Gêneros literários clássicos
Gênero literário é toda escritura que se agrupa com as mesmas características estruturais e, de certa forma, temática e estilística. O primeiro a perceber isso foi um rapaz chamado Aristóteles. Aliás, seria simplificá-lo demais, chamando-o somente de rapaz. Foi o filósofo mais importante que tivemos. Na época chegou até a ser tutor do Alexandre o Grande, imperador da Macedônia. Era grego (século V a.C.), discípulo de Platão, outro "monstro" (no bom sentido) da filosofia. Aristóteles era um grande observador da natureza, da linguagem, e da ética. Isso fez com que ele organizasse e classificasse esse material todo. Assim, ao estudar as formas literárias, num livro chamado "Poética", vai chegar à conclusão de que há três gêneros literários, que hoje em dia chamamos de gêneros clássicos, já que muita coisa mudou nesses mais de 2000 anos! Mudou mas de certa forma a essência ainda é a mesma, o que vamos ver depois.
Vamos começar mais ou menos assim. Vocês conhecem aquela música do Legião Urbana "Faroeste e Caboclo"? Se não, vai lá no Youtube que tem. É uma música de 10 minutos!!! que narra a história de um jovem que vai à Brasília, se apaixona, mas acaba se envolvendo com coisas erradas e no final morre num duelo com o bandido maior. E é revelado pelo narrador que João de Santo Cristo, o nosso herói (ou anti-herói), só queria falar com o presidente "para ajudar toda essa gente que só faz sofrer". E assim termina a longa canção. Bem, essa música, ao meu modo de ver, pode ser considerada épica, porque narra algo grandioso, a saga da vida de João de Santo Criso. E ainda: a vida desse personagem pode se fazer valer, pode representar milhões de brasileiros, pode, portanto, representar nosso povo.
Assim, para Aristóteles, naqueles tempos, épico era um grande acontecimento, a saga de um povo, o qual o herói representava. Tirou esse modelo de Ilíada e Odisseia, que contam a história, as guerras e as conquistas do povo grego. Esses poemas enormes eram tradições orais (passadas de geração a geração) e tinham também um fundo educativo, já que noções de história, de cultura e de ética eram aprendidas ali. Mas um poeta chamado Homero resolveu colocar tudo no papel, ou pergaminho, ou couro (confesso que não sei qual material, o que daria, aliás, um bom motivo para pesquisa). Enfim, Homero escreveu e se tornaram uns dos primeiros documentos redigidos da história ocidental. O poema épico está também sempre voltado à terceira pessoa. Ou seja, ao "ele". "Ele viajou", "ele guerreou", "ele foi seduzido por uma deusa". Há outros poemas épicos posteriores. Em língua portuguesa temos o poeta Camões (século XV), que conta a formação de Portugal e sua aventura ultramarina, "descobrindo" e conquistando outros continentes.
Passemos então ao gênero lírico. Mas é vocês que vão dar o tom da conversa agora, avaliando esse poema:
"MEUS OITO ANOS
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!"
(Casimiro de Abreu)
Então? O que acharam? Por favor, postem seus comentários. É um poema belo! Da geração romântica brasileira, meados do séc. XIX. A geração romântica sempre foi muito lírica, apesar de sempre ter havido lirismo em qualquer época (às vezes mais, às vezes menos). Tanto o é que assim Aristóteles observou, em seu tempo, que havia poesias que eram mais cantadas, mais suaves, que tinham um estilo mais pessoal e subjetivo, que diziam coisas mais da alma, dos sentimentos, como o amor, por exemplo. Acrescenta-se que tem esse termo lírico por causa de um instrumento musical de cordas grego, a lira.
Nesse poema Casimiro põe seus sentimentos de saudade de uma infância maravilhosa, acompanhados com elementos idílicos da natureza. Aliás, no romantismo a natureza sempre reflete os sentimentos dos poetas. É um poema voltado para dentro. Vejamos: "... que saudades (eu) tenho da aurora da MINHA vida...". Como se vê, o EU (1a pessoa do sujeito) está sempre presente, por isso é lírico, já que é a exacerbação da interioridade. Assim o lirismo é comum em poemas de amor (Vinícius de Morais, por exemplo), de medo, de angústia, de saudade, de busca do próprio ser, de espiritualidade. É subjetivo, é melódico, é centrado, repito, no eu.
Está cansado, colega. Não desista não e se prepare, porque é agora que as coisas começam a ficar tensas, dramáticas. Sim, dramáticas porque este é o último gênero clássico que nos falta para fecharmos.
O gênero dramático tem como característica principal a ação (lembre-se dos diretores de cinema: "luz, câmara, ação..."), conflito entre personagens, tensão. Este gênero se subdivide em dois: comédia e tragédia.
E vamos começar com a tragédia, depois pegamos mais leve. Assim Aristóteles vai dizer:
"A tragédia é a imitação de uma ação elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das suas partes, que se serve da ação e não da narração e que, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões [...] Como a tragédia é a imitação de uma ação e é realizada pela atuação de algumas pessoas que, necessariamente, são diferentes no caráter e no pensamento (é através disto que classificamos as ações e é por causa destas ações que todos vencem ou fracassam)."
Essa é uma das definições de tragédia de Aristóteles. Para ele a tragédia era uma obra estética, "linguagem embelezada", que produzia a "catarse". Ou seja, quando, no teatro, ou mesmo vendo novela hoje em dia, nos deparamos com as atitudes humanas más (ou boas até), nos "curamos", nos aliviamos dos nossos próprios males. Seria mais ou menos assim: ao nos deparamos com uma representação dos sentimentos, enxergamos a nós próprios. Lembrando que catarse era um termo que ele tirou da medicina grega, que significava, cura, purificação. O termo tragédia surge de um ritual que cultuava o deus Dionísio (deus pagão da dança, da música, da embriaguez, da desmedida, do desequilíbrio). Mas todo e esse excesso acabava sendo punido pelos deuses. Já que, na tragédia, o desequilíbrio, está na ambição humana, numa tentativa de ser superior, de querer disputar o trono de deus. Isso levará à perdição do personagem, será punido pelos deuses (aí está uma alegoria que fala sobre ética, e o peso da consciência, se assim podemos dizer), através de várias mortes na família, assassinatos mesmo. Por isso, em geral os personagens da tragédia são geralmente nobres ambiciosos. Igual, desculpe a comparação, a alguns políticos e gananciosos por aí. Não é mesmo?
Bem, os representantes maiores são: Ésquilo, Sófocles e Eurípides.
Chegamos ao final. E como vários filmes trágicos terminam com uma boa risada vamos falar um pouco da comédia. Na comédia o que está mais em foco são os costumes do povo, é como se fosse uma "crônica" do seu dia a dia, utilizando-se da sátira até para falar de assuntos delicados e "zuar" as autoridades, assim como nossos programas de comédia na TV. Em geral os personagens são mais populares e comuns. Seu maior dramaturgo foi Aristófanes. E terninemos com uma frase dele:
"Para as crianças, educação é o mestre-escola; para os jovens é o poeta."
Ivonilton G de Souza
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