terça-feira, 23 de junho de 2020

Coesão referencial



Todo texto envolve uma estrutura. Essas estruturas devem estar conectadas, pois uma parte leva a outra. Os conectores são responsáveis por essas "costuras" da construção textual. São palavras que, ajudando no sentido do texto, ligam as frases, orações e até parágrafos: mas, portanto, e, assim, por isso, desse modo etc. Ajudam também no equilíbrio desse tecido estrutural (trazendo economia de linguagem e elegância ao texto), palavras que fazem referências a outras palavras ou a partes do discurso já pronunciadas ou a ser pronunciadas. Esse grupo de palavras fazem a coesão referencial.

Coesão porque trazem unidade ao discurso, referencial porque, como o próprio nome diz, fazem referências a partes do discurso. Usamos intuitiva ou conscientemente todos os dias. Seja em discurso oral (falado), ou em discurso escrito. Vale lembrar que o discurso escrito é sempre mais bem planejado do que o oral. Por isso,  o bom uso desses elementos de coesão se faz importantíssimo. Até mesmo para evitar ruídos de comunicação, ou seja, mal-entendidos.

Veja este exemplo de um texto com FALHAS na sua coesão:

"João comprou um carro. O carro de João quebrou. João levou o carro para o mecânico. O mecânico consertou o carro de João. Já funcionando bem o carro, João fez uma bela viajem com o carro. A bela viajem deixou João feliz."

Então. O que acharam? Evidentemete que não parece ser um texto bem escrito. Como poderíamos melhorá-lo?

Uma das respostas está no uso de elementos coesivos referenciais. Pois bem. Veja como fica agora:

"João comprou um carro, QUE quebrou. ELE levou-O para o mecânico. O HOMEM consertou seu AUTOMÓVEL. Já funcionando bem [...], [...] fez uma bela viajem [...]. ISSO o deixou feliz."

O texto agora não mudou bastante? Não está mais elegante e coeso?

As partes que destaquei são os conectores referenciais, responsáveis pela coesão, unidade e sentido do texto (e os colchetes veremos depois). Assim temos:

"João comprou um carro, QUE quebrou."

O "QUE" é um pronome relativo. Se refere a "carro" da oração anterior. Desdobrando ficaria: "João comprou um carro. O carro quebrou". Assim evita-se a repetição desnecessária da palavra "carro". É o mesmo que veremos a seguir:

"ELE levou-O para o mecânico."

Ora, fica bem claro que "ELE" (pronome pessoal do caso reto) só pode se referir a  "João". E o "O" destacado depois do verbo "levou" é também um pronome pessoal (mas não mais do caso reto, mas oblíquo, porque se segue ao verbo como seu complemento). É um pronome que substitui a palavra "carro". Nesta frase, então, evita-se duas repetições enfadonhas.

Mas veremos que a coesão referencial nem sempre se dá com pronomes. Pode se dar por sinônimos ou palavras próximas também. É o nosso exemplo seguinte:

"O HOMEM consertou seu AUTOMÓVEL."

Ora, "HOMEM" está por "mecânico" e "AUTOMÓVEL" está por "carro".

E quase não percebemos, mas "seu" (pronome possessivo) está por "automóvel DE JOÃO".

Vejamos mais um caso de coesão referencial. Quando as palavras chaves já foram mencionadas no texto, podemos até omiti-las, sem precisarmos nos socorrer de nenhuma outra, como se observa nos colchetes pontilhados:

"Já funcionando bem [...], [...] fez uma bela viajem."

Já funcionando bem o quê? O carro, evidentemente. Quem fez uma bela viajem? João. Essas perguntas são tão simples que evidenciam a desnecessidade de colocar esses termos nas orações apontadas. É uma informação que já foi dada no texto. Por isso não há necessidade de repetir tais termos. Assim, quando o sentido já está dado,  seria um desperdício de energia repetir tais termos novamente. Isso (para ficar só neste exemplo) é o que muitos estudiosos da língua chamam de economia linguística. Auxilia ainda o verbo fazer na 3a pessoa do singular: "[Ele] fez". E o contexto explicita uma eventual dúvida, pois "ele" só pode ser o João.

Por fim, temos no final o termo ISSO (pronome demonstrativo). Este pronome está retomando, fazendo referência à oração anterior: "... fez uma bela viajem". Desse modo os pronomes demostrativos podem apontar não só um termo mas uma oração, uma frase, ou até mesmo um parágrafo anteriormente expresso. Veja no nosso exemplo:

"Já funcionando bem, fez uma bela viajem. ISSO o deixou feliz."

Pode também apontar algo que vem à frente como em:

"Para vencer na vida faça ISTO: se dedique aos estudos."

Assim, se há uma referência a algo anterior temos uma ANÁFORA. Se for algo posterior haverá uma CATÁFORA.

Portanto, no exemplo do texto de João temos uma anáfora; e neste último, uma catáfora.


Concluindo, a coesão referencial nos ajuda a construir um texto com mais elegância e, se bem usada, coerência. Atende a dinâmica da língua, sua concisão e equilíbrio. No discurso oral expontâneo, as repetições de palavras são mais comuns do que no discurso escrito, além de ser uma linguagem mais fragmentada com mais lapsos e descontínua. Já o discurso escrito exige mais reflexão, "enxugamento" dos termos, precisão. Enfim, é bem mais elaborado, o que faz do bom uso das conexões uma peça fundamental para a arte  escrever.

Em outra aula veremos que podemos, com auxílio de conjunções e conectores, melhorar ainda mais este e outros textos.

Ivonilton G de Souza



terça-feira, 9 de junho de 2020


Figuras de Linguagem (antítese, paradoxo, metáfora, comparação)


Quando queremos expressar algo de uma maneira que crie mais impacto, ou dê um realce significativo ao que queremos dizer, usamos a figura de linguagem, muito utilizada nos textos conotativos, por isso é também muito trabalhada pelos escritores de literatura, sobretudo os poetas. Vamos ver algumas:

- Antítese
Consitse em colocar pares opositivos no texto. Ex.: Grande/pequeno; alto/ baixo; feliz/ triste. Muito comum na literatura Barroca, pois revela a tensão dos opostos em que viviam os poetas, como em:

"Nasce o Sol e não dura mais que um dia:
Depois da Luz, se segue a noite escura;
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria."

(Gregório de Matos, "A inconstância das cousas do mundo", fragmento)

- Paradoxo
Nesta figura, também há oposição de ideias. Mas neste caso a oposição se dá num mesmo ser, criando uma contradição como se disséssemos que o gelo arde mas é frio ao mesmo tempo. Assim, o calor e o frio pertencem ao mesmo ser. No barroco também há muitos paradoxos. Por isso muitos dizem que Camões já produzia algumas obras não do estilo do Classicismo, mas do barroco (principalmente nas peças líricas), pois este poema dele é repleto de paradoxos. Veja-o:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer."

 (Luis de Camões, fragmento)

- Metáfora.
É a figura de linguagem literária por excelência. Num sentido amplo pode englobar as outras. Por isso é comum escutarmos, de uma maneira geral, "a obra literária tem uma grande metáfora", ou "esse quadro metaforiza a dor humana". Em sentido específico tem suas características próprias. É uma comparação que fazemos de uma coisa a outra de maneira mais direta e imediata. Seria como se falássemos: o mel dos seus lábios (os lábios são doces como o mel). Observemos no olhar de uma poeta:

"Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!"

(Cecília Meireles, "Coração de Pedra", fragmento)

Como se vê o coração é "de pedra" porque o eu lírico está sofrendo, mas antes era clamo e livre, por isso era de "asas" , ou " de lágrimas", representando o estado de tristeza, e passou a ser de "sílex", por isso pode o eu lírico ter uma inconstância e fragilidade nos seus sentimentos.

- Comparação
Consiste em comparar duas ou mais coisas devido a características contíguas, próximas, para realçar a ideia. Se na metáfora a comparação é mais imediata, sintética, na comparação ela é madiada, analógica. É muito comum escutarmos comparações no nosso dia a dia como "ele é duro como uma pedra", "fulano fala como uma matraca" etc. Padre Vieira era mestre nesse estilo. Vejamos algumas dele no Sermão da Sexagésima:

"O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum."

(Padre Antônio Vieira, "Sermão da Sexagésima", fragmento)

Concluindo, as figuras de linguagem são um recurso que podemos utilizar para realçar nosso pensamento, dar um matiz diferente (nos apropriando de imagens) para estilizar nosso texto. Há algumas figuras de linguagem já desgastadas pelo tempo, que caíram no uso comum, como nos ditos populares (por exemplo, "Água mole e pedra dura / tanto bate até que fura"). Assim, a poesia autêntica reside em a figuras de linguem extremamente trabalhadas, imaginativas e originais, criando, portanto, um universo único (fora do senso comum) e brilhante.

Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 20 de maio de 2020



O BARROCO


Barroco (contexto da época)

Para entendermos o Barroco, primeiro temos que passar pelo Classicismo. Isto porque sem este não haveria aquele. O Barroco é um prolongamento de um Classicismo já exaurido na época. Bem, vamos logo ao que interessa.

O Classicismo representou o final da Idade Média. E o que foi a Idade Média? A Idade Média foi a época em que a Europa foi dominada pelos Árabes, pelos Bárbaros. E como o medo dessas invasões foram enormes a população se refugiava no feudo, contrução que se assemelhava a uma fortaleza. Assim, o Senhor feudal mantinha enorme influência, talvez até mais que o rei.

Era uma época marcada pela religiosidade, os membros das igrejas eram muito importantes, além de serem responsáveis pela grande parte da educação da época. O misticismo, z bruxaria, as lendas dominavam o imaginário da época. O homem atribuía os eventos naturais (terremotos, epidemias, tempestades) aos desígnios de Deus.

A arte era sacra, a filosofia era a escolástica, as ciências naturais praticamente não existiam.

Mas por volta do século XIV, XV, XVI começa a subir outra classe: a burguesia. Burguês era aquela população que vivia no entorno dos castelos feudais e praticavam o comércio.  Marcadorias provenientes com o comércio com as Índias orientais, o que lhe custavam uma verdadeira aventura para trazê-los. Quem dominava essas rotas comerciais eram alguns centros comerciais na região da Itália: Nápoles e Veneza. Esses produtos eram depois redistribuídos pela europa, aumentando, desse modo, seu valor, já que passava por mais de um entreposto. Isso o fez com que Portugal e Espanha (que conseguiam sua união nacional, outro aspécto da época) para quebrar esse monopólio comercial se lançassem aos mares em descoberta de outras rotas, evitando assim de terem que comprar esses produtos com a Itália.

Resumindo. O pensamento no Renascimento era humanista, ou seja, antropocêntrico. O homem passa a ser o centro das coisas. Com o avanços dos comerciantes burgueses, a ciência passa a ter cada vez mais valor e há grandes descobertas e invenções. Os estados começam a centralizar na figura do rei (Absolutismo), de modo que o Rei passou a ter poderes fortes, como se representasse Deus na terra. Tudo isso vai influenciar as artes como veremos no próximo tópico.


Barroco: arte do desequlíbrio

Leonardo Da Vinci. Michelângelo, Rafael, eram os grandes pintores e escultores da época do Classicismo. Se você reparar, vai ver (é só fazer uma rápida consulta no Google) que nas suas pinturas e esculturas é valorizada a representação natural do homem (em geral os temas também eram religiosos, mas sob uma outra perspectiva) com veias músculos, volume, perspectivismo. Há uma super valorização da figura humana. Bem diferente da pintura Medieval, que não tinha volume, perspectiva, as figuras pareciam meio que espiritualizadas. Outro ponto importante é o equilíbrio da arte, a simetria, a composição homogênea de cores. Mas lembro ainda que há quem veja um certo barroquismo em Michelângelo, por exemplo, o que poderia ser, pois sua pintura é repleta de detalhes e um tanto contorcida.

Esses temas humanistas também serão vistos na literatura com equilíbrio de forma, simetrismo, deuses pagãos. Entre os escritores clássicos temos Camões (Portugal) que se influenciou muito em Petrarca (Itália).

Pois bem. Mas o que aconteceu depois?

Houve uma reação da Igreja Católica, que estava perdendo espaço para os avanços científicos, parte dos fiéis corria o risco de se afastar. Além disso, Martim Lutero havia rompido com a Igreja Católica e fundado o Protestantismo. (Os evangélicos que vimos hoje em dia derivam dessa época.) Assim a Igreja, que sofria mais um baque, se viu forçada a reagir. Pôs em prática a Contra-Reforma, que questionava, ou melhor, perseguia violentamente quem não fosse católico, entre eles cientistas, filósofos e os próprios reformistas protestantes, que a essa altura, já avançavam pela Europa. É nesse contexto que tivemos aqui as missões jesuíticas para catequistas os hereges.

Pronto, estava lançada a semente para haver uma modificação na arte. Mas essa modificação é muito sutil, não se dá de forma abrupta, radical. Muitas vezes Barroco e Classicismo podem se confundir. As fronteiras existem, mas não são tão nítidas. Cabe, principalmente, a um olhar atento para notá-las.

De qualquer forma, o que se sobressalta é que sob o influxo, sob a tensão entre ciência e religião é que o Barroco vai realizar suas produções artísticas, tendo como março o universo das artes plásticas e migrando para a literatura.  Neste contexto polarizado entre céu e terra, vida mundana e vida pura, religião e ciência, prazeres da terra ou abstenção dos prazeres, amor carnal e amor eterno, materialismo e espiritualidade, enfim, em toda essa duplicidade o Barroco vai produzir uma arte instável, dividida, angustiada. Essa instabilidade, está angústia, essa dúvida entre o céu e a terra, entre pecar ou não pecar, esse martírio faz do Barroco uma arte estilisticamente cheia de contrastes. Contraste entre o claro e o escuro, contraste nas formas, no equilíbrio do quadro ou do poema. São obras que, vê-se claramente, que não têm mais o pé unicamente na razão, no equilíbrio, na sobriedade e pureza das formas. Por isso é cheio de detalhes, é pesado, é angustiante. A mesma angústia dos tempos em que o homem de 1600 vivia: dividido, bipartido. No próximo tópico veremos isso mais de perto. Mas creio que seja necessário iniciarmos algumas questões de estilísticas primeiro.


Barroco: Gregório de Matos


O Barroco brasileiro dentro da literatura (depois falaremos das artes plásticas) surgiu nesse contexto que vimos no tópico anterior: entre os ideais clássicos e os ideais da Igreja. Num conflito entre a razão e a espiritualidade, entre a terra e o céu; entre os prazeres da carne e a sublimação do espírito. Todos esses conflitos vão ser transfigurados em figuras de linguagem nos poemas. Desse modo, o estilo da escola barroca é cheio de antíteses, paradoxos, inversões sintáticas, preciosismos de linguagens  (rebuscamento), figuras sonoras, metonímias, colorações e sonoridades. É um estilo que não é claro e linear, pois traz toda a agonia do tempo, da salvação e do pecado. Muito se discutiu se o Barroco não era um Classicismo. Mas, devido a esse estilo conflitante - apesar de ainda trazer aspectos do Classicismo -, chegou-se a conclusão de que estávamos diante de outra escola, de um estilo de época não tão límpido,  sereno e claro  quanto do mundo clássico.


Um de seus principais escritores foi Gregório de Matos Guerra, apelidado de Boca de Inferno. Isso porque além das poesias amorosas e religiosas, cultuava também a poesia satírica, colocando na mira comerciantes desonestos, nobres e até os negros e mulatos da Bahia, cidade onde nasceu em 1633, seguindo para Portugal onde se formou em Direito. Mas volta para o Brasil. Retorna em 1680 de novo a Portugal, mas arruma problemas e vem para o Brasil e se casa. Mas não satisfeito colhe muitos desafetos, talvez devido às suas sátiras e é obrigado a se exilar em Angola. No final da vida retorna a Recife em 1695. Morre um ano depois. Com isso fica claro o porquê do apelido. Ele não poupava ninguém, mas por outro lado, nas suas poesias religiosas, parecia se redimir disso tudo e sentia o peso do poder punitivo de Deus. O que, em contrapartida, não o impedia de descer ao mundo do sensualismo amoroso em algumas de suas belas poesias. Assim, de certa forma, sua personalidade se coaduna com o espírito inquieto do tempo, tendo ele levado uma vida mais intensa, impetuosa e talvez até ser mais debochado que outros poetas.

Mas antes desse lado satírico, vamos ver mais de perto uma de suas poesias que traz um refinamento mais filosófico e conceitual (há textos barrocos que são conceptistas, ou seja, trabalha com conceitos). Ei-la:

À inconstância das cousas do Mundo


Nasce o Sol e não dura mais que um dia:
Depois da luz, se segue a noite escura;
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto, da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz falta a firmeza;
Na formosura não se dê constância:
E na alegria sinta-se a tristeza.

Começa o mundo, enfim, pela ignorância;
E tem qualquer dos bens por natureza,
A firmeza somente na inconstância.


Vamos agora colocar uma lupa e analisar mais de perto este belíssimo texto. Talvez vocês já tenham escutado o termo "Carpe Diem", que literalmente significa "curta o dia" em latim clássico . Há vários jovens que hoje em dia andam com essas camisas pela cidade. Traz na acepção moderna um sentido de otimismo, de alegria de viver intensamente o dia, de prazer. Mas nem sempre foi assim. Esse termo na Roma antiga, por volta do século III, tinha um sentido negativo. O real sentido de se viver o dia era porque a vida é breve, passa rápido e logo a morte estará batendo a nossas portas. Curta o momento, porque não pode haver o amanhã, o que, evidentemente, pode trazer muita angústia. É nesse sentido que se enquadra o soneto de Gregório, já que "Nasce o Sol e não dura mais que um dia". Sol aí está representando a passagem rápida das coisas, da vida. E acaba se questionando, melancolicamente, sobre a luz, que é tão formosa, "por que não dura?/ Como a beleza assim se transfigura?". Ou seja, como uma coisa pode mudar tão rapidamente de estado? É, sem dúvida, uma pergunta existencial. O que nos leva a refletir sobre um pensador grego, Heráclito, que dizia que "Ninguém entra no mesmo rio duas vezes". Não entra porque tudo muda, tudo é devir, o rio muda e você muda a todo instante. Nada é eterno. É nesse sentido que esta poesia é conceptistas, conceitual, pois trabalha com a ideia do passar do tempo, pois temos "A firmeza somente na inconstância".

Inconstância essa que está bem representada nas suas figuras de linguagem, nas suas antíteses e paradoxos. Explicando. Antítese é a figura de linguagem que realça as oposições de ideias (tese e anti-tese). Assim temos no decorrer do poema várias delas, bem ao gosto Barroco: Luz / noite escura; tristezas / alegrias; acaba o Sol / nascia. Esses pares opositivos que vão sublinhar o gosto barroco, o desequilíbrio, a tensão existencial. E o poeta arremata com um paradoxo (figura de linguagem que coloca dois opostos num mesmo ser), como se disséssemos que a neve é fria e quente ao mesmo tempo. O paradoxo está sempre a desafiar a lógica e nos imputar um absurdo insolúvel, deixando-nos somente com o fluir da imaginação numa tangente intocável. Veja o último verso: "A firmeza somente na inconstância". Como pode algo ser firme, mas inconstante? Na poesia, fruto da imaginação, tudo se torna possível, pois nos leva aos caminhos mais insondáveis da alma. E se é uma alma barroca, o labirinto é mais cheio de mistérios e detalhes.


Passando para outro poema de Gregório de Matos, vamos ver que ele também trazia um sentimento de culpa. Como se fosse a culpa de Adão de não ter respeitado às regras de Deus. Culpa que carrega durante sua vida um tanto depravada, como nos indica suas várias deportações (ser expulso da Europa e do Brasil). Aliás, essa culpa não é só dele, mas do espírito da época, quando a Santa  Inquisição da Igreja Católica perseguia os hereges (pecadores, homossexuais, quem era de outras religiões, bruxas, cientistas etc.). Mas é em Gregório e sua vida que isso melhor se exemplifica. Ele pede clemência ao Senhor diante de tanto desvairios, como se vê:

Soneto a Nosso Senhor

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tem a perdoar mais empenhado.

Se basta a voz irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história.

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Recobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


Aqui está presente também as antíteses "Porque quanto mais tenho DELINQUIDO / Vos tem a PERDOAR mais empenhado".  Há nesses versos também uma inversão sintática, indicando uma sintaxe tortuosa, pois na ordem exata seria: Vos tem mais empenhado a perdoar. Como se vê a própria estrutura do soneto traz essa marca de sofrimento, de falta de clareza, com um vocabulário rebuscado e difícil, apesar de estarmos vendo um soneto de um português antigo. Por fim, as alusões a Bíblia ("Como afirmamos na sacra história") são comuns nos textos barrocos,  devido a um recrudescimento da Igreja. O que fica ainda de clássico (pois, como vimos o Barroco mantém muita coisa do Classicismo) é a forma do soneto, com dez sílabas métricas neste caso. Lembrando que o soneto é uma forma que vem da Itália, muito usada pelo poeta clássico Petrarca. Há, neste tipo de composição, 14 versos divididos em 4 estrofes (dois quartetos e dois tercetos finais). Essa forma clássica no Barroco é acompanhada com outra temática (religiosa, apesar de haver também deuses pagãos) e com uma linguagem mais truncada, burilada, artificiosa, com antíteses e inversões, como vimos.


Bem. Mas nem tudo em Gregório é só tristeza e sofrimento. Talvez ainda aqui haja esses aspectos, mas ele consegue, através da ironia, da piada, da sátira, contornar um imediato pessimismo e criar o grotesco e o riso. Enfim, a crítica social. Antes de qualquer explicação,  vamos ver um dessas suas peças satíricas primeiro.

Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha:
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro!

Em cada porta um bem freqüente olheiro
Que a vida do vizinho e da vizinha,
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés aos homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados:
Todos os que não furtam, muito pobres:
 Eis aqui a cidade da Bahia.


Então? O que acharam? Em alguma parte não faz nos lembrar nossos dias?  Não há algo de universal, mesmo que esteja datado o poema naqueles seiscentos da Bahia? Não fala sobre a ambição dos poderosos? E não há sempre, em todas as épocas quem ambiciona por poder e fortuna? Por isso, talvez, o poema tenha esse caráter universal, de estar em todos os lugares, mesmo que seja restrito a um lugar só. A Bahia de sua época. Explorada pela corte portuguesa. É bom lembrar que nessa época Portugal havia perdido o monopólio de comércio com as Índias Orientais. O açucar, cultivado no nordeste brasileiro, sofria concorrência das colônias inglesas. Então a corte portuguesa começou a sobretaxar, cobrar impostos dos colonos. E a crise se instalou no Brasil. É bem provavel que muitas dessas circunstâncias tenham impelido a sátira do nosso poeta. Sátira repleta de malidicência:

"A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha:
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro!"

Mas Gregório não tem só como alvo os governantes. Vivíamos numa época de escravidão. E ser mulato (mistura de português com negro) era sinal de baixa classe social e assim deveria se portar, por isso vai criticar:

"Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés aos homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia."

E termina dizendo que há muita "usura nos mercados", ou seja, ganha-se com juros, aumento dos preços e que quem não rouba continua pobre na sua cidade natal:

"Estupendas usuras nos mercados:
Todos os que não furtam, muito pobres:
 Eis aqui a cidade da Bahia."

Esses e outros deboches de Gregório lhe custaram caro, pois teve que ser deportado de Portugal e do Brasil. Mas, no final das contas, todos ficaram no esquecimento e sua poesia atravessou séculos. Aliás, suas sátiras, que retratam o cotidiano e as mazelas das cidades, continuam muito vivas até hoje.


Por fim, veremos sua lírica amorosa. O que nos reporta ao seu lado material, carnal, sensual, erótico até. Muitas vezes nem poupava palavrões. Mas essa sensualidade, para muitos pesquisadores, aliada às observações da Bahia em suas sátiras (verdadeiras crônicas do seu tempo), já delineiam uma poesia que se afasta, gradativamente de Portugal, desenhando, ainda que de forma incipiente, uma cultura nacional, Brasileira.  Pondo em evidência as características do nosso povo, da nossa cultura e costumes.

De qualquer forma, é um erotismo que se tensiona com os compromissos da fé, que gera conflito e amarguras, que ora se expõe e ora se arrepende. É uma enfervecência que o leva à vida dos prazeres mas ao mesmo tempo à degradação moral. Enfim:

À mesma D. Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.


De imediato percebemos o trocadilho com o nome Angélica e Anjo. Mas o que está por trás disso? Representam as duas faces da mesma moeda: a espiritualidade e a tentação da carne, pois:

"Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda."

Desse modo, o par Angélica/Anjo representa um paradoxo. Ao mesmo tempo que inspira a pureza ("Anjo no nome"), inspira sensualidade (Angélica na cara"). É um Anjo dos "altares", como diz no nono verso, que está a altura da beleza espiritual, mas também física.

Para fechar o comentário, lembramos que Platão colocava o conhecimento em duas esferas: o mundo das ideias (que seria a essência, a razão, o verdadeiro, a perfeição, o eterno, por isso, dê certo modo, espiritual) e o mundo da cópia das ideias, (que seria o mundo que vemos com os sentidos, enganoso, onde tudo muda, nada é eterno; tudo é imperfeição, cópia). Há ainda também o mundo da representação da cópia, da arte (seria a cópia da cópia, por isso seria mais imperfeito do que o mundo sensível, dos sentidos). Todos esses conceitos Gregório conhecia, pois era doutor e era assunto muito estudado na época. Assim não me arriscaria a dizer que Anjo seria o mundo das idéias, sublime; Angélica, o mundo dos sentidos imediatos (ver, tocar, ouvir) e sua poesia, sendo cópia da cópia (mera representação) tentaria chegar ao supremo belo - ambição de qualquer poeta - utilizando-se do par Anjo/Angélica com ideal de beleza, seja espiritual (em forma de ideia, conteúdo, significado) ou esteticamente (em forma de estrutura, plasticidade, significante). Enfim, essa dualidade, usada pelo poeta fica mais evidente nestes primeiros versos de um outro soneto lírico, que dá continuidade ao seu êxtase a Ângela:


Retrata o autor à D. Ângela

Debuxo singular, bela pintura,
Adonde a Arte hoje imita a Natureza,
A quem emprestou cores a Beleza,
A quem infundiu alma a Formosura.
(...)

De maneira mais explícita aqui, a Arte entra como fator surpresa e fundamental. Pois a Arte é capaz de dar alma, de vivificar, de emprestar cores, num movimento à Natureza, e também, junto com a Formosura, de ceder alma, conforme  o verso "A quem infundiu alma a Formosura". Em ordem direta: a Formosura infundiu alma... a Natureza".  Assim, a arte, que seria a cópia da Natureza (que por sua vez é cópia do belo eterno, do mundo ideal) tem seu protagonismo como criadora e reveladora autêntica, almejando a perfeição da forma no retato que faz de Ângela, invertendo todo pensamento platônico. E, consequentemente, no final do poema, nos colocar, ludicamente, num jogo de espelhos, num duelo entre a verdade e a aparência:

"Pois, ou bem sem engano, ou bem fingida;
No rigor da verdade, estás pintada,
No rigor da aparência, estás com vida."

Ivonilton G de Souza





quinta-feira, 16 de abril de 2020

Gêneros literários clássicos


Gênero literário é toda escritura que se agrupa com as mesmas características estruturais e, de certa forma, temática e estilística. O primeiro a perceber isso foi um rapaz chamado Aristóteles. Aliás, seria simplificá-lo demais, chamando-o somente de rapaz. Foi o filósofo mais importante que tivemos. Na época chegou até a ser tutor do Alexandre o Grande, imperador da Macedônia. Era grego (século V a.C.),  discípulo de Platão, outro "monstro" (no bom sentido) da filosofia. Aristóteles era um grande observador da natureza, da linguagem, e da ética. Isso fez com que ele organizasse e classificasse esse material todo. Assim, ao estudar as formas literárias, num livro chamado "Poética", vai chegar à conclusão de que há três gêneros literários, que hoje em dia chamamos de gêneros clássicos, já que muita coisa mudou nesses mais de 2000 anos! Mudou mas de certa forma a essência ainda é a mesma, o que vamos ver depois.

Vamos começar mais ou menos assim. Vocês conhecem aquela música do Legião Urbana "Faroeste e Caboclo"? Se não, vai lá no Youtube que tem. É uma música de 10 minutos!!! que narra a história de um jovem que vai à Brasília, se apaixona, mas acaba se envolvendo com coisas erradas e no final morre num duelo com o bandido maior. E é revelado pelo narrador que João de Santo Cristo, o nosso herói (ou anti-herói), só queria falar com o presidente "para ajudar toda essa gente que só faz sofrer". E assim termina a longa canção. Bem, essa música, ao meu modo de ver, pode ser considerada épica, porque narra algo grandioso, a saga da vida de João de Santo Criso. E ainda: a vida desse personagem pode se fazer valer, pode representar milhões de brasileiros, pode, portanto, representar nosso povo.

Assim, para Aristóteles, naqueles tempos, épico era um grande acontecimento, a saga de um povo, o qual o herói representava. Tirou esse modelo de Ilíada e Odisseia, que contam a história, as guerras e as conquistas do povo grego. Esses poemas enormes eram tradições orais (passadas de geração a geração) e tinham também um fundo educativo, já que noções de história, de  cultura e de ética eram aprendidas ali. Mas um poeta chamado Homero resolveu colocar tudo no papel, ou pergaminho, ou couro (confesso que não sei qual material, o que daria, aliás, um bom motivo para pesquisa). Enfim, Homero escreveu e se tornaram uns dos primeiros documentos redigidos da história ocidental. O poema épico está também sempre voltado à terceira pessoa. Ou seja, ao "ele". "Ele viajou", "ele guerreou", "ele foi seduzido por uma deusa". Há outros poemas épicos posteriores. Em língua portuguesa temos o poeta Camões (século XV), que conta  a formação de Portugal e sua aventura ultramarina, "descobrindo" e conquistando outros continentes.

Passemos então ao gênero lírico. Mas é vocês que vão dar o tom da conversa agora, avaliando esse poema:

"MEUS OITO ANOS

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!"

(Casimiro de Abreu)

Então? O que acharam? Por favor, postem seus comentários. É um poema belo! Da geração romântica brasileira, meados do séc. XIX. A geração romântica sempre foi muito lírica, apesar de sempre ter havido lirismo em qualquer época (às vezes mais, às vezes menos). Tanto o é que assim Aristóteles observou, em seu tempo, que havia poesias que eram mais cantadas, mais suaves, que tinham um estilo mais pessoal e subjetivo, que diziam coisas mais da alma, dos sentimentos, como o amor, por exemplo. Acrescenta-se que tem esse termo lírico por causa de um instrumento musical de cordas grego, a lira.

Nesse poema Casimiro põe seus sentimentos de saudade de uma infância maravilhosa, acompanhados com elementos idílicos da natureza. Aliás, no romantismo a natureza sempre reflete os sentimentos dos poetas. É um poema voltado para dentro. Vejamos: "... que saudades (eu) tenho da aurora da MINHA vida...". Como se vê, o EU (1a pessoa do sujeito) está sempre presente, por isso é lírico, já que é a exacerbação da interioridade. Assim o lirismo é comum em poemas de amor (Vinícius de Morais, por exemplo), de medo, de angústia, de saudade, de busca do próprio ser, de espiritualidade. É subjetivo, é melódico, é centrado, repito, no eu.

Está cansado, colega. Não desista não e se prepare, porque é agora que as coisas começam a ficar tensas, dramáticas. Sim, dramáticas porque este é o último gênero clássico que nos falta para fecharmos.

O gênero dramático tem como característica principal a ação (lembre-se dos diretores de cinema: "luz, câmara, ação..."), conflito entre personagens, tensão. Este gênero se subdivide em dois: comédia e tragédia.


E vamos começar com a tragédia, depois pegamos mais leve. Assim Aristóteles vai dizer:

"A tragédia é a imitação de uma ação elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes, que se serve da ação e não da narração e que, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões [...] Como a tragédia é a imitação de uma ação e é realizada pela atuação de algumas pessoas que, necessariamente, são diferentes no caráter e no pensamento (é através disto que classificamos as ações e é por causa destas ações que todos vencem ou fracassam)."

Essa é uma das definições de tragédia de Aristóteles. Para ele a tragédia era uma obra estética, "linguagem embelezada", que produzia a "catarse". Ou seja, quando, no teatro, ou mesmo vendo novela hoje em dia, nos deparamos com as atitudes humanas más (ou boas até), nos "curamos", nos aliviamos dos nossos próprios males. Seria mais ou menos assim: ao nos deparamos com uma representação dos sentimentos, enxergamos a nós próprios. Lembrando que catarse era um termo que ele tirou da medicina grega, que significava, cura, purificação. O termo tragédia surge de um ritual que cultuava o deus Dionísio (deus pagão da dança, da música, da embriaguez, da desmedida, do desequilíbrio). Mas todo e esse excesso acabava sendo punido pelos deuses. Já que, na tragédia, o desequilíbrio, está na ambição humana, numa tentativa de ser superior, de querer disputar o trono de deus. Isso levará à perdição do personagem, será punido pelos deuses (aí está uma alegoria que fala sobre ética, e o peso da consciência, se assim podemos dizer), através de várias mortes na família, assassinatos mesmo. Por isso, em geral os personagens da tragédia são geralmente nobres ambiciosos. Igual, desculpe a comparação, a alguns políticos e gananciosos por aí. Não é mesmo?

Bem, os representantes maiores são: Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

Chegamos ao final. E como vários filmes trágicos terminam com uma boa risada vamos falar um pouco da comédia. Na comédia o que está mais em foco são os costumes do povo, é como se fosse uma "crônica" do seu dia a dia, utilizando-se da sátira até para falar de assuntos delicados e "zuar" as autoridades, assim como nossos programas de comédia na TV. Em geral os personagens são mais populares e comuns. Seu maior dramaturgo foi Aristófanes. E terninemos com uma frase dele:

"Para as crianças, educação é o mestre-escola; para os jovens é o poeta."

Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 15 de abril de 2020


Texto literário e texto não literário


Numa consulta a um dicionário podemos encontrar, dentre outras, esta definição de pedra:

"Matéria mineral dura e sólida, da natureza das rochas" (Aurélio)

Mas podemos também encontrar, mais adiante, no mesmo verbete do dicionário Aurélio, seu sentido figurado, que assim vem:

"Fig. Meio de avaliar, de aferir: 'A pedra de toque do poder e força de interpretação das realidades (que outra cousa não é o gênio poético, essa pedra de toque é a poesia da natureza)' (Antero de Quental, 'Prosas', 1, p. 378)"

Essas definições de pedra, como já vimos, pertencem às funções da linguagem metalinguística, porque explica a própria palavra; e é também referencial (ou denotativa), porque é pautada num contexto informativo e bem objetivo, sem entrelinhas ou duplo sentido.

Entretanto, a segunda definição traz a marca do sentido figurado. Ou seja, o termo pedra pode servir por analogia e semelhança a um outro sentido que não seja exatamente o dela, o que é bem indicado no dicionário com a abreviatura "fig.". Este sentido, exemplificado pelo autor do dicionário, se aproxima mais do sentido literário, tanto o é que o exemplo citado por Aurélio é de um poeta famoso. Mas o propósito do poeta, nesse contexto, conforme o exemplo citado, não era bem fazer poesia, mas explicar qual a importância, segundo Antero, da "poesia da natureza". E ainda: o termo "pedra de toque" já foi muito utilizado e por várias pessoas, poetas ou não; por isso, não tem mais o "status" de autenticidade, de novidade. É, pois, uma figura de linguagem que já se gramaticalizou, ou seja, não faz mais tanto parte de um repertório literário e artístico (a arte, sabemos disso, sempre trabalha com muita inovação). Esse termo já é corriqueiro, já se "cristalizou".

Pois bem. Agora observe este texto:

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."

Como você enxerga o termo pedra aqui? Seria igual à definição do dicionário? Ou seu sentido passa a ser completamente inédito?

Este texto, de Carlos Drummond de Andrade (em 1930), criou um grande rebuliço no meio literário, o que veremos no momento oportuno. O que vale salientar é que nesta poesia o termo pedra tanto pode adquirir seu sentido literal (o cara estava andando e viu uma pedra); como pode ter um sentido completamente novo, pois a pedra pode significar "algo difícil na vida", "algo inalcançável", "uma dificuldade", "um obstáculo" etc.

Estamos aqui inseridos na função poética (há um trabalho estético no texto, repetição de alguns termos para dar ênfase; inversão para criar um efeito especial, "no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho"), mas estos inseridos também na função emotiva (o autor fala de acontecimentos subjetivos, pertinentes à sua emoção, falando até em "retinas fatigadas").

Porém, o mais importante que temos que ressaltar é que, na poesia, a linguagem é conotativa, ela passa a ter vários sentidos, é polissêmica, no sentido literário do termo. Ou seja, semanticamente ela se desdobra em várias possibilidades de interpretação. Lembrando que Semântica é o estudo dos sentidos e dos significados das palavras e/ou textos.

Por fim, a literatura trabalha com a imaginação, cria outros mundos através do do poder da criatividade tanto do escritor quanto do leitor.

É bom reforçar que o sentido da palavra pedra no dicionário - diferentemente do universo imaginário do poeta e ficcionista - é mais literal, é único, a não ser, como vimos, se o lexicógrafo (quem faz o dicionário) queira indicar também os sentidos figurados. Mas, em geral, o dicionarista só vai colocar sentidos figurados já bem entranhados na memória popular, que já perderam o brilho da originalidade, que já se desgastaram.

É objetivo e denotativo também (por isso não literário) o termo pedra para um geólogo, que, acredito, vai até preferir usar a palavra rocha, conforme a linguagem específica da sua profissão. Da mesma forma para um médico ("pedras nos rins"), que também deve utilizar-se de um termo mais apropriado, isto é, um jargão, uma linguagem técnica. Enfim, por aí vai...

Ivonilton G de Souza