quarta-feira, 14 de outubro de 2020

 Arcadismo: Cláudio Manoel da Costa



Tendo estudado com os jesuítas no Brasil Colônia e depois cursado Direito em Coimbra, Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) foi um poeta Árcade por excelência. Como proprietário de terras em Minas Gerais, que herdou da família já de volta ao Brasil, defendia,  muito além dos os valores iluministas, a não sobrecarga de impostos feita pela Metrópole, através do que ficou conhecido como Derrama. Ou seja, num momento em que a Côrte portuguesa passava dificuldades e o filões de ouro brotavam em Minas, ela passou a instituir fiscalizações e taxas abusivas em relação ao mineral precioso. Assim, por sua participação na Inconfidência Mineira - levante organizado por insatisfeitos com a política na colônia - acabou, ao que parece, cometendo suicídio na prisão.


Essas questões históricas são importantes para podermos avaliar o contexto em que se deu sua produção poética. Produção aliás que oscilava com imagens da Europa e imagens de Minas Gerais. De qualquer forma, como veremos no soneto a seguir, o que o poeta busca é um afastamento, uma procura campestre, uma nostalgia que revela uma fuga dos centros urbanos. Vejamos, portanto, um soneto:


Sou Pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;


Ali me ouvem os troncos namorados,

Em que se transformou a antiga gente;

Qualquer deles o seu estrago sente;

Como eu sinto também os meus cuidados.


Vós, ó troncos (lhes digo), que algum dia

Firmes vos contemplastes, e seguros

Nos braços de uma bela companhia;


Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


Ora, logo na primeira estrofe diz ser "Pastor" e, por isso, ter companhia "doce" dos "meus gados". 


Sou Pastor; não te nego; os meus montados

São esses, que aí vês; vivo contente

Ao trazer entre a relva florescente

A doce companhia dos meus gados;


Nesse sentido, era ideia dos Árcades (lembrando que o termo faz referência a montes pastoris na Grécia: Arcádia) a fuga para o campo. Essa fuga explica-se por um saturamento da vida urbana que, cada vez mais, crescia, se avolumava com a revolução industrial, propiciando assim uma certa contradição nos poetas, uma nostalgia, que ainda não chega a ser romântica, do passado. É por isso que "os troncos namorados" ouvem-no. E servem ainda como como consolo, pois, depois de invocá-los na terceira estrofe, na quarta diz:


Consolai-vos comigo, ó troncos duros;

Que eu alegre algum tempo assim me via;

E hoje os tratos de Amor choro perjuros.


Ou seja, a melancolia, a saudade, o bucolismo são temas frequentes na poesia Árcade. Trata-se, como se pode ver, da alegria de "algum tempo", mas que "hoje os tratos de Amor choro perjuros".


Outro aspecto a ser observado na obra de Cláudio Manoel da Costa é sua concepção clássica de poesia. Apesar de encontrarmos ainda resquícios barrocos, pois muitas vezes o estilo árcade nele se encontra mais no tema do que na linguagem, não é intenção desses poetas em geral fazer uma poesia cheia de antíteses, rebuscamentos, preciosismos de linguagem como no Barroco. Vale lembrar que nessa época, de ascenção dos valores burgueses, a poesia palaciana - rica de ornamentos -, a poética ou obra de arte exagerada da Côrte ou da Igreja começaram a se saturar, a sair de prestígio. A tônica, portanto, é outra. Desse modo se valoriza mais a simplicidade, a lisura, a melodia "honesta" do poema, sem excessos.


Em algumas vezes Claudio Manoel da Costa se aproxima tanto de Camões que basta confrontar os versos de ambos:


Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.


(Camões)


Faz a imaginação de um bem amado

Que nele se transforme o peito amante;

Daqui vem, que a minha alma delirante

Se não distingue já foi meu cuidado.


(Cláudio Manoel da Costa)




É nesse sentido que os poetas dessa geração também são chamados de neoclássicos, pois absorvem toda corrente racionalista e de equilíbrio do Classicismo Renascentista. O que os diferenciam é darem um colorido campestre e de fuga ao novo estilo.


Em Cláudio Manoel da Costa esse colorido fica dividido entre a paisagem de Portugal, onde ele estudou direito, e do Brasil, conforme esses versos que acabam por atestar o colonialismo brasileiro:


Correi de leite e mel, ó Pátrios rios,

E abri dos seios o metal guardado;

Os borbotões de prata, e de oiro os fios

Saiam de Luso a enriquecer o estado.


(Canto Heróico)


Assim, o oiro (ouro, no portugês atual) e a prata só podem estar se referindo a atividade de mineração no Brasil, mas que serviam para "enriquecer o estado" lusitano, ou seja, a metrópole portuguesa. 


Canta Cláudio Manoel da Costa também às suas musas. Eulina, Daliana, Antandra, todas idealizada como pastoras. E isso representa novamente o seu desejo de evasão para montanhas calmas e serenas. É bom lembrar que no Arcadismo a natureza representa a razão, o equilíbrio, o meio termo clássico. Nesse sentido as paixões são sempre tratadas de maneira suave e idílica. É o que se vê neste soneto em que procura sua musa:


Nise? Nise? onde estás? Aonde espera

Achar te uma alma, que por ti suspira,

Se quanto a vista se dilata, e gira,

Tanto mais de encontrar te desespera!


Ah se ao menos teu nome ouvir pudera

Entre esta aura suave, que respira!

Nise, cuido, que diz; mas é mentira.

Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.


Grutas, troncos, penhascos da espessura,

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,

Mostrai, mostrai-me a sua formosura.


Nem ao menos o eco me responde!

Ah como é certa a minha desventura!

Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?


São por esses poemas e outros  (inclusive narrativos, que a crítica não acolheu tão efusivamente como a Fábula do Ribeirão do Carmo e o épico Vila Rica), que Tomás Antônio Gonzaga, outro poeta árcade, o via como mentor da arte de escrever. Arte essa aliás que já era ensinada em manuais de poética como a "Art Poétique", de Boileau, ou aqui entre os ibéricos (Espanha e Portugal) Ignácio de Luzán e Francisco José Freire (Cândido Lusitano), que mais tiveram penetração entre nossos poetas. Todos esses tratados de poética tinham como prioridade a natureza, a simplicidade, a razão e o equilíbrio das formas. Tudo isso com uma certa idealização platônica da beleza, ou seja, uma sublimação do belo. Assim une-se o belo e o agradável. E é nas palavras de Luís Antônio Vernei, em um tratado pedagógico que já afasta o valores barrocos e jesuítas, que vemos isso com mais clareza, pois "um conceito que não é justo, nem fundado sobre a natureza das coisas, não pode ser belo, porque o fundamento de todo conceito engenhoso é a verdade".


Assim, a poesia de Cláudio Manoel da Costa  (ou Glauceste Satúrnio, codinome que assumira para si) cumpre todos esses requisitos propostos pelos manuais de versificação da época. Sem dúvida uns dos melhores da nossa literatura. Literatura essa que, se ainda não se consolidava como autenticamente nossa, começa a colher frutos de originalidade a partir do período Árcade, cuja univocidade das imagens e sentimentos ainda se dividem com os de Portugal, mas aos poucos amadurecem.


Prof. Ivonilton G de Souza


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