quinta-feira, 15 de abril de 2021

Semântica: mais algumas observações sobre sinônimos



A aula do dia 8 de abril "Existem sinônimos perfeitos?" tinha o propósito de fazer as seguintes observações:

1. Nem todos os sinônimos (palavras diferentes com o mesmo significado. Ex.: alegre - feliz) são iguais, porque cada palavra traz no seu interior um sentido diferente.

2. Esse sentido diferente diferente se dá por alguns motivos:

a) O contexto em que a palavra é usada. Numa discussão é mais fácil alguém dizer que tem "raiva" do que "não tem estima", ou mesmo "tem desafeto", pois estas últimas são maneiras mais polidas de falar, úteis em comunicados escritos e/ou formais, mas não na hora da explosão emocional.

b) As palavras se enquadram em usos profissionais (os jargões). É muito comum escutarmos nos noticiários sobre algum crime os policiais usarem o termo "meliante" em vez de "bandido". Como também é mais fácil escutarmos de um dentista que vai "extrair" seu dente do que "arrancar".

c) A intenção do falante. Se alguém quer dizer que gosta muito de você  vai preferir usar o termo "apaixonado" em vez de "te amo bastante". Algumas intenções podem ser irônicas até (invertendo o sentido da palavra e equivalendo-a ao seu oposto), como em: O ditador é "carinhoso com as pessoas". Ora "ditador" aqui equivale à "truculento".

d) O contexto histórico/geográfico. Usar o termo "alcunha" dá um sentido mais antigo ao comunicado, já que hoje quase todo mundo usa "apelido". Como "telemóvel" é usado em Portugal e "celular" no Brasil, ambos são sinônimos, mas sofrem variações regionais. 

e) O contexto social. É mais fácil escutarmos escutar de alguém com pouca escolaridade que está "buchuda" em vez de "grávida", por exemplo.

3. Todos os tópicos do ítem 2 fazem intercessão e são aprofundados em outro assunto: a Variação Linguística.

4. O campo semântico das palavras pode se ampliar ou reduzir. Assim a palavra veículo está no campo semântico de carro, de navio, de avião, de bicicleta. Mas não está no campo semântico de casa, já que ela se enquadra no campo semântico de moradia. Por outro lado, se dissermos veículo com quatro rodas podemos incluir carro, alguns caminhões, alguns ônibus, algumas vans. Se dissermos de duas rodas, teremos moto e bicicleta. Por isso que num comunicado do DETRAN é comum vermos: "A vistoria do veículo será feita tal dia". Mas por quê? Porque é um termo que vai abranger carros, caminhões, ônibus, motos. É claro que o fato de sabermos que se trata de veículos urbanos já exclui naturalmente aviões, por exemplo. Mas se eles pusessem de automóveis, só iriam aparecer na vistoria esses tipos de veículos.


Pois bem. O uso de palavras adequadas é fundamental para a boa expressão. Se mal usadas surgem ruídos na comunicação, o que pode gerar transtornos como no exemplo do DETRAN acima. 

Mas por outro lado os sinônimos, quando bem usados, podem nos auxiliar na coesão do texto, pois nos ajudam a fazer retomadas sem necessariamente usar os mesmos termos. Assim, podemos variar de palavras com o mesmo significado para evitar repetições enfadonhas, pesadas aos ouvidos.

Por fim, gostaria de salientar que a inexistência de sinônimos perfeitos fica bem clara numa poesia. Mas por quê? Porque o poeta trabalha principalmente com o eixo de seleções de palavras. Ou seja, seleciona as palavras com minúcia para dar todo um sentido especial ao seu texto. Diferente da prosa - onde o que mais importa é a sequência de palavras (o eixo sintagmático) - , a poesia trabalha com o eixo paradigmático, vertical. Vou dar um exemplo:


"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra"

Este é um fragmento do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, "No meio do caminho". E o que mais impressiona nele? É que "No meio do caminho tinha uma pedra". Ora, como se vê, pedra é uma palavra fundamental no poema. É ela que traz toda chave de interpretação. Interpretação que pode ser simbólica (linguagem conotativa) ou literal (linguagem denotativa). Por se tratar de uma poesia, vamos ficar com a possibilidade simbólica, com a metáfora pedra. O que ela sugere? Pode sugerir um obstáculo, não? E um obstáculo muito simples (a própria construção do poema é simples), uma pedra. Ou então complicado, pois se repete várias vezes e até mesmo pedra parece ser algo duro. Pois então. O que significa essa pedra é na verdade o leitor que vai dizer. Ele só traz um certo "clima", uma sugestão. Agora imagina se Drummond coloca o termo "rocha"?! Não ia ficar diferente? Teria o mesmo peso de sentido que o poeta quis colocar? Não. Muito menos se fosse "No meio do caminho tinha um 'granito'". Ou "No meio do caminho tinha um 'mineral'". É por isso que no poema a seleção, a escolha das palavras são tão importantes.

O mesmo não se diria se eu escrevesse:

"O homem viu que seu armário estava vazio, saiu de seu apartamento, foi ao mercado e comprou comida. Depois o rapaz voltou para casa e guardou seus mantimentos na dispensa."

Isso é um texto em prosa, que criei agorinha mesmo. Veja quantas palavras são mudadas: homem/rapaz; armário/dispensa; apartamento/casa; comida/mantimentos. Todos esses pares de palavras são sinônimos. Percebe-se que um texto em prosa, que é mais linear, trabalha com mais força no eixo sintagmático, horizontal; percebe-se que a mudança de palavras por outros sinônimos não causa tantas mudanças de sentido quanto num poema, no qual a carga semântica é maior. É claro que se esse homem fosse um senhor ficaria mais estranho eu usar o termo rapaz. Como usar o termo mantimento já se aproxima um pouco mais do uso formal do que comida. Mais afastado e estranho seria se usasse "víveres" ou "ração", que seria um "sinônimo", já bem deslocado, de comida. Se estivéssemos numa guerra, talvez, ração fosse mais usado.

De qualquer modo, no texto da pessoa (outro sinônimo, diga-se de passagem) que vai ao mercado, o uso de sinônimos ajudou no processo de coesão do texto (na sua costura), evitando assim que repetisse a toda hora os mesmos termos, as mesmas palavras. Apesar de não ser tão perfeitos assim, por isso que os sinônimos têm seu devido lugar de estudo nos compêndios gramaticais. Ajuda-nos a apreciar um texto com mais conforto e clareza, comutando quando possível o uso lexical (de palavras). E sempre inserido no estudo da Semântica, chave de apreensão dos múltiplos significados do texto.


Prof. Ivonilton G de Souza

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