o de transmitir a meneira, o modo (por isso advérbio de modo) de como se sente algo.
Na palavra seguinte da lista (infelizmente), colocamos o prefixo "in-" e o sufixo "-mente". Pois bem. Está na hora de dizer que o processo de colocar morfemas no radical da palavra (lembrando que o radical, que também é um morfema, terá sempre um significado extraliguístico, ou seja, aponta algo para fora da gramática, representa algo não na língua mas no mundo). Bem, esse processo de afixar morfemas e "criar" outras palavras recebe o nome de DERIVAÇÃO DAS PALAVRAS ou DERIVAÇÃO LEXICAL. No qual o termo léxico seria um sinônimo de palavra.
Assim, se colocamos um prefixo (PRÉ-história, INcomum, REcolocação, DESonento etc.), temos uma DERIVAÇÃO PREFIXAL.
Se o morfema vem depois (historiNHa, garotÃO, estimulaDO, conscienteMENTE, rapaziADA, portaRIA etc.), chamar-se-á de DERIVAÇÃO SUFIXAL.
Mas em caso de possuir tanto o prefixo como o sufixo teremos duas denominações, conforme os exemplos a seguir:
- DERIVAÇÃO PREFIXAL E SUFIXAL
É o nosso quarto exemplo da lista inicial: infelizmente. É fácil depreender que há nesta palavras dois afixos. O prefixo de negação "in-" e o sufixo adverbial "-mente". Como também em: DEScoloniZAR, e por aí vai...
- DERIVAÇÃO PARASSINTÉTICA.
Neste caso há semelhanças, mas também há diferenças. Vamos primeiro às semelhanças: são palavras com prefixos e sufixos. Mas qual são as diferenças? Simples. No grupo dessas palavras especiais, o prefixo e o sufixo entram juntos, concomitantemente. Não há um sem o outro. Ex.:
Enforcar
Entristecer
Acorrentar
Ajoelhar
Subterrâneo
Ora, para identificarmos a parassíntese nessas palavras basta omitir ou o prefixo ou o sufixo e veremos que não há correspondentes na nossa língua. Observemos:
Forcar (não existe)
Entriste (não existe)
Correnta (não existe)
Terrâneo (não existe)
Desse modo, não há como elidir (tirar) um dos afixos. São comuns em palavras que formam verbos como as três primeiras. E mais raras com substantivos, a última.
Para completar a análise de nossa lista inicial, veremos a última palavra (felicitar). Provém, naturalmente, da base "feliz". Mas o que difere a estrutura desta palavra das outras? Ora, é fácil perceber que felicitar pode ser conjugado: eu felicito, tu felicitas, ele/você felicita, nós felicitamos, vós felicitais, eles/vocês felicitam. Diante disso temos não propriamente uma derivação lexical, mas trata-se de uma flexão verbal de modo, tempo, número e pessoa. No exemplo que dei conjuguei o Presente (tempo) do Indicativo (modo), que possui três pessoas do singular (eu, tu, ele/você) e três do plural (nós, vós eles/vocês).
(Obs.: modernamente os gramáticos incluem o "você(s)" como pronome pessoal, cuja flexão verbal se inclui no "ele(s)".)
Pois bem. Se formos analisar os constituintes morfológicos da palavra felicitar teremos isso:
Felic-itar
No qual "-itar" forma o verbo no infinitivo impessoal do adjetivo "feliz". E, decompondo mais ainda, veremos que o "-a-" coloca esse verbo no paradigma da 1a conjugação, por isso chamamos de vogal temática (encontrada também em substantivos: sapato, vogal temática "o"); e o "-r", no final, traz a marca do infinitivo. O "-c-" do radical era "z" de feliz (mudança morfofonêmica) e o "-it-" seria, portanto, a "base" do morfema derivacional.
É assim que com as DESINÊNCIAS VERBAIS (ou seja, esses morfemas que ajudam a flexionar os verbos) conseguimos conjugar os verbos identificando, por exemplo, a pessoa sem ter que colocá-la explicitamente. Veja:
Ando eufórico com meu novo emprego.
Por acaso é : *[Ele] ando eufórico (?).
Não. Só pode ser: [Eu] ando eufórico. Por quê? Porque o morfema desinencial "-o" (de and-o) só pode indicar a primeira pessoa do singular: "eu". Assim, trata-se de um morfema de primeira pessoa do singular do presente do indicativo, que foi colocado junto ao radical "and-".
Mas nem sempre aparecem todos os morfemas, e o caso anterior é um dos exemplos. Quando não aparece, temos morfema zero [O], o zero é cortado como no símbolo matemático de vazio.
(Obs.: o teclado não oferece esta opção.)
É só verificar neste exemplo de substantivo:
Menino
Meninos
No segundo exemplo temos o morfema pluralizador "-s". No primeiro, o morfema de plural é zero.
O mesmo se sucede com os verbos:
Cant-a-va
Cant-á-va-mos
Tomando o segundo exemplo temos: o radical (usamos o símbolo R) é "cant-"; o "-a-" representa a vogal temática (VT); o "-va-" é a desinência de modo temporal (DMT), pretérito imperfeito do indicativo; e o "-mos" indica a desinência número pessoal (DNP), terceira pessoa do plural.
Mas no primeiro exemplo ("cantava") não aparece a desinência de número pessoal. Então essa ausência já nos indica que o verbo se refere a uma pessoa singular, por isso: morfema zero.
Bem. Ainda há outros processos de formação de palavras, que veremos em outra oportunidade. Mas esta introdução já é bem oportuna para perceber que as palavras são compostas de uma estrutura decomponível, passível de análise, onde seus constituintes podem ser reduzidos até uma unidade mínima significativa que ofereça sentido no mundo gramatical (intralinguístico) ou extralinguístico (como representação dos fenômenos observáveis, imaginados ou sentidos), que são as raízes e os radicais, como vimos. Ao dominar esse assunto, conseguimos deduzir certas palavras desconhecidas sem ter que nos socorrermos aos dicionários constantemente, conseguimos criar novas palavras (inclusive poeticamente) e descobrir aquelas já apagadas da memória do povo. Desse modo, é um estudo muito importante para o manejo do raciocínio estruturante e da língua em geral.
Prof.: Ivonilton G de Souza
Nenhum comentário:
Postar um comentário