sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A estrutura do texto de ficção: espaço, tempo, personagens e conflito




Numa história ficcional há alguns elementos que são importantes para a sua constituição. São eles:


a) O espaço. Onde a história é contada. Em que lugar, podendo ser uma casa, uma rua, um bairro, uma cidade, um país etc.


Os espaços podem mudar conforme o andamento da história. Em uma crônica ou conto os espaços tendem a ser mais restritos, mas isso não é uma regra. Já nas novelas e, principalmente, romances os espaços são mais diversificados, devido a complexidade da história. Além disso a ficção moderna e contemporânea sempre oferecem mais ambientes, pois o intercâmbio de pessoas e povos ficou mais dinâmico.



b) O tempo. Toda narrativa envolve um tempo. Aliás, a característica principal de narrar é esta, ou seja, contar uma história com uma sucessão temporal. Em geral as narrativas usam o tempo passado (pretérito). Mas há histórias que usam o tempo presente. Aliás, o tempo presente apresenta uma certa neutralidade, pois, por exemplo, é comum encontrarmos nos jornais manchetes assim: "Homem rouba banco mas deixa pistas". Ora, o jornal geralmente noticia algo que já aconteceu. Se a manchete está no tempo presente (presente do Indicativo) é porque esse tempo é, muitas vezes, neutro. E está, na verdade, se referindo ao passado. Ou, conforme o contexto, até ao futuro, como em: "Não gaste todo seu dinheiro. Amanhã ACABA a grana e ficamos mal". Como se vê o verbo ACABA está no presente do indicativo e se refere a algo que só vai acontecer amanhã.


Pois bem. Nas histórias maiores principalmente (novelas e romances) o tempo da narração é, naturalmente, maior. E nos romances épicos podem passar várias gerações. Mas o tempo não é marcado só pela exterioridade dos eventos. É marcado também internamente, PSICOLOGICAMENTE na cabeça de cada personagem. Aliás, como pode até acontecer conosco, pois às vezes não temos a impressão de o tempo passar muito rápido ou demorar uma eternidade? Pois então, o mesmo acontece com os personagens. Uma sensação, um sentimento, uma angústia ou alegria, pode se estender durante várias páginas, ser detalhada nos seus mínimos detalhes, em suas diversas matizes, enquanto tudo se passa cronologicamente em alguns poucos minutos. Cabe ao autor da história destacar ou não essa percepção de tempo.


Falta ainda ressaltar que o tempo pode ser linear ou não. Assim a história pode começar do "começo", ter o desenvolvimento de suas tramas (em geral com um ápice dramático) e terminar no "final". Este tipo de narrativa é a mais comum e chamamos de "narrativa linear". Ocorre, porém, que a história pode começar do final ou do meio. É muito comum, por exemplo, vermos isso no cinema. Não há histórias que primeiro aparece um assassinato e depois não se conta como tudo aconteceu até aquele crime? Quando se faz isso, se está começando do final. É bom lembrar, aliás, que grandes filmes surgiram da literatura. Depois que foram adaptados às telinhas. Enfim, na ficção pode haver um embaralhamento dos eventos a serem narrados: do meio pro começo e depois fim, do fim pro meio e então começo etc. Além de narrativas de histórias paralelas, com dois tempos iguais ou diferentes. Ex.: Um idoso se lembrando de sua vida e um outro observador contando como as coisas aconteceram sob outro ponto de vista. Enfim, as variantes são muitas. O que é importante observar é que esse embaralhamento de tempos narrativos se vê mais na literatura moderna e contemporânea, na qual o tempo passa a ter uma relatividade, subjetividade e fragmentação cada vez maior. Aliás, sem querer ir longe, o que se dá até com a física quântica. Essa, sem dúvida, é uma das características principais do que se costumou chamar de pós-mordenismo, mas que já tem seus experimentos em épocas anteriores.



c) Personagens. Personagens são serem animados (humanos, animais ou coisas, estes dois últimos em fábulas) que praticam a ação num determinado tempo, num determinado lugar e com certas características psicológicas. Assim, uma história pode ter só um personagem ou vários. É natural que quanto menor for a história (crônicas, contos) menos personagens tenha; e quanto maior (novela e romance), haja maior diversidade de personagens. Como se disse, num romance épico, pode haver várias gerações de personagens.


Os personagens carregam suas marcas físicas (cor da pele, formato do corpo, tipo de roupas etc) e psicológicas (alegre, triste, mal-humuraddo, gentil, ingênuo, inteligente etc.). Cabe ao autor ressaltar suas características de acordo com seu papel na história para dar verossimilhança ao que é narrado. Evidentemete que as características físicas e/ou psicológicas podem se transformar de acordo com o prosseguimento dos eventos. E é o que muitas vezes acontece. Às vezes mais, às vezes menos.


O que ocorre é que, dependendo do tipo de história (mais comum em romances) há basicamente duas maneiras de se descrever um personagem. Ou ele é plano: ou seja, são bastante marcados em perfís psicológicos, como num romance policial, onde um detetive vai ser sempre o durão e o bandido o covarde, por exemplo. Nesse sentido as características não sofrem grandes variações, são sempre planas, basicamente iguais. Ou ele é redondo: um só personagem revela uma riqueza de sentimentos, de conflitos interiores, passando por vários estágios ou características. Desse modo, às vezes está eufórico, às vezes está triste, às vezes sente dúvida, e outras tem convicções inabaláveis, por exemplo. Estes personagens são bastantes complexos e merecem uma atenção especial do leitor, pois revelam os labirintos, de maneira mais fidedigna, da mente humana. Pois todos nós revelamos, até certo ponto, conflitos interiores. É um turbilhão de emoções que passam pela gente diariamente e que muitas vezes não nos damos conta, mas eles estão lá, incoscientemente. E muitas vezes se expressam de maneira maquinal.  O escritor habilidoso vai saber observar tudo isso num personagem e trazer, através da linguagem, para o leitor, que pode, por sua vez, dar múltiplas significacões ao que se passa na mente do personagem, se identificando ou até tendo repulsa. Identificar-se ou criar repulsa é ter um ato de CATARSE. Termo grego, cunhado por Aristóteles, que (grosso modo) diz que só quando nos deparamos com a representação dos personagens que conseguimos nos enxergar e expulsar nossos males e "demônios", nos aliviando, consequentemente.



d) O conflito. Por último temos o conflito. Ele se dá através do diálogo, do jogo de interesses, da disputa entre os personagens. O conflito ocorre quando há ação. Assim, o conflito é a troca dialética, o confronto de subjetividades, de interesses. Nessa disputa cada um defende aquilo que almeja e pode entrar, a qualquer momento, em confronto com o outro. Há um momento certo para a história atingir o ápice do conflito. Em geral isso ocorre um pouco depois do meio. É através do conflito que se cria os enlaces da trama a ser contada. Um exemplo de conflito muito comum nas histórias de trama familiar (e até da vida de carne e osso moderna): 

Dois jovens apaixonados se casam, constroem uma bela casa e são até então felizes. E têm um filho. Mas a mulher, depois de um tempo, não ama mais seu marido e arranja um amante. Ele descobre e vai tomar satisfação com ela [primeiro conflito]. Depois consegue achar o amante dela e ameaça-o [segundo conflito]. Já muito desiludido então, o marido resolve se separar, mas há um problema: Com quem vai ficar o filho ainda pequeno? Então entram em disputa jurídica [terceiro conflito]. A sua ex-mulher consegue a guarda da criança e o seu ex-marido fica extremamente deprimido e tenta o suicídio [quarto conflito]. Mas depois encontra outra jovem e se casa novamente.


Como se vê, no conflito os interesses dos personagens são defendidos por cada qual. Às vezes no diálogo e às vezes em ações agressivas. Mas, além disso, o personagem pode também entrar em conflito consigo mesmo. Esses conflitos internos são muitos comuns em personagens mais redondos, mais complexos como disse. Fora isso, nesse pequeno resumo de história, vimos que ao começo tudo ia bem e seu ápice dramático se dá mais do meio para o final.



Conclusão


Esses tópicos, que estão sempre se entrelaçando e tecendo a malha do texto, são fundamentais para a construção de uma história ficcional. Há ainda muita coisa a ser vista como: o ponto de vista do narrador, a verossimilhança, o estilo do texto etc. Tudo isso será observado em aulas posteriores detalhadamente. Creio, porém, que o mais importante é ler bons romances. Isso nunca vai substituir fórmulas que tentam matematizar a literatura. Ainda mais fórmulas fixas (bem ao gosto da escola Estruturalista), já que em literatura tudo é maleável, movediço e lúdico. Além, é claro, de nos recompensarmos com o prazer do texto. Isso sim é insubstituível.



Prof. Ivonilton G de Souza

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Morfologia: a estrutura das palavras sob o ponto de vista sintático-semântico


Morfologia estuda também as classes gramaticais. Podemos dizer que uma mesma palavra pode assumir vários aspectos. E cada aspecto tem sua característica própria. Ora, um grupo de palavras que têm a mesma característica recebe uma só classificação. É como se tivéssemos um armário com várias gavetas. Há a gaveta das camisas, das calças, das meias, das roupas íntimas e por aí vai. Classificar, então, é arrumar esse armário, colocando cada coisa no seu lugar. Assim temos dez classes gramaticais: substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, preposição, conjunção, artigo, pronome, interjeição e numeral ( as duas últimas questionadas).


Vamos, por enquanto, trabalhar só com substantivo e adjetivo (no seu ponto de vista semântico-estrural). Depois veremos o resto.


Repare nessas palavras:


amigo - amizade

triste - tristeza

belo - beleza

Impulsivo - impulso


No primeiro grupo (coluna) temos palavras adjetivas; no segundo substantivos. 


É importante ter em mente que todo substantivo é precedido de artigo (o pássaro, o fenômeno,  a amizade, umas amizades). Aliás, seguindo esse critério, qualquer palavra pode virar substantivo. Até uma interjeição (ex.: "O ai que ele gritou me deu pena"; repare no "o" antes da interjeição "ai").


Mas, em termos de estrutura, o que muda na primeira coluna para a segunda? Não há grafias diferentes?


Claro que sim. Na segunda coluna foi colocado um morfema derivacional. Assim, a palavra, que antes era um adjetivo, se derivou (se transformou) em substantivo. Vejamos primeiro a palavra numa frase e depois na sua estrutura.


Ele é meu amigo. ("Amigo" nessa posição na frase é adjetivo, pois específica quem ele é.)


A amizade verdadeira não tem preço. ("Amizade" é um substantivo, pois nomeia um algo; no caso, um sentimento.)


O mesmo se dá com os outros exemplos:


A pobreza é triste.(Adj.)

A tristeza é o mal da alma. (Sub.)


A vida é bela. (Adj.)

A beleza da vida consiste no amor aos outros. (Sub.)


Mike Tyson era um boxeador impulsivo. (Adj.)

O meu impulso era gritar. (Sub.)


Bem. Vejamos mais de perto agora como fica MORFOLOGICAMENTE estas palavras.


amigo - amizade


Adj. em "Ele é amigo": amig- (radical); -o (tema).


Sub.: amig- (radical); -z- (consoante de ligação); -ade (sufixo).



triste - tristeza


Adj.: trist- (radical); -e (tema).


Sub.: trist- (radical); -eza (sufixo).



belo - beleza


Adj.: bel- (radical); -o (tema).


Sub.: bel- (radical); eza (sufixo).



impulsivo - impulso


Adj.: impuls- (radical); -ivo (sufixo).


Sub.: impuls- (radical); o (tema).




Tema é uma vogal temática, em geral colocada após o radical, base da palavra. É dessa base que as outras derivam. Acontece que há palavras que por sua natureza são adjetivos, outras adjetivos, outras advérbios, e por aí vai. Essa classificação (de qual classificação primordial da palavra) vai depender do seu ponto de vista semântico, do seu significado. E as mudanças se dão no ponto de vista sintático (relacional) também; ou seja, qual relação que se mantém junto às outras.


Assim, originariamente, "belo" é um adjetivo, pois qualifica e específica algo, mas pode se transformar em um substantivo, sem mesmo mudar sua estrutura. Ex.: O belo na poesia é imprescindível.


Repare que, para virar um substantivo, ela mudou sua posição na oração. Deixa de ser um predicativo do sujeito como em "Ele é belo" e passa a ser o sujeito da oração, no nosso exemplo. Além, é claro, de receber um artigo antes. Mas poderia derivar também: A beleza na poesia é fundamental.


Retornando ao que dizíamos: a característica inicial da palavra, em geral, vai determiná-la morfologicamente. Está bem óbvio que triste é um adjetivo antes de ser um substantivo (Maria é triste). Por isso depois do radical "trist-" só temos o tema "-e". Mas passa por um processo de derivação quando passa a ser um nome substantivo, portanto recebe um sufixo derivacional: "-eza".


O contrário se dá com o último par "impulsivo - impulso". Aqui temos vogal temática em "impulso" (impuls-o) e derivação no adjetivo impulsivo (impuls-ivo). Deduz-se então que impulsivo deriva do substantivo impulso. Vejamos um outro exemplo bem simples:


pedra - pedreiro


Substantivo: pedr-a.

Adjetivo: pedr-eiro.


Podemos ainda dividir mais morfologicamente pedreiro? Sim. Podemos sim.


pedr- (radical); -eir- (sufixo derivacional); -o (morfema de gênero do masculino).


Poderia (hoje em dia as mulheres fazem tudo) ser do gênero feminino também: pedreir-a.


Obs.: Há gramáticos que só veem morfemas femininos. Pois as palavras masculinas teriam morfema zero e a vogal seria somente um tema. Assim: menino, onde o "o" final seria o tema. O morfema ausente de feminino que daria seu gênero: menin- (R) + o (T) + (0, morfema zero). Bem diferente em menina: menin- (R) + a (morfema de gênero feminino).


Pois bem. Nesta exposição comparamos duas classes gramaticais com suas implicações semânticas e, principalmente, do ponto de vista da estrutura. Isso já dá subsídios para entender que há no estudo de morfologia uma ampla correlação com outros tópicos da gramática . Na verdade a linguagem é uma rede de tecido com uma maleabilidade semântica do discurso. Por isso o assunto não se esgota por aqui. Mas, mais do que descrever, o intuito principal deste estudo, e de outros que se seguirão, é guiar nosso raciocínio nessa rede, por vezes abstrata, mas que pode ter muita utilidade para a elucidação e construção de um mundo concreto.


Prof. Ivonilton G de Souza



terça-feira, 11 de agosto de 2020

Morfologia: a estrutura das palavras



A morfologia vai estudar as unidades mínimas significativas das palavras. Por isso, além de avaliar como seu esqueleto é feito, ou seja, sua estrutura, vai buscar os significados de cada parte que as compõem. Tomemos essas palavras:


Feliz

Infeliz

Felizmente

Infelizmente

Feliticitar


Ora, vemos que em todas elas há uma parte que não varia. Essa parte é a base e podemos chamar de radical: Feliz.  


(Obs.: em algumas por motivos fonéticos, de som, o "z" se transforma em "c", são as mudanças morfofonêmicas.)


Mas ao acrescentarmos o "in" em feliz o significado da palavra muda totalmente, pois passa a ter um sentido negativo. Ex.: "Marcelo vive triste; parece ser INFELIZ".


No entanto, a palavra continua sendo ainda um adjetivo.


A partícula "in" (de "infeliz", no nosso exemplo) é um morfema. E o que é um morfema? Morfema é a unidade mínima significativa da palavra. Mínima, porque não pode ser decomposto em unidades menores; significativa, porque possui um significado, possui, melhor dizendo, uma natureza semântica, representando algo. Neste exemplo, uma negação. Como também nesses outros morfemas: desfazer (des-), atípico (a-), utopia (u-).


Estes morfemas (e outros com significados diferentes, como sublinhar, por exemplo, colocar linha em baixo, daí "sub") receberão o nome de específico de PREFIXOS, já que são afixados antes da palavras. Assim, são AFIXOS, porque integrados à base das palavras, e são PREFIXOS, porque são colocados anteriormente. Em síntese: são AFIXOS PREFIXAIS.


No terceiro exemplo de nossa lista de palavras as coisas mudam. Foi acrescentada uma unidade não antes do radical (da base da palavra) mas no seu final. Trata-se, como vimos, também de um afixo, mas aqui agora não vem antes e sim depois, por isso chamaremos o morfema "-mente" ("felizmente") de SUFIXO. 


Mas as mudanças não param por aí. O morfema sufixal posposto ao radical mudou sua categoria gramatical, passando a ser agora um advérbio, que melhor poderemos observar (e contextualizá-lo) no exemplo de uma frase. Como esta:


Felizmente, todos chegaram bem de viagem.


Assim, como foi recebido o fato da "chegada bem de todos da viagem"?


Foi recebido "felizmente". Por isso temos um advérbio de modo.


Enfim, o que nos importa aqui é a questão mais específica da estrutura da palavra. E os exemplos, em regra, dizem que na estrutura da nossa língua a classe gramatical não sofre alteração quando há um prefixo, mas pode havê-la, ou não, em caso se sufixo, como no caso acima. Este sufixo, por fim, também traz um significado mínimo: o de transmitir a meneira, o modo (por isso advérbio de modo) de como se sente algo.


Na palavra seguinte da lista (infelizmente), colocamos o prefixo "in-" e o sufixo "-mente". Pois bem. Está na hora de dizer que o processo de colocar morfemas no radical da palavra (lembrando que o radical, que também é um morfema, terá sempre um significado extraliguístico, ou seja, aponta algo para fora da gramática, representa algo não na língua mas no mundo). Bem, esse processo de afixar morfemas e "criar" outras palavras recebe o nome de DERIVAÇÃO DAS PALAVRAS ou DERIVAÇÃO LEXICAL. No qual o termo léxico seria um sinônimo de palavra.


Assim, se colocamos um prefixo (PRÉ-história, INcomum, REcolocação, DESonento etc.), temos uma DERIVAÇÃO PREFIXAL.


Se o morfema vem depois (historiNHa, garotÃO, estimulaDO, conscienteMENTE, rapaziADA, portaRIA etc.), chamar-se-á de DERIVAÇÃO SUFIXAL.


Mas em caso de possuir tanto o prefixo como o sufixo teremos duas denominações, conforme os exemplos a seguir:


- DERIVAÇÃO PREFIXAL E SUFIXAL


É o nosso quarto exemplo da lista inicial: infelizmente. É fácil depreender que há nesta palavras dois afixos. O prefixo de negação "in-" e o sufixo adverbial "-mente". Como também em: DEScoloniZAR, e por aí vai...


- DERIVAÇÃO PARASSINTÉTICA.


Neste caso há semelhanças, mas também há diferenças. Vamos primeiro às semelhanças: são palavras com prefixos e sufixos. Mas qual são as diferenças? Simples. No grupo dessas palavras especiais, o prefixo e o sufixo entram juntos, concomitantemente. Não há um sem o outro. Ex.:


Enforcar

Entristecer

Acorrentar

Ajoelhar

Subterrâneo


Ora, para identificarmos a parassíntese nessas palavras basta omitir ou o prefixo ou o sufixo e veremos que não há correspondentes na nossa língua. Observemos:


Forcar (não existe)

Entriste (não existe)

Correnta (não existe)

Terrâneo (não existe)


Desse modo, não há como elidir (tirar) um dos afixos. São comuns em palavras que formam verbos como as três primeiras. E mais raras com substantivos, a última.


Para completar a análise de nossa lista inicial, veremos a última palavra (felicitar). Provém, naturalmente, da base "feliz". Mas o que difere a estrutura desta palavra das outras? Ora, é fácil perceber que felicitar pode ser conjugado: eu felicito, tu felicitas, ele/você felicita, nós felicitamos, vós felicitais, eles/vocês felicitam. Diante disso temos não propriamente uma derivação lexical, mas trata-se de uma flexão verbal de modo, tempo, número e pessoa. No exemplo que dei conjuguei o Presente (tempo) do Indicativo (modo), que possui três pessoas do singular (eu, tu, ele/você) e três do  plural (nós, vós eles/vocês). 


(Obs.: modernamente os gramáticos incluem o "você(s)" como pronome pessoal, cuja flexão verbal se inclui no "ele(s)".)


Pois bem. Se formos analisar os constituintes morfológicos da palavra felicitar teremos isso:


Felic-itar


No qual "-itar" forma o verbo no infinitivo impessoal do adjetivo "feliz". E, decompondo mais ainda, veremos que o "-a-" coloca esse verbo no paradigma da 1a conjugação, por isso chamamos de vogal temática (encontrada também em substantivos: sapato, vogal temática "o"); e o "-r", no final, traz a marca do infinitivo. O "-c-" do radical era "z" de feliz (mudança morfofonêmica) e o "-it-" seria, portanto, a "base" do morfema derivacional.


É assim que com as DESINÊNCIAS VERBAIS (ou seja, esses morfemas que ajudam a flexionar os verbos) conseguimos conjugar os verbos identificando, por exemplo, a pessoa sem ter que colocá-la explicitamente. Veja:


Ando eufórico com meu novo emprego.


Por acaso é : *[Ele] ando eufórico (?).

 

Não. Só pode ser: [Eu] ando eufórico. Por quê? Porque o morfema desinencial "-o" (de and-o) só pode indicar a primeira pessoa do singular: "eu". Assim, trata-se de um morfema de primeira pessoa do singular do presente do indicativo, que foi colocado junto ao radical "and-".


Mas nem sempre aparecem todos os morfemas, e o caso anterior é um dos exemplos. Quando não aparece, temos morfema zero [O], o zero é cortado como no símbolo matemático de vazio. 


(Obs.: o teclado não oferece esta opção.) 


É só verificar neste exemplo de substantivo:


Menino

Meninos


No segundo exemplo temos o morfema pluralizador "-s". No primeiro, o morfema de plural é zero.


O mesmo se sucede com os verbos:


Cant-a-va

Cant-á-va-mos


Tomando o segundo exemplo temos: o radical (usamos o símbolo R) é "cant-"; o "-a-" representa a vogal temática (VT); o "-va-" é a desinência de modo temporal (DMT), pretérito imperfeito do indicativo; e o "-mos" indica a desinência número pessoal (DNP), terceira pessoa do plural.


Mas no primeiro exemplo ("cantava") não aparece a desinência de número pessoal. Então essa ausência já nos indica que o verbo se refere a uma pessoa singular, por isso: morfema zero.


Bem. Ainda há outros processos de formação de palavras, que veremos em outra oportunidade. Mas esta introdução já é bem oportuna para perceber que as palavras são compostas de uma estrutura decomponível, passível de análise, onde seus constituintes podem ser reduzidos até uma unidade mínima significativa que ofereça sentido no mundo gramatical (intralinguístico) ou extralinguístico (como representação dos fenômenos observáveis, imaginados ou sentidos), que são as raízes e os radicais, como vimos. Ao dominar esse assunto, conseguimos deduzir certas palavras desconhecidas sem ter que nos socorrermos aos dicionários constantemente, conseguimos criar novas palavras (inclusive poeticamente) e descobrir aquelas já apagadas da memória do povo. Desse modo, é um estudo muito importante para o manejo do raciocínio estruturante e da língua em geral.


Prof.: Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 15 de julho de 2020


PONTUAÇÃO: PANORAMA GERAL



O estudo de pontuação merece a devida atenção porque são nestes sinais que conseguimos expressar com mais clareza nosso pensamento, atendendo sempre à dinâmica e à "respiração" do texto, já que ela é responsável por pausas articulatórias no discurso, seja em forma gráfica ou em sua correspondente oral. O que, muitas vezes, pode acarretar mudanças de estrutura na sentença e, por conseguinte, semânticas. Isso faz com que, quando não bem executada, acarrete prejuízos comunicativos. Ruídos que só o uso coerente e sensato pode dissolver. Os exemplos que se seguem não esgotam a matéria. Mas já servem como um bom guia introdutório.


PONTO FINAL ( . ). Encerra uma frase declarativa (ou período):

João andou muito.

O dia amanheceu ensolarado.

Apesar de estar frio, vou sem casaco.


PONTO E VÍRGULA ( ; ). Representa uma ligeira pausa. Seu uso segue um esquema mais estilístico do que sintático, mas há ocasiões em que seu uso se faz mais solicitado:

-  Para evitar acúmulos de vírgulas. Ex.:

 João, que é querido por todos, foi convidado; eu não.

- Para enumerar ítens. Ex.:

O futebol se joga com os pés; basquete se joga com as mãos; xadrez, com a cabeça.

É expressamente proibido:
a) andar sem camisa;
b) usar trajes de banho;
c) fumar; e
d) falar alto.

DOIS PONTOS ( : ). Em geral é utilizado para se colocar um aposto em final de frase. Ex.:

Os esforços sempre nos dão uma recompensa: a felicidade.


VÍRGULA ( , ). Serve para organizar a frase sintaticamente e marcar, na respiração, uma pequena pausa (ver texto "Com ou sem vírgula? - Eis a questão"). Ex.:

João, fez os exercícios? (Neste exemplo João é vocativo, pois a pergunta é feita a João.)

João fez os exercícios? (Neste, João é sujeito, já que alguém pergunta a outra pessoa se João fez os exercícios.)

Marcela comprou um carro, mas só Ricardo sabe dirigir. (Aqui a vírgula separa duas orações.)

Andei, corri, gritei. (Temos outro exemplo de vírgulas que separam orações.)

A árvore, que vive há 200 anos, foi cortada. (Separando uma oração intercalada numa principal.)

A igreja, infelizmente, pegou fogo. (A vírgula aqui intercalou um advérbio, que também poderia ficar no começo ou no final: A igreja pegou fogo, infelizmente.)

O carro, de cor branca, é meu. (A vírgula intercalou um aposto explicativo)

Eu comi bastante; ela, muito pouco (neste exemplo a vírgula está suprimindo o verbo comer: Eu comi bastante; ela comeu muito pouco. Assim, funciona como recurso estlístico, elipse.)

A Deus, amo acima de tudo.(Aqui a vírgula serve para antepor o objeto direto preposicionado "A Deus".)

Caneta, papel, borracha e lápis; estes são os materiais que vão ter que levar para prova. (Cabe neste exemplo enumerar ítens.)


EXCLAMAÇÃO ( ! ). Exerce o papel de ressaltar algo ou de demostrar algum apelo emocional numa frase exclamativa. Ex.:

Cuidado! Pista molhada!

Paaara! Eu não aguento mais escutar isso!!!


INTERROGAÇÃO ( ? ). Questiona em frases interrogativas; seja objetivamente:

- Quantos anos você tem?
- 20 anos.

Seja retoricamte:

O Brasil tem muitos analfabetos. Você sabe o que isso significa? Significa que temos que prorizar a educação.

Obs.: Podem os dois sinais precedentes (interrogação e exclamação) aparecerem na mesma frase, num misto de exaltação com dúvida. Ex.: Joana gritou: -- Que história é essa de não fazer o dever?!


RETICÊNCIAS. ( ... ) São três pontos (o famoso três pontinhos) que colocamos ao final para indicar algo que não terminou:

Andamos indefinidamente, sem parar...

Ou para dar vaguidade a algo:

Não se sabe quantas estrelas há no céu nem quantas indefinições no seu coração...


TRAVESSÃO ( -- ). Inicia um diálogo. Ex.:

-- Você vai à festa?
-- Não.

Ou coloca, tal como os PARÊNTESIS, apostos, orações intercaladas, e mesmo advérbios. O travessão sempre ressalta mais do que se estivéssemos colocando entre vírgulas.

A casa -- abandonada há muitos anos -- é misteriosa.


ASPAS DUPLAS ( " " ). Servem para marcar diálogos em discurso direto:

Ele disse: "Vou à festa".
Marcela desafiou: "Ah não... Não vai não".

As aspas duplas servem também para citar o texto de alguém, incorporando no de quem está discursando:

O pesquisador afirmou que Machado de Assis era "um escritor realista, porque analisava o jogo de interesse da sociedade burguesa".

Podem as aspas também servirem  para destacar uma ironia:

Todo mundo na cadeia é muito "honesto".

Ou pode simplesmente realçar uma palavra:

O mais importante da vida é ser "feliz".


ASPAS SIMPLES ( '  ' ). Servem para fazer uma citação de uma citação. Ou seja, quando um autor já citado cita outro. Ex.:

Nas palavras do professor:

"Machado é um escritor realista porque vai falar em seus livros sobre a disputa na sociedade. Aliás, como Machado mesmo diz em um dos seus livros: 'Ao vencedor as batatas'. Isso quer dizer: que os melhores vençam."



Ivonilton G de Souza

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Com ou sem vírgula? - Eis a questão


Para entender a importância de uma vírgula, repare neste trecho do jornal eletrônico "Correio Brasiliense", de 15/05/2018:

"O convite para a cerimônia marcada para esta terça-feira (15/4) pelo Palácio do Planalto, com o objetivo de celebrar os dois anos do governo de Michel Temer, provocou uma crise e teve de ser alterado de última hora. Expedido pelo cerimonial do Planalto, o convite trazia o slogan 'O Brasil voltou, 20 anos em 2'. A mensagem foi considerada desastrosa por auxiliares do presidente, uma vez que, sem a vírgula após o verbo, poderia passar a impressão de que o País regrediu duas décadas sob a gestão Temer."

Pois bem. Com isso dá para perceber a importância de uma vírgula. Houve, depois desta cerimônia em Brasília, inúmeros internautas que fizeram chacota com o slogan, pois bastava só tirar a vírgula para ficar: "O Brasil voltou 20 anos em 2". Ou seja, o Brasil retrocedeu em termos sociais e econômicos para épocas antigas.

Desse modo, já sabemos que o sentido da frase muda. Mas como isso se dá em termos de estrutura? É o que vamos ver a seguir.

Se temos a vírgula ("O Brasil voltou, 20 anos em 2"), o termo "20 anos em 2" passa a ser um APOSTO EXPLICATIVO, já que tem a função de explicar, de dar uma informação positiva a mais em relação ao conjunto anterior, no qual o verbo "voltar" conota revigoramento do país. Assim explica, representa - estilizando com uma hipérbole - uma grande quantidade de tempo de avanços positivos essa volta supostamente triunfal (pois se trata de peça publicitária) em apenas 2 anos. Poderia haver travessão, parêntesis ou dois pontos em vez de vírgula (O Brasil voltou: 20 anos em vinte). Assim, teremos outros exemplos similares em:

Meu pai trabalhou - quarentena anos de dureza.

Carlos abriu o presente: um relógio.

O pássaro canta muito, boa saúde.

João, homem sempre sisudo, deu um sorriso.

O Brasil (maior país da América Latina) ainda possui pobreza.


Por outro lado, sem a vírgula, como ficaria a frase de nossa campanha publicitária? O sentido já é patente, pois "O Brasil voltou 20 anos em 2" significaria que ele retrocedeu simbolicamente em termos de desenvolvimento socioeconômico 20 anos no decorrer de 2 anos seguidos. A ausência de vírgula, então, é responsável, não só por uma mudança semântica, mas estrutural. Melhor dizendo: pode haver implicações semânticas-estruturais no discurso quando se muda a pontuação. Se semântico (de sentido e significado) já temos uma ideia, cabe-nos responder o que muda estruturalmente. Ou ainda: sintaticamente. Vejamos então.

"O Brasil voltou".  Mas voltou para que época? Voltou para 20 anos atrás. Ora, essa pergunta "Para que época?" indica um advérbio de tempo (podendo ser até de lugar, talvez: "Voltou para onde?). Lembrando que advérbio é aquela palavra que modifica o verbo (João acordou CEDO); modifica o substantivo "Marcelo" em "Marcelo fez o trabalho TRISTEMENTE", ou seja, "Quem fez o trabalho tristemente?"; modifica o  adjetivo "feliz" no exemplo "O pássaro canta MUITO feliz"; e modifica o próprio advérbio "bem": "Ele está MUITO bem". Assim, a resposta de "Para que época?" só pode se referir ao tempo de 20 anos atrás. E em quanto tempo se operou essa volta? Ora, apenas em 2 anos. O que indica também um advérbio de tempo. Assim o conjunto "20 anos em 2" seria uma LOCUÇÃO (porque envolve um aglomerado de palavras) ADVERBIAL DE TEMPO.

Advérbios, por conseguinte, indicam circunstâncias diversas: de tempo, de modo, de lugar etc. Por isso, pode-se chamar também este pequeno fragmento (termo) da frase de adjunto circunstancial.

Mas há gramáticos que vão além da argumentação precedente. Vão dizer que o verbo "voltar", da sentença sem a vírgula ("O Brasil voltou 20 anos em 2"), mudaria de postura e seria não intransitivo, mas solicitaria um complemento (transitividade) conforme o sentido exigido pelo contexto comunicativo do falante. Por isso vão dizer (Celso Luft, por exemplo) que "20 anos em 2" seria um complemento circunstancial: complemento de verbo + circunstância de tempo. Ou então, como quer Evanildo Bechara, complemento relativo.

Mas isso é uma discussão para outra oportunidade. O importante é ter em mente que a ausência ou não de uma vírgula pode ser definitiva para a clareza do texto. Todo jogo semântico-estrutual pode ser afetado através de sua ulilização ou não no texto escrito. Há, evidentemete, muitos outros exemplos ainda. Mas que vamos conferir em outra aula.


Ivonilton G de Souza

terça-feira, 23 de junho de 2020

Coesão referencial



Todo texto envolve uma estrutura. Essas estruturas devem estar conectadas, pois uma parte leva a outra. Os conectores são responsáveis por essas "costuras" da construção textual. São palavras que, ajudando no sentido do texto, ligam as frases, orações e até parágrafos: mas, portanto, e, assim, por isso, desse modo etc. Ajudam também no equilíbrio desse tecido estrutural (trazendo economia de linguagem e elegância ao texto), palavras que fazem referências a outras palavras ou a partes do discurso já pronunciadas ou a ser pronunciadas. Esse grupo de palavras fazem a coesão referencial.

Coesão porque trazem unidade ao discurso, referencial porque, como o próprio nome diz, fazem referências a partes do discurso. Usamos intuitiva ou conscientemente todos os dias. Seja em discurso oral (falado), ou em discurso escrito. Vale lembrar que o discurso escrito é sempre mais bem planejado do que o oral. Por isso,  o bom uso desses elementos de coesão se faz importantíssimo. Até mesmo para evitar ruídos de comunicação, ou seja, mal-entendidos.

Veja este exemplo de um texto com FALHAS na sua coesão:

"João comprou um carro. O carro de João quebrou. João levou o carro para o mecânico. O mecânico consertou o carro de João. Já funcionando bem o carro, João fez uma bela viajem com o carro. A bela viajem deixou João feliz."

Então. O que acharam? Evidentemete que não parece ser um texto bem escrito. Como poderíamos melhorá-lo?

Uma das respostas está no uso de elementos coesivos referenciais. Pois bem. Veja como fica agora:

"João comprou um carro, QUE quebrou. ELE levou-O para o mecânico. O HOMEM consertou seu AUTOMÓVEL. Já funcionando bem [...], [...] fez uma bela viajem [...]. ISSO o deixou feliz."

O texto agora não mudou bastante? Não está mais elegante e coeso?

As partes que destaquei são os conectores referenciais, responsáveis pela coesão, unidade e sentido do texto (e os colchetes veremos depois). Assim temos:

"João comprou um carro, QUE quebrou."

O "QUE" é um pronome relativo. Se refere a "carro" da oração anterior. Desdobrando ficaria: "João comprou um carro. O carro quebrou". Assim evita-se a repetição desnecessária da palavra "carro". É o mesmo que veremos a seguir:

"ELE levou-O para o mecânico."

Ora, fica bem claro que "ELE" (pronome pessoal do caso reto) só pode se referir a  "João". E o "O" destacado depois do verbo "levou" é também um pronome pessoal (mas não mais do caso reto, mas oblíquo, porque se segue ao verbo como seu complemento). É um pronome que substitui a palavra "carro". Nesta frase, então, evita-se duas repetições enfadonhas.

Mas veremos que a coesão referencial nem sempre se dá com pronomes. Pode se dar por sinônimos ou palavras próximas também. É o nosso exemplo seguinte:

"O HOMEM consertou seu AUTOMÓVEL."

Ora, "HOMEM" está por "mecânico" e "AUTOMÓVEL" está por "carro".

E quase não percebemos, mas "seu" (pronome possessivo) está por "automóvel DE JOÃO".

Vejamos mais um caso de coesão referencial. Quando as palavras chaves já foram mencionadas no texto, podemos até omiti-las, sem precisarmos nos socorrer de nenhuma outra, como se observa nos colchetes pontilhados:

"Já funcionando bem [...], [...] fez uma bela viajem."

Já funcionando bem o quê? O carro, evidentemente. Quem fez uma bela viajem? João. Essas perguntas são tão simples que evidenciam a desnecessidade de colocar esses termos nas orações apontadas. É uma informação que já foi dada no texto. Por isso não há necessidade de repetir tais termos. Assim, quando o sentido já está dado,  seria um desperdício de energia repetir tais termos novamente. Isso (para ficar só neste exemplo) é o que muitos estudiosos da língua chamam de economia linguística. Auxilia ainda o verbo fazer na 3a pessoa do singular: "[Ele] fez". E o contexto explicita uma eventual dúvida, pois "ele" só pode ser o João.

Por fim, temos no final o termo ISSO (pronome demonstrativo). Este pronome está retomando, fazendo referência à oração anterior: "... fez uma bela viajem". Desse modo os pronomes demostrativos podem apontar não só um termo mas uma oração, uma frase, ou até mesmo um parágrafo anteriormente expresso. Veja no nosso exemplo:

"Já funcionando bem, fez uma bela viajem. ISSO o deixou feliz."

Pode também apontar algo que vem à frente como em:

"Para vencer na vida faça ISTO: se dedique aos estudos."

Assim, se há uma referência a algo anterior temos uma ANÁFORA. Se for algo posterior haverá uma CATÁFORA.

Portanto, no exemplo do texto de João temos uma anáfora; e neste último, uma catáfora.


Concluindo, a coesão referencial nos ajuda a construir um texto com mais elegância e, se bem usada, coerência. Atende a dinâmica da língua, sua concisão e equilíbrio. No discurso oral expontâneo, as repetições de palavras são mais comuns do que no discurso escrito, além de ser uma linguagem mais fragmentada com mais lapsos e descontínua. Já o discurso escrito exige mais reflexão, "enxugamento" dos termos, precisão. Enfim, é bem mais elaborado, o que faz do bom uso das conexões uma peça fundamental para a arte  escrever.

Em outra aula veremos que podemos, com auxílio de conjunções e conectores, melhorar ainda mais este e outros textos.

Ivonilton G de Souza



terça-feira, 9 de junho de 2020


Figuras de Linguagem (antítese, paradoxo, metáfora, comparação)


Quando queremos expressar algo de uma maneira que crie mais impacto, ou dê um realce significativo ao que queremos dizer, usamos a figura de linguagem, muito utilizada nos textos conotativos, por isso é também muito trabalhada pelos escritores de literatura, sobretudo os poetas. Vamos ver algumas:

- Antítese
Consitse em colocar pares opositivos no texto. Ex.: Grande/pequeno; alto/ baixo; feliz/ triste. Muito comum na literatura Barroca, pois revela a tensão dos opostos em que viviam os poetas, como em:

"Nasce o Sol e não dura mais que um dia:
Depois da Luz, se segue a noite escura;
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria."

(Gregório de Matos, "A inconstância das cousas do mundo", fragmento)

- Paradoxo
Nesta figura, também há oposição de ideias. Mas neste caso a oposição se dá num mesmo ser, criando uma contradição como se disséssemos que o gelo arde mas é frio ao mesmo tempo. Assim, o calor e o frio pertencem ao mesmo ser. No barroco também há muitos paradoxos. Por isso muitos dizem que Camões já produzia algumas obras não do estilo do Classicismo, mas do barroco (principalmente nas peças líricas), pois este poema dele é repleto de paradoxos. Veja-o:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer."

 (Luis de Camões, fragmento)

- Metáfora.
É a figura de linguagem literária por excelência. Num sentido amplo pode englobar as outras. Por isso é comum escutarmos, de uma maneira geral, "a obra literária tem uma grande metáfora", ou "esse quadro metaforiza a dor humana". Em sentido específico tem suas características próprias. É uma comparação que fazemos de uma coisa a outra de maneira mais direta e imediata. Seria como se falássemos: o mel dos seus lábios (os lábios são doces como o mel). Observemos no olhar de uma poeta:

"Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!"

(Cecília Meireles, "Coração de Pedra", fragmento)

Como se vê o coração é "de pedra" porque o eu lírico está sofrendo, mas antes era clamo e livre, por isso era de "asas" , ou " de lágrimas", representando o estado de tristeza, e passou a ser de "sílex", por isso pode o eu lírico ter uma inconstância e fragilidade nos seus sentimentos.

- Comparação
Consiste em comparar duas ou mais coisas devido a características contíguas, próximas, para realçar a ideia. Se na metáfora a comparação é mais imediata, sintética, na comparação ela é madiada, analógica. É muito comum escutarmos comparações no nosso dia a dia como "ele é duro como uma pedra", "fulano fala como uma matraca" etc. Padre Vieira era mestre nesse estilo. Vejamos algumas dele no Sermão da Sexagésima:

"O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum."

(Padre Antônio Vieira, "Sermão da Sexagésima", fragmento)

Concluindo, as figuras de linguagem são um recurso que podemos utilizar para realçar nosso pensamento, dar um matiz diferente (nos apropriando de imagens) para estilizar nosso texto. Há algumas figuras de linguagem já desgastadas pelo tempo, que caíram no uso comum, como nos ditos populares (por exemplo, "Água mole e pedra dura / tanto bate até que fura"). Assim, a poesia autêntica reside em a figuras de linguem extremamente trabalhadas, imaginativas e originais, criando, portanto, um universo único (fora do senso comum) e brilhante.

Ivonilton G de Souza