quarta-feira, 7 de abril de 2021

Notas sobre aspectos literários  em "Furto de flor", de Carlos Drummond de Andrade


A seguir,  trago um texto de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), um dos nossos melhores escritores. Nascido em Minas Gerais e tendo se fixado no Rio, Drummond destacou-se na poesia e na crônica literária, sendo conhecido mundialmente.



Furto de flor

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.

– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!


(Carlos Drummond de Andrade)



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Interpretação do texto


Esse texto de Drummond é uma crônica. Crônica porque fala de fatos do dia a dia, mistura realidade com ficção, ou seja, história criada pela imaginação. Nesse sentido há quem diga que pode ser até um conto, história exclusivamente ficcional. Como as fronteiras são tênues, próximas (e o autor não dá opinião diretamente), podemos até usar o termo crônica literária. De qualquer modo, é um texto leve e descontraído, que termina com um humor. O fato de o porteiro, que antes estava dormindo, ver o rapaz devolvendo a flor, já morta, no jardim e dizer que é "lixo".

Mas qual a mensagem que o texto passa? Encerra alguma moral? Acreditamos que sim, pois a crônica fala do arrependimento do homem que furtou a flor, tirando-a do seu ambiente natural. É bem significativo quando no final do quarto parágrafo ele diz: "Eu a furtara, eu a via morrer". Isso já indica uma certa angústia do narrador. Desse modo, a literatura tem a função também de passar conteúdos morais. Alguns textos literários fazem isso com mais clareza, tratando o tema literário unicamente com fim pedagógico e moralista. Estes textos são as fábulas, que encerram sempre uma "moral da história". Já outros textos ficcionais trazem a questão moral mais implícita, ou seja, não tão clara, cabendo ao leitor descobrir nas entrelinhas qual significado ético do texto. Desse modo, a crônica (ou conto) de Drummond se enquadra nesse segundo tipo de texto. O autor não faz alusão direta ao comportamento dos personagens, mas de certa forma induz ao leitor a pensar algo a respeito do caráter deles (aqui no caso o porteiro e o narrador, que pegou a flor). Assim, podemos inferir que a pessoa que furtou a flor tinha boas intenções, mas que seu gesto não foi tão bom, como também imaginar que o porteiro do edifício era relapso, preguiçoso em seu trabalho. Mas de qualquer forma cabe mais ao leitor essas conclusões. O narrador da história só narra os fatos, indicando as situações para colocá-las em julgamento de quem lê.

Esse texto é repleto de sentimentos do narrador, que está em primeira pessoa (ele mesmo narra sua história). São sentimentos de amor, carinho com a flor, cuidados, arrependimentos etc. Assim, a literatura está sempre analisando as características psicológicas das pessoas, seus afetos, sua personalidade, enfim. E muitas vezes nos identificamos com essas personalidades. Isso se dá da mesma maneira que nos identificamos com um personagem bíblico ou de uma novela, por exemplo. Essa é uma das tarefas principais da literatura: nos enxergarmos atrás dos personagens. Enxergarmos muitas coisas que às vezes não vemos no nosso dia a dia. Serve como um "espelho" para nos vermos. E para, além de tudo, vermos o outro. Vermos que há uma pluralidade de maneiras de agir das pessoas. Nesse sentido, podemos dizer que a obra literária traz várias visões de mundo. E isso pode ser muito importante, pois aprendemos a nos depararmos com as diferenças e vermos que nem todos são iguais. Mesmo que haja atitudes boas ou más.

Não cabe à literatura dizer as coisas  com necessária objetividade, por isso é comum realçar os objetos, colorir sua narração com o que chamamos de figuras de linguagem. Figuras de linguagem são maneiras de escrever que trazem um estilo pessoal e próprio, dando mais sentimento, mais afetos, mais emoção ao que é contado. Assim, por exemplo, fica mais bonito dizer para alguém que se gosta "Seus olhos brilham no meu coração" do que simplesmente dizer "Tenho afeto por você". Sim. Usar a linguagem literária é uma boa forma de conquistar corações. Por esse motivo, Drummond, ao invés de dizer que "a flor estava se recuperando bem", preferiu dizer: "notei que ela me agradecia". Ou então, no momento trágico da história, ele diz "com a cor particular da morte" em vez de simplesmente dizer que ela morria.

Assim, todo texto literário possui esses dois requisitos que aqui vemos nessa crônica:

- O conteúdo. A moral, o significado ou mensagem interior que o texto quer passar. No caso, a questão do furto, do egoísmo de querer a flor em casa, do arrependimento etc.

- A forma. Como a história é contada, seu exterior. Pode ser contada em forma de fábula, poesia, romance, conto ou crônica. Pode ser contada com um ou mais parágrafos, com uma escrita formal (português "oficial") ou informal/coloquial (português popular). Pode ser contada com bastante figuras de linguagem ou de maneira até mais seca.


Concluindo, a literatura está sempre a serviço de uma questão moral, psicológica, sociológica e filosófica e, por outro lado, como é arte (e arte tem a função de embelezar), está também sempre a serviço da estética, da forma especial como se escreve, estilo próprio. São esses dois conjuntos que trazem, que evocam identificaçôes e sentimentos a nós. É como uma música: às vezes prestamos atenção só na letra (conteúdo), às vezes percebemos só a música mesmo (a melodia, o ritmo, o som, a forma em si). Mas é no conjunto forma/conteúdo que temos a obra por inteiro. 


Prof. Ivonilton G de Souza




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