sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Morfologia: a estrutura das palavras sob o ponto de vista sintático-semântico


Morfologia estuda também as classes gramaticais. Podemos dizer que uma mesma palavra pode assumir vários aspectos. E cada aspecto tem sua característica própria. Ora, um grupo de palavras que têm a mesma característica recebe uma só classificação. É como se tivéssemos um armário com várias gavetas. Há a gaveta das camisas, das calças, das meias, das roupas íntimas e por aí vai. Classificar, então, é arrumar esse armário, colocando cada coisa no seu lugar. Assim temos dez classes gramaticais: substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, preposição, conjunção, artigo, pronome, interjeição e numeral ( as duas últimas questionadas).


Vamos, por enquanto, trabalhar só com substantivo e adjetivo (no seu ponto de vista semântico-estrural). Depois veremos o resto.


Repare nessas palavras:


amigo - amizade

triste - tristeza

belo - beleza

Impulsivo - impulso


No primeiro grupo (coluna) temos palavras adjetivas; no segundo substantivos. 


É importante ter em mente que todo substantivo é precedido de artigo (o pássaro, o fenômeno,  a amizade, umas amizades). Aliás, seguindo esse critério, qualquer palavra pode virar substantivo. Até uma interjeição (ex.: "O ai que ele gritou me deu pena"; repare no "o" antes da interjeição "ai").


Mas, em termos de estrutura, o que muda na primeira coluna para a segunda? Não há grafias diferentes?


Claro que sim. Na segunda coluna foi colocado um morfema derivacional. Assim, a palavra, que antes era um adjetivo, se derivou (se transformou) em substantivo. Vejamos primeiro a palavra numa frase e depois na sua estrutura.


Ele é meu amigo. ("Amigo" nessa posição na frase é adjetivo, pois específica quem ele é.)


A amizade verdadeira não tem preço. ("Amizade" é um substantivo, pois nomeia um algo; no caso, um sentimento.)


O mesmo se dá com os outros exemplos:


A pobreza é triste.(Adj.)

A tristeza é o mal da alma. (Sub.)


A vida é bela. (Adj.)

A beleza da vida consiste no amor aos outros. (Sub.)


Mike Tyson era um boxeador impulsivo. (Adj.)

O meu impulso era gritar. (Sub.)


Bem. Vejamos mais de perto agora como fica MORFOLOGICAMENTE estas palavras.


amigo - amizade


Adj. em "Ele é amigo": amig- (radical); -o (tema).


Sub.: amig- (radical); -z- (consoante de ligação); -ade (sufixo).



triste - tristeza


Adj.: trist- (radical); -e (tema).


Sub.: trist- (radical); -eza (sufixo).



belo - beleza


Adj.: bel- (radical); -o (tema).


Sub.: bel- (radical); eza (sufixo).



impulsivo - impulso


Adj.: impuls- (radical); -ivo (sufixo).


Sub.: impuls- (radical); o (tema).




Tema é uma vogal temática, em geral colocada após o radical, base da palavra. É dessa base que as outras derivam. Acontece que há palavras que por sua natureza são adjetivos, outras adjetivos, outras advérbios, e por aí vai. Essa classificação (de qual classificação primordial da palavra) vai depender do seu ponto de vista semântico, do seu significado. E as mudanças se dão no ponto de vista sintático (relacional) também; ou seja, qual relação que se mantém junto às outras.


Assim, originariamente, "belo" é um adjetivo, pois qualifica e específica algo, mas pode se transformar em um substantivo, sem mesmo mudar sua estrutura. Ex.: O belo na poesia é imprescindível.


Repare que, para virar um substantivo, ela mudou sua posição na oração. Deixa de ser um predicativo do sujeito como em "Ele é belo" e passa a ser o sujeito da oração, no nosso exemplo. Além, é claro, de receber um artigo antes. Mas poderia derivar também: A beleza na poesia é fundamental.


Retornando ao que dizíamos: a característica inicial da palavra, em geral, vai determiná-la morfologicamente. Está bem óbvio que triste é um adjetivo antes de ser um substantivo (Maria é triste). Por isso depois do radical "trist-" só temos o tema "-e". Mas passa por um processo de derivação quando passa a ser um nome substantivo, portanto recebe um sufixo derivacional: "-eza".


O contrário se dá com o último par "impulsivo - impulso". Aqui temos vogal temática em "impulso" (impuls-o) e derivação no adjetivo impulsivo (impuls-ivo). Deduz-se então que impulsivo deriva do substantivo impulso. Vejamos um outro exemplo bem simples:


pedra - pedreiro


Substantivo: pedr-a.

Adjetivo: pedr-eiro.


Podemos ainda dividir mais morfologicamente pedreiro? Sim. Podemos sim.


pedr- (radical); -eir- (sufixo derivacional); -o (morfema de gênero do masculino).


Poderia (hoje em dia as mulheres fazem tudo) ser do gênero feminino também: pedreir-a.


Obs.: Há gramáticos que só veem morfemas femininos. Pois as palavras masculinas teriam morfema zero e a vogal seria somente um tema. Assim: menino, onde o "o" final seria o tema. O morfema ausente de feminino que daria seu gênero: menin- (R) + o (T) + (0, morfema zero). Bem diferente em menina: menin- (R) + a (morfema de gênero feminino).


Pois bem. Nesta exposição comparamos duas classes gramaticais com suas implicações semânticas e, principalmente, do ponto de vista da estrutura. Isso já dá subsídios para entender que há no estudo de morfologia uma ampla correlação com outros tópicos da gramática . Na verdade a linguagem é uma rede de tecido com uma maleabilidade semântica do discurso. Por isso o assunto não se esgota por aqui. Mas, mais do que descrever, o intuito principal deste estudo, e de outros que se seguirão, é guiar nosso raciocínio nessa rede, por vezes abstrata, mas que pode ter muita utilidade para a elucidação e construção de um mundo concreto.


Prof. Ivonilton G de Souza



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