segunda-feira, 8 de março de 2021

Sobre ciência, sociedade e estudos da língua


Há muitos colegas, professores de Português e Linguística, que, talvez por influência do Estruturalismo (ou por uma postura científica, por um positivismo "isento" demais), são extremamente conservadores. Chomsky é uma excessão rara (e até contraditória, se confrontarmos seu ativismo com sua postura científica). 

Não basta estudar a língua somente em sua imanência, em seus pares opositivos, como bem queria Saussure e depois nessa mesma esteira Levy-Strauss na Sociologia, aniquilando com a história, fazendo dela um cristal. Ignorar a língua como uma troca social, pragmática, como labirintos psíquicos, com intenções discursivas, com seus vários falares (e disputas de classes até) é ignorar sua realidade viva e humana. Não há mais tempo para estudos da linguagem sem ser contextualizados socialmente. O Estruturalismo já produziu o que tinha que produzir, até Todorov sabe disso, fruto de uma guerra fria. Mesmo que tenha sido um movimento que descobriu um caminho próprio da ciência da linguagem - cuja importância não negamos -, nunca deixou de ser estéril. 

E aí caímos numa questão recorrente. Até que ponto foi realmente isento? Até que ponto muitos professores e pesquisadores da linguagem são isentos? Até que ponto a ciência é isenta? Não tomar partido da língua como atividade social é ser também político. Político de um establishment que a todo custo evita tocar no assunto, pois não pode ser derrubado. E assim cria-se - inconsciente ou mesmo intencionalmente - uma realidade abstrata em um mundo concreto.

Professor Ivonilton Gonçalves de Souza

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Alguns tópicos sobre a literatura de Machado de Assis e Rubem Fonseca


- Machado de Assis e Rubem Fonseca são escritores realistas. Ou seja, tratam das questões sociais da sociedade. Mas tratam no sentido de fazer o retrato das camadas sociais, dos interesses, do fingimento da sociedade e sua hipocrisia.

- Machado (segunda metade do século XIX) faz parte de um realismo psicológico. Assim seus personagens revelam dramas, contradições e incertezas interiores, trazendo riqueza a caracterização psíquica da mente humana, que é cheia de labirintos, fingimentos, dúvidas e até mesmo crueldade. Por isso seu personagens são redondos.

- Rubem Fonseca, escritor da segunda metade do século XX, traz em sua literatura algo chamado de "ultrarrealismo". Nesse sentido, as questões sociais como pobreza, crimes, ambição, perversidade, sexo, luta pela vida e etc são tratadas de maneira mais direta, crua e seca. Sem muitas entrelinhas, diferentemente de Machado. Mostra-se Rubem Fonseca mais objetivo, vai direto ao ponto. Por isso seus personagens são planos.

- Há uma tendência da literatura moderna, e sobretudo contemporânea, de tratar os personagens como anti-heróis. Isso vemos facilmente nos filmes onde os protagonistas não são mais os mocinhos mas os vilões. Muitas vezes é a justiça pelas próprias mãos que interessa. Quando não é mostrada a realidade de um personagem sem caráter e escrúpulos. É o que vemos em "Passeio noturno" de Rubem Fonseca. "Passeio noturno" e "Passeio noturno II", já que há outro conto com o mesmo personagem, que é de família de rica com uma vida aparentemente normal, mas que na verdade é um psicopata, pois tem como prazer assassinar mulheres atropelando-as.

- É digno de nota que em "Passeio noturno" há também uma relação simbólica e machista que relaciona o fato de ter um carro potente com a virilidade masculina. Associação que é muito comum encontramos no nosso dia a dia entre pessoas que ostentam "machismos".

- Em Machado de Assis os personagens não chegam a ser propriamente anti-heróis como na literatura contemporânea, mas são personagens sonsos, sarcásticos, ambiciosos, repletos de falhas morais, evidenciando o jogo de interesse e disfaçes do mundo burguês. Ele pouco trata da classe mais baixa, o que será feito exemplarmente depois no naturalismo de Aluísio de Azevedo e se radicalizando com Rubem Fonseca (ver conto "Feliz ano novo", onde os protagonistas são assaltantes, assassinos e estupradores). De qualquer modo, já em Machado é revelada crueldade humana. Só que de uma maneira mais sutil e irônica. Por isso é chamado de "O Bruxo".

- De maneira geral, a literatura realista (ou mesmo a autêntica literatura) não está interessada em fazer julgamentos, ditar verdades ou lições de moral. No caso da literatura realista, seu interesse é somente representar a sociedade e seus costumes de maneira fidedigna. Ou seja sem romantizar ou criar universos de esperança e salvação. Não está em pauta para a literatura discutir verdades porque isso seria papel da retórica, da filosofia, da ciência e das igrejas. Ela pode se limitar (e isso Machado fazia muito bem) a dar sugestões, e cabe ao leitor decidir qual caminho enveredar, cabe ao leitor tirar suas conclusões. Se ela é realista e cruel é porque o autor simplesmente está espelhando os costumes da época. O que aqui é dito se dá principalmente em Machado, pois dos escritores realistas era o mais ambíguo. Já a escola Naturalista, que vem logo depois, talvez já haja um propósito de verdade, de defesa de tese, pois já há um maior direcionamento para a crença na evolução das espécies, em certo biologismo e cientificismo. Mas isso é assunto para outra discussão. O importante é ter em mente que Machado de Assis e Rubem Fonseca retratam a realidade como ela é. E sabemos que mazelas e interesses fazem parte dela.


Prof. Ivonilton G de Souza


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

 Arcadismo: Cláudio Manoel da Costa



Tendo estudado com os jesuítas no Brasil Colônia e depois cursado Direito em Coimbra, Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) foi um poeta Árcade por excelência. Como proprietário de terras em Minas Gerais, que herdou da família já de volta ao Brasil, defendia,  muito além dos os valores iluministas, a não sobrecarga de impostos feita pela Metrópole, através do que ficou conhecido como Derrama. Ou seja, num momento em que a Côrte portuguesa passava dificuldades e o filões de ouro brotavam em Minas, ela passou a instituir fiscalizações e taxas abusivas em relação ao mineral precioso. Assim, por sua participação na Inconfidência Mineira - levante organizado por insatisfeitos com a política na colônia - acabou, ao que parece, cometendo suicídio na prisão.


Essas questões históricas são importantes para podermos avaliar o contexto em que se deu sua produção poética. Produção aliás que oscilava com imagens da Europa e imagens de Minas Gerais. De qualquer forma, como veremos no soneto a seguir, o que o poeta busca é um afastamento, uma procura campestre, uma nostalgia que revela uma fuga dos centros urbanos. Vejamos, portanto, um soneto:


Sou Pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;


Ali me ouvem os troncos namorados,

Em que se transformou a antiga gente;

Qualquer deles o seu estrago sente;

Como eu sinto também os meus cuidados.


Vós, ó troncos (lhes digo), que algum dia

Firmes vos contemplastes, e seguros

Nos braços de uma bela companhia;


Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


Ora, logo na primeira estrofe diz ser "Pastor" e, por isso, ter companhia "doce" dos "meus gados". 


Sou Pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;


Nesse sentido, era ideia dos Árcades (lembrando que o termo faz referência a montes pastoris na Grécia: Arcádia) a fuga para o campo. Essa fuga explica-se por um saturamento da vida urbana que, cada vez mais, crescia, se avolumava com a revolução industrial, propiciando assim uma certa contradição nos poetas, uma nostalgia, que ainda não chega a ser romântica, do passado. É por isso que "os troncos namorados" ouvem-no. E servem ainda como como consolo, pois, depois de invocá-los na terceira estrofe, na quarta diz:


Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


Ou seja, a melancolia, a saudade, o bucolismo são temas frequentes na poesia Árcade. Trata-se, como se pode ver, da alegria de "algum tempo", mas que "hoje os tratos de Amor choro perjuros".


Outro aspecto a ser observado na obra de Cláudio Manoel da Costa é sua concepção clássica de poesia. Apesar de encontrarmos ainda resquícios barrocos, pois muitas vezes o estilo árcade nele se encontra mais no tema do que na linguagem, não é intenção desses poetas em geral fazer uma poesia cheia de antíteses, rebuscamentos, preciosismos de linguagem como no Barroco. Vale lembrar que nessa época, de ascenção dos valores burgueses, a poesia palaciana - rica de ornamentos -, a poética ou obra de arte exagerada da Côrte ou da Igreja começaram a se saturar, a sair de prestígio. A tônica, portanto, é outra. Desse modo se valoriza mais a simplicidade, a lisura, a melodia "honesta" do poema, sem excessos.


Em algumas vezes Claudio Manoel da Costa se aproxima tanto de Camões que basta confrontar os versos de ambos:


Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.


(Camões)


Faz a imaginação de um bem amado

Que nele se transforme o peito amante;

Daqui vem, que a minha alma delirante

Se não distingue já foi meu cuidado.


(Cláudio Manoel da Costa)




É nesse sentido que os poetas dessa geração também são chamados de neoclássicos, pois absorvem toda corrente racionalista e de equilíbrio do Classicismo Renascentista. O que os diferenciam é darem um colorido campestre e de fuga ao novo estilo.


Em Cláudio Manoel da Costa esse colorido fica dividido entre a paisagem de Portugal, onde ele estudou direito, e do Brasil, conforme esses versos que acabam por atestar o colonialismo brasileiro:


Correi de leite e mel, ó Pátrios rios,

E abri dos seios o metal guardado;

Os borbotões de prata, e de oiro os fios

Saiam de Luso a enriquecer o estado.


(Canto Heróico)


Assim, o oiro (ouro, no portugês atual) e a prata só podem estar se referindo a atividade de mineração no Brasil, mas que serviam para "enriquecer o estado" lusitano, ou seja, a metrópole portuguesa. 


Canta Cláudio Manoel da Costa também às suas musas. Eulina, Daliana, Antandra, todas idealizada como pastoras. E isso representa novamente o seu desejo de evasão para montanhas calmas e serenas. É bom lembrar que no Arcadismo a natureza representa a razão, o equilíbrio, o meio termo clássico. Nesse sentido as paixões são sempre tratadas de maneira suave e idílica. É o que se vê neste soneto em que procura sua musa:


Nise? Nise? onde estás? Aonde espera

Achar te uma alma, que por ti suspira,

Se quanto a vista se dilata, e gira,

Tanto mais de encontrar te desespera!


Ah se ao menos teu nome ouvir pudera

Entre esta aura suave, que respira!

Nise, cuido, que diz; mas é mentira.

Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.


Grutas, troncos, penhascos da espessura,

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,

Mostrai, mostrai-me a sua formosura.


Nem ao menos o eco me responde!

Ah como é certa a minha desventura!

Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?


São por esses poemas e outros  (inclusive narrativos, que a crítica não acolheu tão efusivamente como a Fábula do Ribeirão do Carmo e o épico Vila Rica), que Tomás Antônio Gonzaga, outro poeta árcade, o via como mentor da arte de escrever. Arte essa aliás que já era ensinada em manuais de poética como a "Art Poétique", de Boileau, ou aqui entre os ibéricos (Espanha e Portugal) Ignácio de Luzán e Francisco José Freire (Cândido Lusitano), que mais tiveram penetração entre nossos poetas. Todos esses tratados de poética tinham como prioridade a natureza, a simplicidade, a razão e o equilíbrio das formas. Tudo isso com uma certa idealização platônica da beleza, ou seja, uma sublimação do belo. Assim une-se o belo e o agradável. E é nas palavras de Luís Antônio Vernei, em um tratado pedagógico que já afasta o valores barrocos e jesuítas, que vemos isso com mais clareza, pois "um conceito que não é justo, nem fundado sobre a natureza das coisas, não pode ser belo, porque o fundamento de todo conceito engenhoso é a verdade".


Assim, a poesia de Cláudio Manoel da Costa  (ou Glauceste Satúrnio, codinome que assumira para si) cumpre todos esses requisitos propostos pelos manuais de versificação da época. Sem dúvida uns dos melhores da nossa literatura. Literatura essa que, se ainda não se consolidava como autenticamente nossa, começa a colher frutos de originalidade a partir do período Árcade, cuja univocidade das imagens e sentimentos ainda se dividem com os de Portugal, mas aos poucos amadurecem.


Prof. Ivonilton G de Souza


 O Arcadismo


Vimos que a Literatura passa por vários ciclos que ora se apresentam de maneira mais objetiva, clássica e ora se apresentam de maneira mais subjetiva, simbólica. Assim é que temos na história da literatura ocidental moderna e contemporânea o Classicismo, o Barroco, o Arcadismo, o Romantismo, o Realismo e o Parnasianismo, o Simbolismo, o Pré-modernismo, o Modernismo (subdividido em várias fases) e a literatura contemporânea, ou pós-moderna. Desse modo, o Brasil sempre vai acompanhar essas tendências vindas da Europa. O que era de se esperar já que aqui continuamente fomos colônia. Mesmo com o Romantismo, época da independência política e de maior caracterização dos nossos valores culturais, ainda sempre seremos muito subservientes aos modelos vindos de fora.


Feitas essas primeiras considerações, vamos nos deter mais no nosso assunto específico do momento: o Arcadismo. Esta escola literária, com seu estilo próprio (ou seja, um mesmo padrão estético), vai surgir com o esgotamento do Barroco e a necessidade de se renovar a literatura. Ocorre que essa renovação vai buscar inspiração nos modelos clássicos. Isso significa que não é uma volta necessária ao Classicismo (que, aliás, aqui no Brasil nem houve), entretanto, é um reavivamento de suas concepções de arte. E quais eram essas concepções? Culto a forma, racionalismo, equilíbrio, retomada de deuses pagãos, inspirações greco-romanas etc.


Mas, em contraparte, o que havia de diferente nessa concepção de arte? Havia fuga para o campo, nostalgia, bucolismo, ideias iluministas etc.


Assim, é uma poesia que reflete os novos tempos. Alinhada aos acontecimentos do século XVIII. Ora, basta só dizer que foi neste século que tivemos a Revolução Francesa, em 1789, tivemos a Independência norteamericana, em 1776, e aqui no Brasil tivemos a Inconfidência Mineira, movimento separatista que culminou com a morte de seus rebelados, entre eles, o mais conhecido: Tiradentes. Conta ainda o fato que em torno deste século das luzes (movimento iluminista) houve um incremento nos grandes centros urbanos, o Absolutismo e o poder secular da igreja católica começavam a enfraquecer e a primeira revolução industrial dava passos largos, extinguindo sistemas artesanais de produção e incrementando a produção industrial, principalmente voltada aos tecidos. Diante disso, o feudalismo cedia aos novos tempos. E que tempos eram esses? Eram os ideais republicanos, de democracia, de direitos humanos universais, de equilíbrio entre os poderes. Com isso a burguesia estava cada vez mais pronta para se alçar no comando da história, era chegada a sua hora. É claro que isso não se deu da noite para o dia, houve idas e vindas, resistências, guerras. Mas era cada vez mais evidente que o feudalismo estava com seus dias contados, que mais cedo ou mais tarde a antiga nobreza teria que ceder. E o marco simbólico (pela grandeza do acontecimento) está na Revolução Francesa. Movimento que irá se propagar, através das conquistas napoleônicas, por toda Europa. É dela que tiramos a famosa frase que está no inconsciente coletivo de qualquer um hoje em dia: Igualdade, Liberdade e Fraternidade.


Assim, como veremos adiante a concepção da plêiade (grupo de poetas e intelectuais) Árcade se coadunava com esses valores humanísticos do iluminismo, que almeja chegar a uma concepção Universal do homem, através de filósofos divulgadores como Montaigne, Voltaire, Rosseau, Diderot, Locke, Thomas More e tantos outros no cenário europeu. Aqui no Brasil Colônia houve um influxo dessas idéias, que, aliás, eram sempre vigiadas e repreendidas pela côrte portuguesa. Apesar de ter havido um Marquês de Pombal, cujas medidas administrativas já traziam as novas concepções, mesmo que timidamente. Afinal é tudo um espírito de época. E por isso mesmo tivemos grandes poetas (e igualmente "conspiradores") como Thomaz Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e mais uns tantos de menor envergadura. Em suas poesias estão sempre presentes a fuga para o campo, a nostalgia, a sátira (invariavelmente disfarçada), o equilíbrio formal, a racionalidade iluminista. Enfim, tudo isso veremos com uma lente de aumento e exemplificaremos com os textos desses ilustres escritores no próximo ítem. 


Prof. Ivonilton G de Souza

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Impessoalidade no discurso: a "fala"  institucional, a terceira pessoa do singular com índice de indeterminação "se" e a terceira do plural


Num discurso objetivo é importante demonstrar impessoalidade e isenção. Mas primeiro, pergunta-se: o que é discurso objetivo? E em segundo lugar: o que é impessoalidade?


Bem. Discurso objetivo é aquele que traz uma marca de um suposto distanciamento pessoal do que se quer falar. "Suposto" porque, mesmo que haja impessoalidade (afastamento em relação a opiniões próprias), é de se questionar se não há sempre um interesse pessoal sobre o tema tratado com tanta objetividade. Mas isso é uma questão que não vem ao propósito deste texto. Assim, conforme íamos dizendo, o discurso objetivo busca uma isenção e imparcialidade que são típicas de textos que, antes de falar em tom próprio e subjetivo, falam em nome de uma instituição. Essa instituição pode ser uma comunidade científica, uma empresa, uma fundação etc., como neste trecho de um comunicado da Fiocruz:


"A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) esclarece que é falsa a mensagem que vem circulando no WhatsApp e em redes sociais, atribuída à instituição, com orientações de como se proteger contra a Covid-19."


https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-esclarece-informacoes-falsas



Desse modo, o discurso objetivo é muito encontrado em textos científicos, técnicos, documentos de empresas, comunicados institucionais etc. Assim, como neste da Fiocruz, rapidamente observamos que em seu texto sempre se coloca numa posição "de fora", usando a terceira pessoa: "A Fundação Oswaldo Cruz...". Por isso 3a pessoa, onde o termo "Fundação Oswaldo Cruz" pode ser comutada pelo pronome do caso reto "Ela".O que há, portanto, é uma "fala" em nome da instituição.


Com essas pistas, já podemos averiguar com mais profundidade o que significa impessoalidade. Ora impessoalidade é todo discurso, como o nome o diz, que não é pessoal. E não sendo pessoal é quase nula a carga afetiva, os apelos emocionais, as figuras de linguagem (duplo sentido, metáfora, hipérboles, ironias etc). Por esses motivos que obedecem à uma função referencial da linguagem, ou seja, é essencialmente uma manifestação denotativa. Objetiva e direta, portanto. E podemos ir além, dizendo que, já que não trazem no seu bojo sentimentos pessoais e opiniões, fogem totalmente do senso comum. Senso comum nada mais é que a opinião particular e popular (a conversa - se assim podemos dizer - da feira, do bar, com os vizinhos), sem fundamento científico. Seja ele lógico-racional ou empírico (de experimentos observáveis). Podemos matizar essas diferenças com  dois exemplos:



a) 


"Ele faz é bem; mesmo se o médico chegasse a falar, eu usaria. Se eu tivesse certeza que algum remédio caseiro ia ajudar, eu usaria; teve uma vez que um médico disse que eu não devia tomar garrafada e uns chás porque podia fazer mal, mas eu não parei e melhorei meu problema de bronquite sim."


SIQUEIRA, Karina Machado et alli. "Crenças populares referentes à saúde: apropriação de saberes sócio-culturais". http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072006000100008



b)


Os efeitos terapêuticos e tóxicos das plantas são conhecidos desde as épocas mais remotas, sendo um capítulo importante da Toxicologia. Atualmente muitas pesquisas são realizadas buscando conhecer os princípios ativos das plantas para fins terapêuticos. Muitas dessas plantas podem determinar quadros tóxicos a depender da quantidade, parte da planta utilizada, forma do contato, cutâneo ou ingestão, dentre outros fatores. No Estado da Bahia, foi registrado no período 1997-1999, 336 envenenamentos por plantas, representando apenas 2,35 % do total de casos, com 2 óbitos, causados por Nerium oleander (espirradeira), largamente encontrada nos jardins de residências, e Manihot utilíssima (mandioca-brava), também muito comum em nossa região. As crianças de até 9 anos foram as maiores vítimas - 54,43%. Em 2006 registrou 185 casos, representando 2,8% dos casos (RODRIGUÊS, et al.,2009, p. 42).


COSTA, Tatiane Oliveira; ALMEIDA, Obertal da Silva. "O conhecimento popular e o risco de intoxicação por ervas medicinais": https://www.efdeportes.com/efd194/o-risco-de-intoxicacao-por-ervas-medicinais.htm



Como se vê, são textos bastantes diferentes. O primeiro (a) é um relato de uma pessoa feita para uma pesquisa. E, conforme observamos, patenteia-se uma linguagem oral e em tom de conversa, com opiniões bem próprias, que carecem de base científicas. Já o segundo (b) busca uma informação mais precisa, pois cita dados estatísticos além de bibliografia, ou seja, orienta-se em outros estudos. É, portanto, um artigo científico, cuja objetividade, clareza, documentação e isenção são fundamentais. Assim, em nenhum momento o discurso deverá estar em primeira pessoa. Bem diferente aliás do texto (a), no qual se observa: "eu usaria...", "se eu...", "eu não devia...", "eu não parei...", "meu problema...". Concluindo: o texto (a) tem como base o senso comum e o (b) o método científico.


Apesar de serem rigorosas, as questões científicas nem sempre são eternas, pois podem haver outros estudos que mudem os rumos do pensamento até então em vigor. Tanto o é que o tratamento fitoterápico (por plantas), ainda que com restrições, já é admitido por conselhos de medicina, pois alguns trabalhos alegam que facilitaria ao atendimento, com alguma eficácia, de camadas mais carentes da população. E, diante disso, fez-se estudos também com a população que usa esses medicamentos fitoterápicos, justamente para mapear a classe econômica, a escolaridade e os objetivos de quem os usa. E mais uma vez temos uma linguagem isenta. Confira um:


c)


"Verificou-se neste estudo que 96% dos entrevistados escolheram plantas medicinais como a principal terapia entre os remédios caseiros. Neste sentido, dados da OMS informam que, na busca pelo bem estar e qualidade de vida, as plantas medicinais tornaram-se uma alternativa pela sua credibilidade terapêutica e baixo custo."


ZENI, Ana Lúcia Bertarello et al. "Utilização de plantas medicinais como remédio caseiro na Atenção Primária em Blumenau, Santa Catarina, Brasil": https://www.scielosp.org/article/csc/2017.v22n8/2703-2712/


Como se verifica, este texto vai investigar dados da população que usa plantas medicinais. É comum no universo acadêmico surgirem pesquisas em cima de outras. Mas o que importa para nosso estudo é o tratamento linguístico dado ao texto. Por isso, observem logo no início do fragmento (isso é de suma importância). É utilizado o verbo "verificar" na terceira pessoa do singular com a partícula "se": "verifica-se" E o que significa isso? Significa que essa maneira de usar o verbo indica uma imparcialidade, pois fala-se em nome de uma pesquisa. Os dados são mais importantes que a opinião. O autor confere assim um gesto de "afastento". A pesquisa, nesse sentido, diz mais que a pessoa, mesmo que tenha sido feita por pessoas. O que, naturalmente, traz um ar de "humildade", de discrição. A entidade, a instituição, a ciência diz por si próprio.


Dessa maneira, a terceira pessoa do singular, combinada com o índice de indeterminação do sujeito "se", deixa a oração sem sujeito, neutralizando, desse modo, uma eventual opinião própria. Conforme esses exemplos:


Estuda-se muito o  corona vírus hoje em dia.


Fala-se que muitas pessoas foram curadas.


Comenta-se em universidades questões de bioética.


Namora-se muito no verão.


Ora, está bem claro que há uma "indeterminação" do ser que "estuda", "fala", "comenta" e "namora". Por isso a partícula "se", sempre aliada ao verbo na terceira pessoa do singular, dará indeterminação ao sujeito. Este é um dos casos (excessões) no qual a oração é sem sujeito, porque ele não aparece materialmente na oração. Lembrando que quando dizemos "materialmente" estamos queremos dizer sintaticamente, formalmente.


É importante não confundir estas frases com esta outra: "Vendem-se casas". Aqui o sujeito está expresso. É o termo "casas". Ao colocarmos em outra ordem, fica mais explícito: Casas vendem-se. Então, a partícula "se", neste último exemplo, é um pronome reflexivo. E a frase está na voz passiva sintética, ou seja, uma ação que sai e retorna ao próprio ser,  como em "Vesti-me com pressa". (Em outra oportunidade estudaremos isso com mais calma.)


Outra possibilidade de dar impessoalidade ao discurso, deixando o autor (ou autores) em posição mais modesta que o próprio texto (que se corporifica numa verdadeira entidade) é o uso da primeira pessoa do plural:  "[Nós] pesquisamos o assunto", por exemplo. Vejamos:


Nesta pesquisa, verificamos as causas do problema ecológico no Brasil.


O propósito neste trabalho é encontramos soluções para o tratamento da dependência química.



Mas essa forma, de usar o verbo com impessoalidade, não se resume a trabalhos científicos, pois é também encontrada de maneira mais ampla, quando não há identificação do sujeito na estrutura da frase:


Aplaudiram o jogador quando entrou em campo.


Roubaram meu carro.



Nesses exemplos também temos uma oração sem sujeito, já que não se determina sintaticamente quem o é. Evidentemete que podemos supô-lo através do sentido como em "Aplaudiram o jogador...", mas ele, o sujeito, não se presentifica na estrutura da oração, tal como verificamos com os exemplos da partícula "se" como índice de indeterminação do sujeito. 


Vale lembrar ainda que a leitura dessas frases como sujeito indeterminado vai depender do contexto. Pois pode tratar-se de um sujeito oculto ou desinencial quando a situação é mais clara como em:


Como os alunos estão doentes, faltaram a aula. 


É evidente que o sujeito (oculto mas representado pela desinência verbal "faltarAM") é "alunos".


Pois bem. Há uma preferência em trabalhos formais, ou melhor, acadêmicos em utilizar-se a terceira do singular com "se", mas a outra via ("estudamos", por exemplo) também é possível.


Com isso, chegamos às seguintes conclusões:


- o texto objetivo usa uma linguagem isenta;


- são textos que se sobrepõem a autoria (que, apesar da importância, permanece em postura modesta);


- englobam textos científicos, relatórios, textos jurídicos etc;


- são textos com a variante formal/culta/exemplar da língua;


- referem-se a instituições, órgãos etc, colocando-os como vozes superiores e destacando-os na terceira pessoa.


- expressam-se pelo uso da 3a pessoa do singular com o índice de indeterminação "se" ou pela 1a pessoa do plural, formando orações sem sujeito; e


- são textos bastante padronizados.



Enfim, podemos encontrar discursos com gradações entre pessoalidade e informalidade. Os ensaios (tipos de textos acadêmicos mais livres) podem nos dar bons exemplos. Aliás, por mais que haja protocolos de escritas oficiais, nunca se elimina de vez o estilo pessoal. Claro que obedecendo a certos limites, caso contrário há o risco de se fugir completamente ao contexto e ficar deslocado do meio que se está utilizando para comunicar algo. 


Aliás, fica a pergunta, que pode ser até estranha, mas pertinente: o texto literário, por mais que tenha mais liberdade estilística (pessoal), também não se serve a certas convenções? O uso de metáforas, de imagens, de sonoridades. Por isso, o que faz de um texto literário de boa qualidade é a fuga de imagens já cristalizadas, ou seja, pré-concebidas e desgastadas pelo tempo. Sim, se for bom, é evidente que a liberdade é infinita. Liberdade, ressaltamos, que tende, por sua própria natureza, ser maior do que uma tese científica ou um tratado de medicina, por exemplo. Mas nestes últimos, mesmo havendo limitações convencionais, a boa instrumentalização da língua e um estilo próprio e elegante pode, além de trazer clareza, dar prazer na leitura, por mais que o tema seja árido.


Prof. Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

A coesão em exemplos e algumas palavras a mais



Conforme vimos em lições anteriores, a coesão é responsável pelo encadeamento discursivo com suas remissões (retomadas) ao já dito, suas projeções, seu encadeamento racional, portanto lógico. Cumpre, dessa maneira, o papel de "costurar" o texto, de "amarrá-lo", preenchendo eventuais lacunas. Delineia o pensamento com ritmo, pausas, idas e vindas, recuperando o que foi falado e preparando o que está por vir. Além de sugerir, "emendar", acrescentar, e até mesmo dar um toque estilístico, pessoal e esclarecedor com o valioso auxílio dos OPERADORES ARGUMENTATIVOS tais como "desse modo", "a propósito", "aliás", "de acordo com essa afirmação", "diante disso", "bem o sabemos" etc.


Já a coerência é o correspondente da coesão em significado. Desse modo, os termos usados na coesão devem ter um  significado adequado à ideia proposta do enunciador. E claro, não podemos esquecer também que, quem profere um discurso, deve levar em conta o meio por qual profere e quem são seus receptores (quem vai recebê-lo). Por isso, se estou falando (por meio oral, entende-se) numa situação informal e para amigos do convívio familiar, é até mais adequado usar a conjunção popular "aí" do que usar "por conseguinte". Portanto, o significado norteia a expressão a ser usada. Não só nesse sentido, mas também e principalmente para se obter a própria coerência em si. Se não, veja:


No almoço como bastante, PORTANTO sou magro.


Ora, não há algo estranho nesta frase? Evidentemete que sim. Espera-se, pois, que quem coma muito não fique magro, porém gordo. Diante disso, temos uma falta de coerência ao usarmos o conector "portanto". E qual seria a conjunção mais adequada? Seria, já o vimos no outro trabalho, a conjunção adversativa "mas", "porém", "contudo", "todavia"... Assim:


No almoço como bastante, PORÉM sou magro.


Enfim, faltou clareza no raciocínio, faltou coerência, porque não foi selecionada a conjunção adequada. Só poderíamos aceitar a hipótese dessa frase estar certa, e portanto coerente, se a se situação em que se deu fosse uma piada e o enunciador flertasse com a ironia. Ou seja, se houvesse uma linguagem conotativa, se houvesse, para concluir, um recurso estilístico-expressivo, como muitos poetas e artistas das palavras sabem bem usar.


Bem. Feitas essas observações preliminares, vamos passar a elencar as principais conjunções e seus respectivos significados dentro dos períodos compostos. Basicamente se dividem em dois grupos: o das orações coordenadas (sintaticamente independentes) e o das orações subordinadas (ou dependentes).


Orações coordenadas


- Conjunções aditivas. São aquelas que incluem um ou mais ítens à principal. Representadas por: "e", "nem...nem", "não... nem", "não só... mas também" (ênfase).


a) Carlos cuida da casa e Maria trabalha fora.


b) Nem sabe falar inglês nem francês.


c) Não joga vôlei nem basquete.


d) Não só estuda mas também dá aulas. (Neste exemplo é evidente que o par "não só... mas também" enfatiza o enunciado.)


- Conjunções adversativas. Este grupo de conjunções tem como significado ligar a oração anterior, contudo negando-a. Assim cria-se uma oposição à ideia expressa anteriormente. São elas: "mas", "contudo", "porém", "todavia", "entretanto". Ex.:


a) Acordei muito cansado, mas fui trabalhar.


b) O país vive num momento inseguro, contudo nos resta esperanças.


c) Economizo dinheiro, porém sempre me falta para pagar as contas.


d) A cidade grande é violenta, entretanto ainda há lugares calmos.


- Conjunções alternativas. São aquelas que excluem uma das possibilidades do grupo. Indicadas por "ou", "ou...ou", "seja...seja", "quer... quer", "ora...ora" etc


a) Você estuda ou trabalha?


b) Ou você prática esporte ou vai ter problemas de saúde.


c) Seja rico seja pobre o importante é ser honesto.


d) Quer vençamos o jogo quer percamos o importante é não desistir.


e) Ora você está feliz ora você é só tristeza.


- Conjuncões conclusivas. Remetem-se ao término da proposição, concluído algum raciocínio. Eis algumas: "logo", "portanto", "por isso", "por conseguinte" etc.


a) Penso, logo existo. (Descartes)


b) Todo homem é mortal; Sócrates é um homem; portanto Sócrates é mortal.


c) Estudei bastante, por isso passei na prova


d) A média da temperatura mundial está subindo, porconseguinte as geleiras vão derreter.


- Conjunções explicativas. Tem o papel de justificar a primeira oração. São algumas: que, porque, pois etc.


a) Acorde cedo amanhã, que vamos viajar.


b) Não falte o trabalho, porque há muitos desempregados querendo seu emprego.


c) Não gaste todo dinheiro, pois não se sabe o dia de amanhã.


Orações subordinadas


- Conjunções concessivas. São as que não impedem que algo se realize. Ei-las: "apesar de", "embora", "mesmo que", "não obstante" etc


a) Apesar de estar frio, não vou sair de casaco.


b) Embora sejamos um povo trabalhador, não somos ricos.


c) Mesmo que tenha propósitos firmes, me deixo seduzir pela vaidade.


d) Não obstante ter realizado todos meus desejos, não ou feliz ainda.


- Conjunções condicionais. São termos que introduzem possibilidades, dúvidas, hipóteses: "se", "caso", "a menos que", "salvo se", "a não ser que".


a) Se você tocasse o instrumento, eu teria cantado na festa.


c) Caso você decida ir ao teatro, eu vou também.


d) A menos que o nosso time não jogue, eu estou decidido a entrar em campo.


e) Salvo se reivindicar melhores salários, não teremos aumento.


f) A não ser se ele for generoso, nunca vai nos pagar melhor.


- Conjunções finais. Indicam a finalidade máxima de alguma ação: "para que", a fim de que", "porque", "com o propósito de" etc.


a) Estudo bastante para que possa passar de ano.


b) A fim de que nossa relação seja solucionada, falei com meu advogado.


c) Treino muito, porque quero vencer o campeonato.


d) Acordo cedo com o propósito de não me atrasar ao trabalho.


- Conjunções temporais. Como o nome já o diz, introduzem subordinadas relacionadas a tempo. São algumas: "quando", "antes que", "depois que", "enquanto", "desde que" etc.


a) Quando a quarentena terminar, iremos num baile.


b) Antes que anoiteça, termine suas obrigações.


c) Depois que nos casarmos, seremos mais felizes.


d) Enquanto o país não resolver o problema da fome, não se fala em desenvolvimento humano.


e) Desde que você foi embora, não consigo dormir bem.


- Comparativas. Iniciam uma oração que comparam algo na oração anterior. Representadas por: mais... (do) que", "tanto... quanto", "como", "assim como" etc.


a) O mar é mais perigoso do que a floresta.


b) Ele é tanto inteligente quanto bonito.


c) O pássaros cantam como se estivessem executando uma sinfonia.


d) Assim como o amor dos filhos aos pais é importante, a educação dos pais aos filhos é fundamental.


- Consecutivas. Iniciam uma oração que dá sequência a algo iniciada na primeira. Alguns elementos coesivos são: "tão... que", "tal... que", "tão...de sorte que"etc.


a) Fez tão rápido a tarefa que ainda deu tempo de sair para jogar bola.


b) Discursou de tal maneira, que foi aplaudido.


c) Ensinou tão bem aos alunos de sorte que foi aplaudido ao final da aula.


- Integrantes. São aquelas que vão formar orações subordinadas com valor de objeto direto, objeto indireto,  predicativo do sujeito, complento nominal e aposto. Formadas por: "que" (precedido ou não de preposição) e "se".


a) Desejo que vença. (objeto direto).


b) Não sei se te amo. (objeto direto)


c) A felicidade depende de que estejamos bem consigo mesmo. (objeto indireto)


d) A luta pela vida é que nos move. (predicativo do sujeito)


e) O desejo de que venças é constante. (complemento nominal)


f) Faça o bem: que é excelente ideia. (aposto)


- Conformativas. São orações subordinadas que encerram uma ideia de conformidade com a principal. São encabeçadass pelas conjunções: "segundo", "conforme", "consoante", "como" etc.


a) Segundo me disseram, os Estados Unidos são extremamente capitalistas.


b) Conforme está escrito na Bíblia, devemos amar uns aos outros.


c) Consoante ao que foi dito nos autos do processo, não há indícios de crime no réu.


d) Como se sabe, o sol é uma estrela de quinta grandeza.


- Proporcionais. São as orações que registram algo que está acontecendo ou irá acontecer em relação ao enunciado da oração principal. Alguns elementos são: " à medida que", "ao tempo que", "quanto mais... menos" etc.


a) À medida que o desemprego cresce, a população se revolta.


b) Ao tempo que vou te amando cada vez mais, você vai me desprezando.


c) Quanto mais se pesquisa, mais se transforma a sociedade.



Essas são as principais conjunções e suas respectivas orações (claro que a lista pode se estender). Vale ressaltar que neste trabalho tomamos como base o livro de Celso Cunha e Lindley Cintra: "Nova Gramática do Portugês Contemporâneo". Mas algumas lacunas ainda podem ser preenchidas, já que, claramente, esta gramática traz uma exposição bem resumida do assunto e com intenções normativas e didáticas.


Por isso, se nos determos com mais acuidade, veremos que muitas das conjunções ou das chamadas LOCUÇÕES CONJUNTIVAS (ou seja, a reunião de duas palavras para formarem uma unidade) são, na verdade, provenientes de outra natureza gramatical. Assim é que podemos ter advérbios em "Assim que terminou o exercício, foi jogar bola" ("assim", advérbio); preposições em Arrumou-se para ir à festa ("para"); advérbios e conjunções em "Ainda que seja feliz, falta-me algo" ("ainda que", advérbio e conjunção)";  preposição + advérbio em "Fiz tudo, contudo estou triste" (com+tudo, preposição e advérbio); ou mesmo verbo como em "Seja culto seja humilde, o importante é ser honesto" ("seja...  seja", verbo). Desse modo, já podemos vislumbrar que muitas palavras podem adquirir, de acordo com o sentido do texto ou mesmo com o passar do tempo - com o  "evoluir" da língua -,  um deslocamento semântico, podem adquirir outra função, enfim; acomodando-se, dessa maneira, a uma outra realidade linguística e discursiva. Mas tudo isso veremos em outra lição.


Prof. Ivonilton G de Souza


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Coesão: o encadeamento lógico do texto


Em coesão referencial vimos que há palavras que retomam outras, "costuramdo" o texto sem repetições desagradáveis e, por isso mesmo, trazendo mais concisão e elegância. São os pronomes demostrativos (este, isso, aquilo etc), os pronomes pessoais (ele, nós, lhe, te, o etc), os sinônimos e mesmo as "ausências" podem marcar uma coesão referencial (indicada muitas vezes já pelo contexto e/ou uma desistência verbal. Ex.: "Cantei ontem"; logo: "[Eu] cantei ontem").

No estudo que se segue agora vamos ver o processo de coesão no seu aspecto lógico e sintático-semântico da frase, ou melhor, período - para colocarmos as coisas nos seus termos certos.

Sim, amigos, período (e de preferência período composto). Por quê? Porque é no período composto que utilizamos com mais frequência as CONJUNÇÕES. E o que são conjunções? Conjunções, como vimos na outra aula, são termos que vão ligar diversos elementos do texto, deixando-os unidos numa lógica COERENTE. Assim, é bom rever antes o que é frase, período simples e período composto.

Frase é qualquer sentença iniciada por maiúscula e terminada por ponto com sentido completo: Ex.:
 
Ai!

Tô cansado.

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Você foi ao colégio hoje?

Já o período é a frase dotada de verbo (não confunda: em "Ai!" não temos verbo), por isso é considerado também como oração. Se há uma só oração é período simples, como em:

Cheguei cedo ao trabalho. (Um só verbo; período simples)

Se há mais de uma oração é período composto (ou complexo):

Andei, corri e nadei. (Aqui há três verbos; portanto, três orações.)

Ainda que chova, vou viajar. (Duas orações.)

Bem. Isso foi só para refrescar a memória. Mas já posso aproveitar dois dos nossos exemplos para dar início ao nosso assunto. O primeiro a ver é o período composto:

Pedalei, corri e nadei.

Repare que são três verbos (portanto três orações) e só entre o penúltimo e o último separamos com o termo "e". E o que faz esse termo aí? Simples. Esse termo vai ser um elo, entre a oração precedente "corri" com a última "e nadei". Portanto é uma CONJUNÇÃO. Mas não basta só dizer que é uma conjunção. É também uma CONJUNÇÃO ADITIVA. E isso fica bem claro quando percebemos que a partícula "e" tem o papel semântico de adicionar mais uma atividade física praticada pelo interlocutor. Diante disso, em "corri" temos uma oração assindética, pois foi separada pela primeira por vírgula e em "e nadei" temos uma oração sindética, já que a passagem da segunda oração para esta última foi feita por tal conjunção.

É importante salientar que o uso da conjunção deve ser adequado; se não, tira o sentido lógico da frase, pois se colocássemos "mas" em vez de "e" tudo ficaria muito estranho e sem sentido: *Pedalei, corri, mas nadei. Não fica estranho? Sim, claro que sim. Já que vínhamos tendo uma sequência de coisas relacionadas a esporte, não faz sentido colocar o "mas".

Por quê? Porque o "mas" é outra conjunção, com outro significado. Temos, pois, aqui uma conjunção adversativa, que serve a outros propósitos, como no outro exemplo citado: 

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Ora, agora sim o "mas" encontrou seu lugar certo. Já que se esperava, ao contrário de Carlos e Joana, que ela que NÃO fosse feliz - afinal passaporte de felicidade na sociedade em que vivemos é ter um relacionamento amoroso, por mais que haja gente que não pensa assim; mas essas pessoas creio que seja a minoria. Percebem agora de onde vem o termo CONJUNÇÃO ADVERSATIVA? Nessas conjunções há, como indicado, uma adversidade. Ou seja, vão contra uma ideia anterior, frustrando expectativas. Assim, em

Maria foi à praia, mas choveu

temos, no início da segunda oração, uma conjunção adversativa, fazendo dessa oração uma ORAÇÃO COORDENADA SINDÉTICA ADVERSATIVA. Oração, porque possui um verbo; coordenada porque mantém uma independência sintática com a primeira (podendo até ser dividida por ponto); sindética, porque sua passagem em relação à antecedente se faz por conjunção; adversativa porque quebra a ideia da primeira oração. E qual é a ideia da primeira? Ora, é ir à praia para pegar sol, MAS aconteceu uma adversidade: choveu.

Desse modo as conjunções e os conectores vão "costurar o texto", encadear sua lógica, fazendo com que haja uma progressão de ideias. Ideias essas que vão - de acordo com a fluidez do pensamento - se concatenado, vão tecendo suas teias. É possível colocar "Maria foi à praia. Choveu"? Claro que é... Mas deixa de ter coesão e perde certa clareza da expressão. Além de indicar uma certa descontinuidade do pensamento. Claro, se o propósito é estilístico, tudo bem! Se um escritor quer tratar a vida de um trabalhador de maneira mecânica e representar isso na estrutura, na forma do seu texto, tudo bem. Dará até mais sentido a sua técnica - como neste pequeno exemplo criado por mim:

João acordou às 5. Se vestiu. Tomou café. Pegou o ônibus. Martelou, martelou, martelou. Almoçou. Arrotou. Trabalhou. Trabalhou. Trabalhou. Ônibus. Bebeu. Riu. Cuspiu. Casa. Brigou. Dormiu. Às 5 acordou...

Seguindo ainda o roteiro de exemplos que dei no início, vamos ver o período complexo (composto)

Ainda que chova, vou viajar.

Já sabemos que há nesta frase duas orações. Mas aqui temos uma oração principal "Vou viajar" e a oração subordinada "Ainda que chova". Pois bem. É subordinada porque depende sintaticamente da primeira, pois indica uma CONCESSÃO desta, algo que não serve como obstáculo a realização do termo principal. Haja visto que, mesmo "chovendo", nada impede que a viagem seja feita. Por isso então que o sentido fica muito semelhante a essas:

Mesmo que chova, vou viajar.

Apesar de chover, vou viajar.

Ou até em:

Chovendo ou não, vou viajar.

Ora, se temos uma oração concessiva, logo a conjunção que se encontra nela é uma CONJUNÇÃO CONCESSIVA também, a saber: "Ainda que...". É esta partícula que vai fazer o nexo com a oração principal e dar o sentido que vimos. Pode ser comutada, conforme já vimos respectivamente, por "Mesmo que..." e "Apesar de...".

Já na frase "Chovendo ou não, vou viajar" não há textualmente uma conjunção, mas denota uma concessão, pois já vimos seu valor aproximativo com as anteriores.

Para concluir estas breves palavras sobre conjunções, observemos detalhadamente a frase acima citada:

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Há nesta frase quatro orações:

1°: Carlos era casado;

2°: Joana namorava;

3°: Mas só Maria [...] era feliz;

4°: que nunca teve ninguém.

Na primeira temos a oração inicial. Na segunda, como não há conjunção, temos uma oração coordenada (independente) assindética à primeira. Na terceira, temos a conjunção "mas" com valor adversativo (de oposição de ideia) à oração (ou mesmo o todo) anterior, por isso é uma oração coordenada sindética adversativa. Mas repare que no meio desta há uma outra (a quarta) que se subordina a ela e ligada pelo CONECTIVO "que". Repare que dissemos conectivo, não conjunção. Isso se explica porque essa partícula é, na verdade, um pronome. É só desdobrar que tudo fica mais claro.

Maria era feliz. Ela [Maria] nunca teve ninguém.

Viram?... O "que" da oração "que nunca teve ninguém" é um PRONOME RELATIVO, pois substitui Maria (faz referência a). Por isso, faz parte do processo coesivo também, evitando a repetição do termo anterior e unindo (assim conector) os períodos ou orações. O que faz dessa oração ser subordinada é o fato de ter dependência da principal "...mas só Maria era feliz".

Mas, seguindo os conselhos do mestre Tom Jobim na música Wave,

"Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho"

creio ser melhor dar uma ponta de esperança a Maria e colocar uma CONCESSIVA. Talvez ela não seja tão feliz assim e as coisas mudem:

Carlos era casado, Joana namorava, mas, apesar de ainda ter esperança com José, só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Bem... Depois desse momento de conjecturas e preocupações com a vida de Maria, cabe-nos observar que as orações (com o correto modo de usar os conectivos e, especificamente, as conjunções) podem crescer infinitamente ao gosto do escritor. Como se percebe, coloquei outra subordinada (através da conjunção "apesar de...") na principal "... mas só Maria era feliz". Ressaltamos com isso o poder criativo e ilimitado da organização das frases. E, por conseguinte, as conjunções ajudam-nos a tecer, a armar, a costurar esse tecido flexivel e móvel ao sabor da criatividade e ao delineamento lógico da razão - que, se às vezes escapa, é por um capricho estético (como no exemplo que dei do trabalhador) ou até inconsciente, fazendo com que mergulhemos no universo da fantasia e das sensações inusitadas - do estranhamento, como um crítico literário já fez observar. Mas isso é outra história.


Prof. Ivonilton G de Souza