segunda-feira, 12 de abril de 2021

O que são classes gramaticais?



Quando vamos estudar a língua, temos que fazer uma análise dela. Fazer uma análise é decompô-la em partes. Da mesma forma que analisando a água decompomos suas partes e descorimos que ela é feita de duas móleculas de hidrogênio e uma oxigênio, representado por H2O. Assim toda frase é composta de palavras que se relacionam entre si, pois uma recebe influência da outra. Esse relacionamento entre as palavras denominamos de sintaxe; tal como na molécula da água, onde hidrogênio e oxigênio se ligam para formar o composto químico H2O.


Pois bem. Até certo ponto, há uma certa dificuldade em se analisar isoladamente as palavras, já que elas no discurso, nas frases, estariam se relacionando. Mas, de qualquer modo, as palavras podem e devem receber um tratamento próprio também. Afinal, temos que colocar ordem na casa. E por isso cada palavra tem sua natureza única, sua peculiaridade, seu jeito especial e inconfundível.

Assim, não foi à toa que falei "colocar ordem na casa". Senão, vejamos... Imagine um quarto todo bagunçado. Não é difícil achar as coisas? E para arrumá-lo não devemos separá-las por itens? Então vamos supor que essas coisas espalhadas sejam só roupas. E você terá que separá-las e colocá-las cada uma em sua gaveta específica. Assim, calças vão para gaveta de calças; roupas íntimas para gaveta de roupas íntimas, camisas para gaveta de camisas e assim por diante..

Ora, imagine então que cada gaveta represente uma classe gramatical. Desse modo, substantivo iria para gaveta de substantivo, adjetivo para a de adjetivo, verbo para a de verbo etc. O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que as CLASSES GRAMATICAIS são a "arrumação" das palavras de acordo com suas maneiras de ser. E a classificação de cada palavra é o agrupamento em "gavetas" específicas.  Em gavetas específicas porque cada grupo de palavras se comporta de maneira diferente de outro. Do mesmo modo que não dá para colocar uma calça na cabeça. Isso, claro, se a pessoa não for doidinha.

Assim, podemos dizer que há 10 gavetas. Ou seja, 10 classes gramaticais. 10 comportamentos diferentes das palavras, que vão se reunir nas frases. E por isso mesmo podem (mas isso vamos ver depois) assumir outras classes a partir do momento que vão se organizando, adquirindo relações no texto. Todavia, o que importa de início é a essência dessas palavras, sua natureza primitiva. Básica. Eis as classes gramaticais:

Substantivo

Adjetivo

Advérbio

Verbo

Artigo

Pronome

Conjunção

Preposição

Numeral

Interjeição

Todas essas classes veremos depois. Mas o que quero salientar aqui (sem querer, evidentemente, complicar muito as coisas) é o seguinte: a palavra mesmo com sua característica específica, originária, pode, em contato com outra na frase, adquirir um modo de ser diverso. Por isso, é necessário entrar com mais um conceito aqui: o de SINTAXE. E o que é sintaxe? É a relação que as palavras mantém entre si, uma puxando a outra para sua esfera de influência, como o Sol puxa a Terra e a Terra a lua. Mas não vamos nos desesperar, pois meu intuito aqui não é embaralhar a cabeça de vocês e deixá-los doidinhos, enfiando calças pelas cabeças. Mas sim já deixar claro que as palavras podem mudar de classes gramaticais. E classes classes gramaticais são estudadas pela MORFOLOGIA. Só a título de exemplo:

A palavra "belo" é, inicialmente, um adjetivo. Adjetivo porque tem a função de qualificar e especificar um ser, dar suas características. Assim:

O céu é belo.

Como o céu é? Qual sua característica? Ele é BELO. Por essa razão é um ADJETIVO.

Agora vamos supor que um filósofo, Platão por exemplo, dissesse isto:

O belo é verdadeiro.

Aqui as coisas já mudam, né? Pois BELO agora DEIXOU de ser um adjetivo e passou a ser um SUBSTANTIVO. Por quê? Porque está nomeando algo. Passou, assim, a ser o nome de um ser abstrato, nomeia uma qualidade. Por isso é um substantivo abstrato. Além (como veremos em outra oportunidade) de ser o sujeito da frase. E assim VERDADEIRO passou a ser o ADJETIVO porque especifica como é o belo, qualifica-o.


Ufa... Vamos devagar, né? De qualquer forma, é preciso desde já ter algumas coisas já em mente para não cair em erros lá na frente. O estudo das classes gramaticais (morfológicos), apesar de ter certa autonomia, deve ser acompanhado, sempre quando se fizer necessário, do estudo da sintaxe. A isso dá-se o nome de MORFOSSINTAXE (morfologia+sintaxe). É claro que inicialmente é possível analisar as palavras sozinhas, em suas características primitivas. Mas elas não são só palavras isoladas como verbetes de dicionários; mais do que isso as palavras se inserem em frases (como vimos acima) e as frases em discursos. Mas isso, até certo ponto, não nos impede de saber que uma calça é uma calça e uma camisa uma camisa. Não nos impede de arrumarmos nossas "roupas-palavras" nas gavetas. Afinal, quem de vocês gosta de bagunça? Bem... Não precisam responder...



Prof. Ivonilton G de Souza


quinta-feira, 8 de abril de 2021

Semântica: existem sinônimos perfeitos?



Tomemos os seguintes enunciados:


O meu CARRO está na oficina.

Estacionamento para VEÍCULOS autorizados.

O AUTOMÓVEL foi uma invenção de 1769.


Ora, como vemos os três termos em destaque são palavras que, grosso modo, podemos denominar sinônimos, já que se referem a uma mesma coisa, pelo menos no sentido geral: algo que se locomove por si próprio ou serve para carregar coisas e/ou pessoas.

Mas, se nos determos nos enunciados, veremos que um  termo não substitui o outro satisfatoriamente, pois cada um carrega uma ideia peculiar, se encaixando no contexto do enunciado de maneira mais adequada. Afinal, mesmo sendo possível, ninguém diz por aí "Meu VEÍCULO está na oficina", ou "O VEÍCULO foi uma invenção de 1769".

E vou além, no último caso acima, a frase ficaria até meio sem sentido, já que charrete com cavalos pode ser também um veículo. E com certeza foi descoberta muitos anos antes.

Nesse sentido, não há sinônimos perfeitos. Assim, carro é uma espécie de popularização do termo automóvel. Aliás, termo que já até havia, basta olhar seu derivado carruagem. Automóvel por sua vez se enquadra num termo mais técnico de uma invenção, ou seja, algo que se move, através de propulsão (antes a vapor e hoje até por eletricidade). E, por fim, veículo é termo, hoje em dia, muito usado em sinalizações de trânsito, documentos burocráticos de departamentos de governo etc.

É claro que esses termos podem se deslocar; serem usados, por exemplo, ao mesmo tempo em uma concessionária como "carros", "veículos", ou "automóveis". Afinal, ainda continuam sendo sinônimos, mesmo que haja algumas sutilezas nos seus usos e significados próprios. O que queremos, porém, ressaltar aqui é que não há sinônimos perfeitos. Somente aproximações.

Quer ver um exemplo mais clássico? O substantivo ASSENTO.

Ora, logo observamos que assento pode ser uma cadeira, um sofá, um banco, uma poltona, um canapé. Pois segundo o dicionário online Michaelis é:

"Superfície sobre a qual se pode sentar".

Mas pergunto: uma cadeira pode ser igual a um sofá ou um banco? Claro que não. Só para confirmar: por quê? Porque cadeira é um assento como um sofá, mas é um assento com encosto, enquanto no banco não há encosto. Mas e a poltona? A poltrona tem encosto. Mas, convenhamos, não é tão confortável quanto uma cadeira, pois costuma ser mais baixa, altamente acolchoada e macia. E, para quem não conhece nem ouviu falar, devem estar curiosos para saber sobre o canapé. Bem. Canapé é um mobliário antigo, surgido no século XVIII. Semelhante ao sofá, mas sua estrutura, geralmente de madeira, é mais bem decorada, muitas vezes com ornamentos ao estilo rococó, com ondulações graciosas. Caiu em desuso. Por isso, apesar da semelhança, não podemos compará-lo ao sofá, invenção mais moderna. Aliás, devido à semelhança de como se "assentavam" petiscos num pão surgiu até um homônimo: o canapé (alimento), que é hoje um conhecido salgadinho.

Bem. Tendo já passado essas curiosidades sobre o "canapé assento" e o "canapé salgado", vamos ao que nos interessa. A palavra assento envolve outros termos, que nela estão contidos: sofá, cadeira, banco, poltona e o agora conhecido canapé. Estas palavras possuem o mesmo CAMPO SEMÂNTICO (de significado): todas são mobliários para sentar-se. Mas algumas possuem uns atributos positivos (+) e outras negativos (-). Assim podemos esquematizar, como exemplo, palavras do campo semântico de ASSENTO:

- Possui pés?
Cadeira (+), sofá (+), banco (+), canapé (+), poltrona (+).

- Possui encosto?
Cadeira (+), sofá (+), poltrona (+), canapé (+ -), banco (-).

- Possui braços?
Cadeira (+ -), sofá (+ -), canapé (+ -), poltrona (+ -), banco (-).

Como se vê, o campo semântico de assento pode se restringir; pois há, como vimos acima, os que possuem encosto (+) - excessão do canapé que pode não ter, por isso colocamos o símbolo (+ -)  -  e o que não possui (-); o mesmo se diz dos braços, alguns podem possuir (+ -), mas um nunca possui, o banco (-).

Assim, procedendo dessa forma, agrupando as palavras podemos classificá-las de acordo com seus respectivos significados. Às vezes unindo-as em grupos menores ou afastando-as de outros grupos. Quando as semelhanças são praticamente nulas e até opostas temos então antônimos. Mas isso não impede que haja sempre um conjunto maior. Por exemplo água é bem diferente de pedra (antônimos), mas ambos são minerais. Mineral seria o conjunto que as contém, que por sua vez é um conjunto que se diferencia do conjunto dos seres biológicos (ave, homem, micróbio etc). E por aí vai...


Conclui-se com essas lições que, ao utilizarmos palavras, devemos escolhê-las com cuidado e minúcia. Até mesmo para não criar mal entendidos. Por isso, dentro de uma profissão,  dífícilmente vamos escutar de um advogado "Vou fazer um pedido ao juiz", mas sim "uma PETIÇÃO"; ou de um médico "O paciente está com um cancro do mal na pele", mas "um TUMOR MALIGNO". O uso correto dos termos, a adequação das palavras são tão importantes que, quando mal utilizadas e fora dos seus contextos, podem causar muitos problemas. E isso vale para todos. Até mesmo para o Presidente de um país no exercício de sua profissão, já que, mais do que qualquer um, tem o dever de representar sua população com decoro e dignidade. As palavras são os retratos da alma.


Prof. Ivonilton G de Souza





quarta-feira, 7 de abril de 2021

Notas sobre aspectos literários  em "Furto de flor", de Carlos Drummond de Andrade


A seguir,  trago um texto de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), um dos nossos melhores escritores. Nascido em Minas Gerais e tendo se fixado no Rio, Drummond destacou-se na poesia e na crônica literária, sendo conhecido mundialmente.



Furto de flor

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.

– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!


(Carlos Drummond de Andrade)



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Interpretação do texto


Esse texto de Drummond é uma crônica. Crônica porque fala de fatos do dia a dia, mistura realidade com ficção, ou seja, história criada pela imaginação. Nesse sentido há quem diga que pode ser até um conto, história exclusivamente ficcional. Como as fronteiras são tênues, próximas (e o autor não dá opinião diretamente), podemos até usar o termo crônica literária. De qualquer modo, é um texto leve e descontraído, que termina com um humor. O fato de o porteiro, que antes estava dormindo, ver o rapaz devolvendo a flor, já morta, no jardim e dizer que é "lixo".

Mas qual a mensagem que o texto passa? Encerra alguma moral? Acreditamos que sim, pois a crônica fala do arrependimento do homem que furtou a flor, tirando-a do seu ambiente natural. É bem significativo quando no final do quarto parágrafo ele diz: "Eu a furtara, eu a via morrer". Isso já indica uma certa angústia do narrador. Desse modo, a literatura tem a função também de passar conteúdos morais. Alguns textos literários fazem isso com mais clareza, tratando o tema literário unicamente com fim pedagógico e moralista. Estes textos são as fábulas, que encerram sempre uma "moral da história". Já outros textos ficcionais trazem a questão moral mais implícita, ou seja, não tão clara, cabendo ao leitor descobrir nas entrelinhas qual significado ético do texto. Desse modo, a crônica (ou conto) de Drummond se enquadra nesse segundo tipo de texto. O autor não faz alusão direta ao comportamento dos personagens, mas de certa forma induz ao leitor a pensar algo a respeito do caráter deles (aqui no caso o porteiro e o narrador, que pegou a flor). Assim, podemos inferir que a pessoa que furtou a flor tinha boas intenções, mas que seu gesto não foi tão bom, como também imaginar que o porteiro do edifício era relapso, preguiçoso em seu trabalho. Mas de qualquer forma cabe mais ao leitor essas conclusões. O narrador da história só narra os fatos, indicando as situações para colocá-las em julgamento de quem lê.

Esse texto é repleto de sentimentos do narrador, que está em primeira pessoa (ele mesmo narra sua história). São sentimentos de amor, carinho com a flor, cuidados, arrependimentos etc. Assim, a literatura está sempre analisando as características psicológicas das pessoas, seus afetos, sua personalidade, enfim. E muitas vezes nos identificamos com essas personalidades. Isso se dá da mesma maneira que nos identificamos com um personagem bíblico ou de uma novela, por exemplo. Essa é uma das tarefas principais da literatura: nos enxergarmos atrás dos personagens. Enxergarmos muitas coisas que às vezes não vemos no nosso dia a dia. Serve como um "espelho" para nos vermos. E para, além de tudo, vermos o outro. Vermos que há uma pluralidade de maneiras de agir das pessoas. Nesse sentido, podemos dizer que a obra literária traz várias visões de mundo. E isso pode ser muito importante, pois aprendemos a nos depararmos com as diferenças e vermos que nem todos são iguais. Mesmo que haja atitudes boas ou más.

Não cabe à literatura dizer as coisas  com necessária objetividade, por isso é comum realçar os objetos, colorir sua narração com o que chamamos de figuras de linguagem. Figuras de linguagem são maneiras de escrever que trazem um estilo pessoal e próprio, dando mais sentimento, mais afetos, mais emoção ao que é contado. Assim, por exemplo, fica mais bonito dizer para alguém que se gosta "Seus olhos brilham no meu coração" do que simplesmente dizer "Tenho afeto por você". Sim. Usar a linguagem literária é uma boa forma de conquistar corações. Por esse motivo, Drummond, ao invés de dizer que "a flor estava se recuperando bem", preferiu dizer: "notei que ela me agradecia". Ou então, no momento trágico da história, ele diz "com a cor particular da morte" em vez de simplesmente dizer que ela morria.

Assim, todo texto literário possui esses dois requisitos que aqui vemos nessa crônica:

- O conteúdo. A moral, o significado ou mensagem interior que o texto quer passar. No caso, a questão do furto, do egoísmo de querer a flor em casa, do arrependimento etc.

- A forma. Como a história é contada, seu exterior. Pode ser contada em forma de fábula, poesia, romance, conto ou crônica. Pode ser contada com um ou mais parágrafos, com uma escrita formal (português "oficial") ou informal/coloquial (português popular). Pode ser contada com bastante figuras de linguagem ou de maneira até mais seca.


Concluindo, a literatura está sempre a serviço de uma questão moral, psicológica, sociológica e filosófica e, por outro lado, como é arte (e arte tem a função de embelezar), está também sempre a serviço da estética, da forma especial como se escreve, estilo próprio. São esses dois conjuntos que trazem, que evocam identificaçôes e sentimentos a nós. É como uma música: às vezes prestamos atenção só na letra (conteúdo), às vezes percebemos só a música mesmo (a melodia, o ritmo, o som, a forma em si). Mas é no conjunto forma/conteúdo que temos a obra por inteiro. 


Prof. Ivonilton G de Souza




segunda-feira, 8 de março de 2021

Sobre ciência, sociedade e estudos da língua


Há muitos colegas, professores de Português e Linguística, que, talvez por influência do Estruturalismo (ou por uma postura científica, por um positivismo "isento" demais), são extremamente conservadores. Chomsky é uma excessão rara (e até contraditória, se confrontarmos seu ativismo com sua postura científica). 

Não basta estudar a língua somente em sua imanência, em seus pares opositivos, como bem queria Saussure e depois nessa mesma esteira Levy-Strauss na Sociologia, aniquilando com a história, fazendo dela um cristal. Ignorar a língua como uma troca social, pragmática, como labirintos psíquicos, com intenções discursivas, com seus vários falares (e disputas de classes até) é ignorar sua realidade viva e humana. Não há mais tempo para estudos da linguagem sem ser contextualizados socialmente. O Estruturalismo já produziu o que tinha que produzir, até Todorov sabe disso, fruto de uma guerra fria. Mesmo que tenha sido um movimento que descobriu um caminho próprio da ciência da linguagem - cuja importância não negamos -, nunca deixou de ser estéril. 

E aí caímos numa questão recorrente. Até que ponto foi realmente isento? Até que ponto muitos professores e pesquisadores da linguagem são isentos? Até que ponto a ciência é isenta? Não tomar partido da língua como atividade social é ser também político. Político de um establishment que a todo custo evita tocar no assunto, pois não pode ser derrubado. E assim cria-se - inconsciente ou mesmo intencionalmente - uma realidade abstrata em um mundo concreto.

Professor Ivonilton Gonçalves de Souza

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Alguns tópicos sobre a literatura de Machado de Assis e Rubem Fonseca


- Machado de Assis e Rubem Fonseca são escritores realistas. Ou seja, tratam das questões sociais da sociedade. Mas tratam no sentido de fazer o retrato das camadas sociais, dos interesses, do fingimento da sociedade e sua hipocrisia.

- Machado (segunda metade do século XIX) faz parte de um realismo psicológico. Assim seus personagens revelam dramas, contradições e incertezas interiores, trazendo riqueza a caracterização psíquica da mente humana, que é cheia de labirintos, fingimentos, dúvidas e até mesmo crueldade. Por isso seu personagens são redondos.

- Rubem Fonseca, escritor da segunda metade do século XX, traz em sua literatura algo chamado de "ultrarrealismo". Nesse sentido, as questões sociais como pobreza, crimes, ambição, perversidade, sexo, luta pela vida e etc são tratadas de maneira mais direta, crua e seca. Sem muitas entrelinhas, diferentemente de Machado. Mostra-se Rubem Fonseca mais objetivo, vai direto ao ponto. Por isso seus personagens são planos.

- Há uma tendência da literatura moderna, e sobretudo contemporânea, de tratar os personagens como anti-heróis. Isso vemos facilmente nos filmes onde os protagonistas não são mais os mocinhos mas os vilões. Muitas vezes é a justiça pelas próprias mãos que interessa. Quando não é mostrada a realidade de um personagem sem caráter e escrúpulos. É o que vemos em "Passeio noturno" de Rubem Fonseca. "Passeio noturno" e "Passeio noturno II", já que há outro conto com o mesmo personagem, que é de família de rica com uma vida aparentemente normal, mas que na verdade é um psicopata, pois tem como prazer assassinar mulheres atropelando-as.

- É digno de nota que em "Passeio noturno" há também uma relação simbólica e machista que relaciona o fato de ter um carro potente com a virilidade masculina. Associação que é muito comum encontramos no nosso dia a dia entre pessoas que ostentam "machismos".

- Em Machado de Assis os personagens não chegam a ser propriamente anti-heróis como na literatura contemporânea, mas são personagens sonsos, sarcásticos, ambiciosos, repletos de falhas morais, evidenciando o jogo de interesse e disfaçes do mundo burguês. Ele pouco trata da classe mais baixa, o que será feito exemplarmente depois no naturalismo de Aluísio de Azevedo e se radicalizando com Rubem Fonseca (ver conto "Feliz ano novo", onde os protagonistas são assaltantes, assassinos e estupradores). De qualquer modo, já em Machado é revelada crueldade humana. Só que de uma maneira mais sutil e irônica. Por isso é chamado de "O Bruxo".

- De maneira geral, a literatura realista (ou mesmo a autêntica literatura) não está interessada em fazer julgamentos, ditar verdades ou lições de moral. No caso da literatura realista, seu interesse é somente representar a sociedade e seus costumes de maneira fidedigna. Ou seja sem romantizar ou criar universos de esperança e salvação. Não está em pauta para a literatura discutir verdades porque isso seria papel da retórica, da filosofia, da ciência e das igrejas. Ela pode se limitar (e isso Machado fazia muito bem) a dar sugestões, e cabe ao leitor decidir qual caminho enveredar, cabe ao leitor tirar suas conclusões. Se ela é realista e cruel é porque o autor simplesmente está espelhando os costumes da época. O que aqui é dito se dá principalmente em Machado, pois dos escritores realistas era o mais ambíguo. Já a escola Naturalista, que vem logo depois, talvez já haja um propósito de verdade, de defesa de tese, pois já há um maior direcionamento para a crença na evolução das espécies, em certo biologismo e cientificismo. Mas isso é assunto para outra discussão. O importante é ter em mente que Machado de Assis e Rubem Fonseca retratam a realidade como ela é. E sabemos que mazelas e interesses fazem parte dela.


Prof. Ivonilton G de Souza


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

 Arcadismo: Cláudio Manoel da Costa



Tendo estudado com os jesuítas no Brasil Colônia e depois cursado Direito em Coimbra, Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) foi um poeta Árcade por excelência. Como proprietário de terras em Minas Gerais, que herdou da família já de volta ao Brasil, defendia,  muito além dos os valores iluministas, a não sobrecarga de impostos feita pela Metrópole, através do que ficou conhecido como Derrama. Ou seja, num momento em que a Côrte portuguesa passava dificuldades e o filões de ouro brotavam em Minas, ela passou a instituir fiscalizações e taxas abusivas em relação ao mineral precioso. Assim, por sua participação na Inconfidência Mineira - levante organizado por insatisfeitos com a política na colônia - acabou, ao que parece, cometendo suicídio na prisão.


Essas questões históricas são importantes para podermos avaliar o contexto em que se deu sua produção poética. Produção aliás que oscilava com imagens da Europa e imagens de Minas Gerais. De qualquer forma, como veremos no soneto a seguir, o que o poeta busca é um afastamento, uma procura campestre, uma nostalgia que revela uma fuga dos centros urbanos. Vejamos, portanto, um soneto:


Sou Pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;


Ali me ouvem os troncos namorados,

Em que se transformou a antiga gente;

Qualquer deles o seu estrago sente;

Como eu sinto também os meus cuidados.


Vós, ó troncos (lhes digo), que algum dia

Firmes vos contemplastes, e seguros

Nos braços de uma bela companhia;


Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


Ora, logo na primeira estrofe diz ser "Pastor" e, por isso, ter companhia "doce" dos "meus gados". 


Sou Pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;


Nesse sentido, era ideia dos Árcades (lembrando que o termo faz referência a montes pastoris na Grécia: Arcádia) a fuga para o campo. Essa fuga explica-se por um saturamento da vida urbana que, cada vez mais, crescia, se avolumava com a revolução industrial, propiciando assim uma certa contradição nos poetas, uma nostalgia, que ainda não chega a ser romântica, do passado. É por isso que "os troncos namorados" ouvem-no. E servem ainda como como consolo, pois, depois de invocá-los na terceira estrofe, na quarta diz:


Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


Ou seja, a melancolia, a saudade, o bucolismo são temas frequentes na poesia Árcade. Trata-se, como se pode ver, da alegria de "algum tempo", mas que "hoje os tratos de Amor choro perjuros".


Outro aspecto a ser observado na obra de Cláudio Manoel da Costa é sua concepção clássica de poesia. Apesar de encontrarmos ainda resquícios barrocos, pois muitas vezes o estilo árcade nele se encontra mais no tema do que na linguagem, não é intenção desses poetas em geral fazer uma poesia cheia de antíteses, rebuscamentos, preciosismos de linguagem como no Barroco. Vale lembrar que nessa época, de ascenção dos valores burgueses, a poesia palaciana - rica de ornamentos -, a poética ou obra de arte exagerada da Côrte ou da Igreja começaram a se saturar, a sair de prestígio. A tônica, portanto, é outra. Desse modo se valoriza mais a simplicidade, a lisura, a melodia "honesta" do poema, sem excessos.


Em algumas vezes Claudio Manoel da Costa se aproxima tanto de Camões que basta confrontar os versos de ambos:


Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.


(Camões)


Faz a imaginação de um bem amado

Que nele se transforme o peito amante;

Daqui vem, que a minha alma delirante

Se não distingue já foi meu cuidado.


(Cláudio Manoel da Costa)




É nesse sentido que os poetas dessa geração também são chamados de neoclássicos, pois absorvem toda corrente racionalista e de equilíbrio do Classicismo Renascentista. O que os diferenciam é darem um colorido campestre e de fuga ao novo estilo.


Em Cláudio Manoel da Costa esse colorido fica dividido entre a paisagem de Portugal, onde ele estudou direito, e do Brasil, conforme esses versos que acabam por atestar o colonialismo brasileiro:


Correi de leite e mel, ó Pátrios rios,

E abri dos seios o metal guardado;

Os borbotões de prata, e de oiro os fios

Saiam de Luso a enriquecer o estado.


(Canto Heróico)


Assim, o oiro (ouro, no portugês atual) e a prata só podem estar se referindo a atividade de mineração no Brasil, mas que serviam para "enriquecer o estado" lusitano, ou seja, a metrópole portuguesa. 


Canta Cláudio Manoel da Costa também às suas musas. Eulina, Daliana, Antandra, todas idealizada como pastoras. E isso representa novamente o seu desejo de evasão para montanhas calmas e serenas. É bom lembrar que no Arcadismo a natureza representa a razão, o equilíbrio, o meio termo clássico. Nesse sentido as paixões são sempre tratadas de maneira suave e idílica. É o que se vê neste soneto em que procura sua musa:


Nise? Nise? onde estás? Aonde espera

Achar te uma alma, que por ti suspira,

Se quanto a vista se dilata, e gira,

Tanto mais de encontrar te desespera!


Ah se ao menos teu nome ouvir pudera

Entre esta aura suave, que respira!

Nise, cuido, que diz; mas é mentira.

Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.


Grutas, troncos, penhascos da espessura,

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,

Mostrai, mostrai-me a sua formosura.


Nem ao menos o eco me responde!

Ah como é certa a minha desventura!

Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?


São por esses poemas e outros  (inclusive narrativos, que a crítica não acolheu tão efusivamente como a Fábula do Ribeirão do Carmo e o épico Vila Rica), que Tomás Antônio Gonzaga, outro poeta árcade, o via como mentor da arte de escrever. Arte essa aliás que já era ensinada em manuais de poética como a "Art Poétique", de Boileau, ou aqui entre os ibéricos (Espanha e Portugal) Ignácio de Luzán e Francisco José Freire (Cândido Lusitano), que mais tiveram penetração entre nossos poetas. Todos esses tratados de poética tinham como prioridade a natureza, a simplicidade, a razão e o equilíbrio das formas. Tudo isso com uma certa idealização platônica da beleza, ou seja, uma sublimação do belo. Assim une-se o belo e o agradável. E é nas palavras de Luís Antônio Vernei, em um tratado pedagógico que já afasta o valores barrocos e jesuítas, que vemos isso com mais clareza, pois "um conceito que não é justo, nem fundado sobre a natureza das coisas, não pode ser belo, porque o fundamento de todo conceito engenhoso é a verdade".


Assim, a poesia de Cláudio Manoel da Costa  (ou Glauceste Satúrnio, codinome que assumira para si) cumpre todos esses requisitos propostos pelos manuais de versificação da época. Sem dúvida uns dos melhores da nossa literatura. Literatura essa que, se ainda não se consolidava como autenticamente nossa, começa a colher frutos de originalidade a partir do período Árcade, cuja univocidade das imagens e sentimentos ainda se dividem com os de Portugal, mas aos poucos amadurecem.


Prof. Ivonilton G de Souza


 O Arcadismo


Vimos que a Literatura passa por vários ciclos que ora se apresentam de maneira mais objetiva, clássica e ora se apresentam de maneira mais subjetiva, simbólica. Assim é que temos na história da literatura ocidental moderna e contemporânea o Classicismo, o Barroco, o Arcadismo, o Romantismo, o Realismo e o Parnasianismo, o Simbolismo, o Pré-modernismo, o Modernismo (subdividido em várias fases) e a literatura contemporânea, ou pós-moderna. Desse modo, o Brasil sempre vai acompanhar essas tendências vindas da Europa. O que era de se esperar já que aqui continuamente fomos colônia. Mesmo com o Romantismo, época da independência política e de maior caracterização dos nossos valores culturais, ainda sempre seremos muito subservientes aos modelos vindos de fora.


Feitas essas primeiras considerações, vamos nos deter mais no nosso assunto específico do momento: o Arcadismo. Esta escola literária, com seu estilo próprio (ou seja, um mesmo padrão estético), vai surgir com o esgotamento do Barroco e a necessidade de se renovar a literatura. Ocorre que essa renovação vai buscar inspiração nos modelos clássicos. Isso significa que não é uma volta necessária ao Classicismo (que, aliás, aqui no Brasil nem houve), entretanto, é um reavivamento de suas concepções de arte. E quais eram essas concepções? Culto a forma, racionalismo, equilíbrio, retomada de deuses pagãos, inspirações greco-romanas etc.


Mas, em contraparte, o que havia de diferente nessa concepção de arte? Havia fuga para o campo, nostalgia, bucolismo, ideias iluministas etc.


Assim, é uma poesia que reflete os novos tempos. Alinhada aos acontecimentos do século XVIII. Ora, basta só dizer que foi neste século que tivemos a Revolução Francesa, em 1789, tivemos a Independência norteamericana, em 1776, e aqui no Brasil tivemos a Inconfidência Mineira, movimento separatista que culminou com a morte de seus rebelados, entre eles, o mais conhecido: Tiradentes. Conta ainda o fato que em torno deste século das luzes (movimento iluminista) houve um incremento nos grandes centros urbanos, o Absolutismo e o poder secular da igreja católica começavam a enfraquecer e a primeira revolução industrial dava passos largos, extinguindo sistemas artesanais de produção e incrementando a produção industrial, principalmente voltada aos tecidos. Diante disso, o feudalismo cedia aos novos tempos. E que tempos eram esses? Eram os ideais republicanos, de democracia, de direitos humanos universais, de equilíbrio entre os poderes. Com isso a burguesia estava cada vez mais pronta para se alçar no comando da história, era chegada a sua hora. É claro que isso não se deu da noite para o dia, houve idas e vindas, resistências, guerras. Mas era cada vez mais evidente que o feudalismo estava com seus dias contados, que mais cedo ou mais tarde a antiga nobreza teria que ceder. E o marco simbólico (pela grandeza do acontecimento) está na Revolução Francesa. Movimento que irá se propagar, através das conquistas napoleônicas, por toda Europa. É dela que tiramos a famosa frase que está no inconsciente coletivo de qualquer um hoje em dia: Igualdade, Liberdade e Fraternidade.


Assim, como veremos adiante a concepção da plêiade (grupo de poetas e intelectuais) Árcade se coadunava com esses valores humanísticos do iluminismo, que almeja chegar a uma concepção Universal do homem, através de filósofos divulgadores como Montaigne, Voltaire, Rosseau, Diderot, Locke, Thomas More e tantos outros no cenário europeu. Aqui no Brasil Colônia houve um influxo dessas idéias, que, aliás, eram sempre vigiadas e repreendidas pela côrte portuguesa. Apesar de ter havido um Marquês de Pombal, cujas medidas administrativas já traziam as novas concepções, mesmo que timidamente. Afinal é tudo um espírito de época. E por isso mesmo tivemos grandes poetas (e igualmente "conspiradores") como Thomaz Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e mais uns tantos de menor envergadura. Em suas poesias estão sempre presentes a fuga para o campo, a nostalgia, a sátira (invariavelmente disfarçada), o equilíbrio formal, a racionalidade iluminista. Enfim, tudo isso veremos com uma lente de aumento e exemplificaremos com os textos desses ilustres escritores no próximo ítem. 


Prof. Ivonilton G de Souza