terça-feira, 9 de junho de 2020


Figuras de Linguagem (antítese, paradoxo, metáfora, comparação)


Quando queremos expressar algo de uma maneira que crie mais impacto, ou dê um realce significativo ao que queremos dizer, usamos a figura de linguagem, muito utilizada nos textos conotativos, por isso é também muito trabalhada pelos escritores de literatura, sobretudo os poetas. Vamos ver algumas:

- Antítese
Consitse em colocar pares opositivos no texto. Ex.: Grande/pequeno; alto/ baixo; feliz/ triste. Muito comum na literatura Barroca, pois revela a tensão dos opostos em que viviam os poetas, como em:

"Nasce o Sol e não dura mais que um dia:
Depois da Luz, se segue a noite escura;
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria."

(Gregório de Matos, "A inconstância das cousas do mundo", fragmento)

- Paradoxo
Nesta figura, também há oposição de ideias. Mas neste caso a oposição se dá num mesmo ser, criando uma contradição como se disséssemos que o gelo arde mas é frio ao mesmo tempo. Assim, o calor e o frio pertencem ao mesmo ser. No barroco também há muitos paradoxos. Por isso muitos dizem que Camões já produzia algumas obras não do estilo do Classicismo, mas do barroco (principalmente nas peças líricas), pois este poema dele é repleto de paradoxos. Veja-o:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer."

 (Luis de Camões, fragmento)

- Metáfora.
É a figura de linguagem literária por excelência. Num sentido amplo pode englobar as outras. Por isso é comum escutarmos, de uma maneira geral, "a obra literária tem uma grande metáfora", ou "esse quadro metaforiza a dor humana". Em sentido específico tem suas características próprias. É uma comparação que fazemos de uma coisa a outra de maneira mais direta e imediata. Seria como se falássemos: o mel dos seus lábios (os lábios são doces como o mel). Observemos no olhar de uma poeta:

"Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!"

(Cecília Meireles, "Coração de Pedra", fragmento)

Como se vê o coração é "de pedra" porque o eu lírico está sofrendo, mas antes era clamo e livre, por isso era de "asas" , ou " de lágrimas", representando o estado de tristeza, e passou a ser de "sílex", por isso pode o eu lírico ter uma inconstância e fragilidade nos seus sentimentos.

- Comparação
Consiste em comparar duas ou mais coisas devido a características contíguas, próximas, para realçar a ideia. Se na metáfora a comparação é mais imediata, sintética, na comparação ela é madiada, analógica. É muito comum escutarmos comparações no nosso dia a dia como "ele é duro como uma pedra", "fulano fala como uma matraca" etc. Padre Vieira era mestre nesse estilo. Vejamos algumas dele no Sermão da Sexagésima:

"O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum."

(Padre Antônio Vieira, "Sermão da Sexagésima", fragmento)

Concluindo, as figuras de linguagem são um recurso que podemos utilizar para realçar nosso pensamento, dar um matiz diferente (nos apropriando de imagens) para estilizar nosso texto. Há algumas figuras de linguagem já desgastadas pelo tempo, que caíram no uso comum, como nos ditos populares (por exemplo, "Água mole e pedra dura / tanto bate até que fura"). Assim, a poesia autêntica reside em a figuras de linguem extremamente trabalhadas, imaginativas e originais, criando, portanto, um universo único (fora do senso comum) e brilhante.

Ivonilton G de Souza

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