Semântica: existem sinônimos perfeitos?
Tomemos os seguintes enunciados:
O meu CARRO está na oficina.
Estacionamento para VEÍCULOS autorizados.
O AUTOMÓVEL foi uma invenção de 1769.
Ora, como vemos os três termos em destaque são palavras que, grosso modo, podemos denominar sinônimos, já que se referem a uma mesma coisa, pelo menos no sentido geral: algo que se locomove por si próprio ou serve para carregar coisas e/ou pessoas.
Mas, se nos determos nos enunciados, veremos que um termo não substitui o outro satisfatoriamente, pois cada um carrega uma ideia peculiar, se encaixando no contexto do enunciado de maneira mais adequada. Afinal, mesmo sendo possível, ninguém diz por aí "Meu VEÍCULO está na oficina", ou "O VEÍCULO foi uma invenção de 1769".
E vou além, no último caso acima, a frase ficaria até meio sem sentido, já que charrete com cavalos pode ser também um veículo. E com certeza foi descoberta muitos anos antes.
Nesse sentido, não há sinônimos perfeitos. Assim, carro é uma espécie de popularização do termo automóvel. Aliás, termo que já até havia, basta olhar seu derivado carruagem. Automóvel por sua vez se enquadra num termo mais técnico de uma invenção, ou seja, algo que se move, através de propulsão (antes a vapor e hoje até por eletricidade). E, por fim, veículo é termo, hoje em dia, muito usado em sinalizações de trânsito, documentos burocráticos de departamentos de governo etc.
É claro que esses termos podem se deslocar; serem usados, por exemplo, ao mesmo tempo em uma concessionária como "carros", "veículos", ou "automóveis". Afinal, ainda continuam sendo sinônimos, mesmo que haja algumas sutilezas nos seus usos e significados próprios. O que queremos, porém, ressaltar aqui é que não há sinônimos perfeitos. Somente aproximações.
Quer ver um exemplo mais clássico? O substantivo ASSENTO.
Ora, logo observamos que assento pode ser uma cadeira, um sofá, um banco, uma poltona, um canapé. Pois segundo o dicionário online Michaelis é:
"Superfície sobre a qual se pode sentar".
Mas pergunto: uma cadeira pode ser igual a um sofá ou um banco? Claro que não. Só para confirmar: por quê? Porque cadeira é um assento como um sofá, mas é um assento com encosto, enquanto no banco não há encosto. Mas e a poltona? A poltrona tem encosto. Mas, convenhamos, não é tão confortável quanto uma cadeira, pois costuma ser mais baixa, altamente acolchoada e macia. E, para quem não conhece nem ouviu falar, devem estar curiosos para saber sobre o canapé. Bem. Canapé é um mobliário antigo, surgido no século XVIII. Semelhante ao sofá, mas sua estrutura, geralmente de madeira, é mais bem decorada, muitas vezes com ornamentos ao estilo rococó, com ondulações graciosas. Caiu em desuso. Por isso, apesar da semelhança, não podemos compará-lo ao sofá, invenção mais moderna. Aliás, devido à semelhança de como se "assentavam" petiscos num pão surgiu até um homônimo: o canapé (alimento), que é hoje um conhecido salgadinho.
Bem. Tendo já passado essas curiosidades sobre o "canapé assento" e o "canapé salgado", vamos ao que nos interessa. A palavra assento envolve outros termos, que nela estão contidos: sofá, cadeira, banco, poltona e o agora conhecido canapé. Estas palavras possuem o mesmo CAMPO SEMÂNTICO (de significado): todas são mobliários para sentar-se. Mas algumas possuem uns atributos positivos (+) e outras negativos (-). Assim podemos esquematizar, como exemplo, palavras do campo semântico de ASSENTO:
- Possui pés?
Cadeira (+), sofá (+), banco (+), canapé (+), poltrona (+).
- Possui encosto?
Cadeira (+), sofá (+), poltrona (+), canapé (+ -), banco (-).
- Possui braços?
Cadeira (+ -), sofá (+ -), canapé (+ -), poltrona (+ -), banco (-).
Como se vê, o campo semântico de assento pode se restringir; pois há, como vimos acima, os que possuem encosto (+) - excessão do canapé que pode não ter, por isso colocamos o símbolo (+ -) - e o que não possui (-); o mesmo se diz dos braços, alguns podem possuir (+ -), mas um nunca possui, o banco (-).
Assim, procedendo dessa forma, agrupando as palavras podemos classificá-las de acordo com seus respectivos significados. Às vezes unindo-as em grupos menores ou afastando-as de outros grupos. Quando as semelhanças são praticamente nulas e até opostas temos então antônimos. Mas isso não impede que haja sempre um conjunto maior. Por exemplo água é bem diferente de pedra (antônimos), mas ambos são minerais. Mineral seria o conjunto que as contém, que por sua vez é um conjunto que se diferencia do conjunto dos seres biológicos (ave, homem, micróbio etc). E por aí vai...
Conclui-se com essas lições que, ao utilizarmos palavras, devemos escolhê-las com cuidado e minúcia. Até mesmo para não criar mal entendidos. Por isso, dentro de uma profissão, dífícilmente vamos escutar de um advogado "Vou fazer um pedido ao juiz", mas sim "uma PETIÇÃO"; ou de um médico "O paciente está com um cancro do mal na pele", mas "um TUMOR MALIGNO". O uso correto dos termos, a adequação das palavras são tão importantes que, quando mal utilizadas e fora dos seus contextos, podem causar muitos problemas. E isso vale para todos. Até mesmo para o Presidente de um país no exercício de sua profissão, já que, mais do que qualquer um, tem o dever de representar sua população com decoro e dignidade. As palavras são os retratos da alma.
Prof. Ivonilton G de Souza
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