Impessoalidade no discurso: a "fala" institucional, a terceira pessoa do singular com índice de indeterminação "se" e a terceira do plural
Num discurso objetivo é importante demonstrar impessoalidade e isenção. Mas primeiro, pergunta-se: o que é discurso objetivo? E em segundo lugar: o que é impessoalidade?
Bem. Discurso objetivo é aquele que traz uma marca de um suposto distanciamento pessoal do que se quer falar. "Suposto" porque, mesmo que haja impessoalidade (afastamento em relação a opiniões próprias), é de se questionar se não há sempre um interesse pessoal sobre o tema tratado com tanta objetividade. Mas isso é uma questão que não vem ao propósito deste texto. Assim, conforme íamos dizendo, o discurso objetivo busca uma isenção e imparcialidade que são típicas de textos que, antes de falar em tom próprio e subjetivo, falam em nome de uma instituição. Essa instituição pode ser uma comunidade científica, uma empresa, uma fundação etc., como neste trecho de um comunicado da Fiocruz:
"A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) esclarece que é falsa a mensagem que vem circulando no WhatsApp e em redes sociais, atribuída à instituição, com orientações de como se proteger contra a Covid-19."
https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-esclarece-informacoes-falsas
Desse modo, o discurso objetivo é muito encontrado em textos científicos, técnicos, documentos de empresas, comunicados institucionais etc. Assim, como neste da Fiocruz, rapidamente observamos que em seu texto sempre se coloca numa posição "de fora", usando a terceira pessoa: "A Fundação Oswaldo Cruz...". Por isso 3a pessoa, onde o termo "Fundação Oswaldo Cruz" pode ser comutada pelo pronome do caso reto "Ela".O que há, portanto, é uma "fala" em nome da instituição.
Com essas pistas, já podemos averiguar com mais profundidade o que significa impessoalidade. Ora impessoalidade é todo discurso, como o nome o diz, que não é pessoal. E não sendo pessoal é quase nula a carga afetiva, os apelos emocionais, as figuras de linguagem (duplo sentido, metáfora, hipérboles, ironias etc). Por esses motivos que obedecem à uma função referencial da linguagem, ou seja, é essencialmente uma manifestação denotativa. Objetiva e direta, portanto. E podemos ir além, dizendo que, já que não trazem no seu bojo sentimentos pessoais e opiniões, fogem totalmente do senso comum. Senso comum nada mais é que a opinião particular e popular (a conversa - se assim podemos dizer - da feira, do bar, com os vizinhos), sem fundamento científico. Seja ele lógico-racional ou empírico (de experimentos observáveis). Podemos matizar essas diferenças com dois exemplos:
a)
"Ele faz é bem; mesmo se o médico chegasse a falar, eu usaria. Se eu tivesse certeza que algum remédio caseiro ia ajudar, eu usaria; teve uma vez que um médico disse que eu não devia tomar garrafada e uns chás porque podia fazer mal, mas eu não parei e melhorei meu problema de bronquite sim."
SIQUEIRA, Karina Machado et alli. "Crenças populares referentes à saúde: apropriação de saberes sócio-culturais". http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072006000100008
b)
Os efeitos terapêuticos e tóxicos das plantas são conhecidos desde as épocas mais remotas, sendo um capítulo importante da Toxicologia. Atualmente muitas pesquisas são realizadas buscando conhecer os princípios ativos das plantas para fins terapêuticos. Muitas dessas plantas podem determinar quadros tóxicos a depender da quantidade, parte da planta utilizada, forma do contato, cutâneo ou ingestão, dentre outros fatores. No Estado da Bahia, foi registrado no período 1997-1999, 336 envenenamentos por plantas, representando apenas 2,35 % do total de casos, com 2 óbitos, causados por Nerium oleander (espirradeira), largamente encontrada nos jardins de residências, e Manihot utilíssima (mandioca-brava), também muito comum em nossa região. As crianças de até 9 anos foram as maiores vítimas - 54,43%. Em 2006 registrou 185 casos, representando 2,8% dos casos (RODRIGUÊS, et al.,2009, p. 42).
COSTA, Tatiane Oliveira; ALMEIDA, Obertal da Silva. "O conhecimento popular e o risco de intoxicação por ervas medicinais": https://www.efdeportes.com/efd194/o-risco-de-intoxicacao-por-ervas-medicinais.htm
Como se vê, são textos bastantes diferentes. O primeiro (a) é um relato de uma pessoa feita para uma pesquisa. E, conforme observamos, patenteia-se uma linguagem oral e em tom de conversa, com opiniões bem próprias, que carecem de base científicas. Já o segundo (b) busca uma informação mais precisa, pois cita dados estatísticos além de bibliografia, ou seja, orienta-se em outros estudos. É, portanto, um artigo científico, cuja objetividade, clareza, documentação e isenção são fundamentais. Assim, em nenhum momento o discurso deverá estar em primeira pessoa. Bem diferente aliás do texto (a), no qual se observa: "eu usaria...", "se eu...", "eu não devia...", "eu não parei...", "meu problema...". Concluindo: o texto (a) tem como base o senso comum e o (b) o método científico.
Apesar de serem rigorosas, as questões científicas nem sempre são eternas, pois podem haver outros estudos que mudem os rumos do pensamento até então em vigor. Tanto o é que o tratamento fitoterápico (por plantas), ainda que com restrições, já é admitido por conselhos de medicina, pois alguns trabalhos alegam que facilitaria ao atendimento, com alguma eficácia, de camadas mais carentes da população. E, diante disso, fez-se estudos também com a população que usa esses medicamentos fitoterápicos, justamente para mapear a classe econômica, a escolaridade e os objetivos de quem os usa. E mais uma vez temos uma linguagem isenta. Confira um:
c)
"Verificou-se neste estudo que 96% dos entrevistados escolheram plantas medicinais como a principal terapia entre os remédios caseiros. Neste sentido, dados da OMS informam que, na busca pelo bem estar e qualidade de vida, as plantas medicinais tornaram-se uma alternativa pela sua credibilidade terapêutica e baixo custo."
ZENI, Ana Lúcia Bertarello et al. "Utilização de plantas medicinais como remédio caseiro na Atenção Primária em Blumenau, Santa Catarina, Brasil": https://www.scielosp.org/article/csc/2017.v22n8/2703-2712/
Como se verifica, este texto vai investigar dados da população que usa plantas medicinais. É comum no universo acadêmico surgirem pesquisas em cima de outras. Mas o que importa para nosso estudo é o tratamento linguístico dado ao texto. Por isso, observem logo no início do fragmento (isso é de suma importância). É utilizado o verbo "verificar" na terceira pessoa do singular com a partícula "se": "verifica-se" E o que significa isso? Significa que essa maneira de usar o verbo indica uma imparcialidade, pois fala-se em nome de uma pesquisa. Os dados são mais importantes que a opinião. O autor confere assim um gesto de "afastento". A pesquisa, nesse sentido, diz mais que a pessoa, mesmo que tenha sido feita por pessoas. O que, naturalmente, traz um ar de "humildade", de discrição. A entidade, a instituição, a ciência diz por si próprio.
Dessa maneira, a terceira pessoa do singular, combinada com o índice de indeterminação do sujeito "se", deixa a oração sem sujeito, neutralizando, desse modo, uma eventual opinião própria. Conforme esses exemplos:
Estuda-se muito o corona vírus hoje em dia.
Fala-se que muitas pessoas foram curadas.
Comenta-se em universidades questões de bioética.
Namora-se muito no verão.
Ora, está bem claro que há uma "indeterminação" do ser que "estuda", "fala", "comenta" e "namora". Por isso a partícula "se", sempre aliada ao verbo na terceira pessoa do singular, dará indeterminação ao sujeito. Este é um dos casos (excessões) no qual a oração é sem sujeito, porque ele não aparece materialmente na oração. Lembrando que quando dizemos "materialmente" estamos queremos dizer sintaticamente, formalmente.
É importante não confundir estas frases com esta outra: "Vendem-se casas". Aqui o sujeito está expresso. É o termo "casas". Ao colocarmos em outra ordem, fica mais explícito: Casas vendem-se. Então, a partícula "se", neste último exemplo, é um pronome reflexivo. E a frase está na voz passiva sintética, ou seja, uma ação que sai e retorna ao próprio ser, como em "Vesti-me com pressa". (Em outra oportunidade estudaremos isso com mais calma.)
Outra possibilidade de dar impessoalidade ao discurso, deixando o autor (ou autores) em posição mais modesta que o próprio texto (que se corporifica numa verdadeira entidade) é o uso da primeira pessoa do plural: "[Nós] pesquisamos o assunto", por exemplo. Vejamos:
Nesta pesquisa, verificamos as causas do problema ecológico no Brasil.
O propósito neste trabalho é encontramos soluções para o tratamento da dependência química.
Mas essa forma, de usar o verbo com impessoalidade, não se resume a trabalhos científicos, pois é também encontrada de maneira mais ampla, quando não há identificação do sujeito na estrutura da frase:
Aplaudiram o jogador quando entrou em campo.
Roubaram meu carro.
Nesses exemplos também temos uma oração sem sujeito, já que não se determina sintaticamente quem o é. Evidentemete que podemos supô-lo através do sentido como em "Aplaudiram o jogador...", mas ele, o sujeito, não se presentifica na estrutura da oração, tal como verificamos com os exemplos da partícula "se" como índice de indeterminação do sujeito.
Vale lembrar ainda que a leitura dessas frases como sujeito indeterminado vai depender do contexto. Pois pode tratar-se de um sujeito oculto ou desinencial quando a situação é mais clara como em:
Como os alunos estão doentes, faltaram a aula.
É evidente que o sujeito (oculto mas representado pela desinência verbal "faltarAM") é "alunos".
Pois bem. Há uma preferência em trabalhos formais, ou melhor, acadêmicos em utilizar-se a terceira do singular com "se", mas a outra via ("estudamos", por exemplo) também é possível.
Com isso, chegamos às seguintes conclusões:
- o texto objetivo usa uma linguagem isenta;
- são textos que se sobrepõem a autoria (que, apesar da importância, permanece em postura modesta);
- englobam textos científicos, relatórios, textos jurídicos etc;
- são textos com a variante formal/culta/exemplar da língua;
- referem-se a instituições, órgãos etc, colocando-os como vozes superiores e destacando-os na terceira pessoa.
- expressam-se pelo uso da 3a pessoa do singular com o índice de indeterminação "se" ou pela 1a pessoa do plural, formando orações sem sujeito; e
- são textos bastante padronizados.
Enfim, podemos encontrar discursos com gradações entre pessoalidade e informalidade. Os ensaios (tipos de textos acadêmicos mais livres) podem nos dar bons exemplos. Aliás, por mais que haja protocolos de escritas oficiais, nunca se elimina de vez o estilo pessoal. Claro que obedecendo a certos limites, caso contrário há o risco de se fugir completamente ao contexto e ficar deslocado do meio que se está utilizando para comunicar algo.
Aliás, fica a pergunta, que pode ser até estranha, mas pertinente: o texto literário, por mais que tenha mais liberdade estilística (pessoal), também não se serve a certas convenções? O uso de metáforas, de imagens, de sonoridades. Por isso, o que faz de um texto literário de boa qualidade é a fuga de imagens já cristalizadas, ou seja, pré-concebidas e desgastadas pelo tempo. Sim, se for bom, é evidente que a liberdade é infinita. Liberdade, ressaltamos, que tende, por sua própria natureza, ser maior do que uma tese científica ou um tratado de medicina, por exemplo. Mas nestes últimos, mesmo havendo limitações convencionais, a boa instrumentalização da língua e um estilo próprio e elegante pode, além de trazer clareza, dar prazer na leitura, por mais que o tema seja árido.
Prof. Ivonilton G de Souza