Coesão: o encadeamento lógico do texto
Em coesão referencial vimos que há palavras que retomam outras, "costuramdo" o texto sem repetições desagradáveis e, por isso mesmo, trazendo mais concisão e elegância. São os pronomes demostrativos (este, isso, aquilo etc), os pronomes pessoais (ele, nós, lhe, te, o etc), os sinônimos e mesmo as "ausências" podem marcar uma coesão referencial (indicada muitas vezes já pelo contexto e/ou uma desistência verbal. Ex.: "Cantei ontem"; logo: "[Eu] cantei ontem").
No estudo que se segue agora vamos ver o processo de coesão no seu aspecto lógico e sintático-semântico da frase, ou melhor, período - para colocarmos as coisas nos seus termos certos.
Sim, amigos, período (e de preferência período composto). Por quê? Porque é no período composto que utilizamos com mais frequência as CONJUNÇÕES. E o que são conjunções? Conjunções, como vimos na outra aula, são termos que vão ligar diversos elementos do texto, deixando-os unidos numa lógica COERENTE. Assim, é bom rever antes o que é frase, período simples e período composto.
Frase é qualquer sentença iniciada por maiúscula e terminada por ponto com sentido completo: Ex.:
Ai!
Tô cansado.
Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.
Você foi ao colégio hoje?
Já o período é a frase dotada de verbo (não confunda: em "Ai!" não temos verbo), por isso é considerado também como oração. Se há uma só oração é período simples, como em:
Cheguei cedo ao trabalho. (Um só verbo; período simples)
Se há mais de uma oração é período composto (ou complexo):
Andei, corri e nadei. (Aqui há três verbos; portanto, três orações.)
Ainda que chova, vou viajar. (Duas orações.)
Bem. Isso foi só para refrescar a memória. Mas já posso aproveitar dois dos nossos exemplos para dar início ao nosso assunto. O primeiro a ver é o período composto:
Pedalei, corri e nadei.
Repare que são três verbos (portanto três orações) e só entre o penúltimo e o último separamos com o termo "e". E o que faz esse termo aí? Simples. Esse termo vai ser um elo, entre a oração precedente "corri" com a última "e nadei". Portanto é uma CONJUNÇÃO. Mas não basta só dizer que é uma conjunção. É também uma CONJUNÇÃO ADITIVA. E isso fica bem claro quando percebemos que a partícula "e" tem o papel semântico de adicionar mais uma atividade física praticada pelo interlocutor. Diante disso, em "corri" temos uma oração assindética, pois foi separada pela primeira por vírgula e em "e nadei" temos uma oração sindética, já que a passagem da segunda oração para esta última foi feita por tal conjunção.
É importante salientar que o uso da conjunção deve ser adequado; se não, tira o sentido lógico da frase, pois se colocássemos "mas" em vez de "e" tudo ficaria muito estranho e sem sentido: *Pedalei, corri, mas nadei. Não fica estranho? Sim, claro que sim. Já que vínhamos tendo uma sequência de coisas relacionadas a esporte, não faz sentido colocar o "mas".
Por quê? Porque o "mas" é outra conjunção, com outro significado. Temos, pois, aqui uma conjunção adversativa, que serve a outros propósitos, como no outro exemplo citado:
Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.
Ora, agora sim o "mas" encontrou seu lugar certo. Já que se esperava, ao contrário de Carlos e Joana, que ela que NÃO fosse feliz - afinal passaporte de felicidade na sociedade em que vivemos é ter um relacionamento amoroso, por mais que haja gente que não pensa assim; mas essas pessoas creio que seja a minoria. Percebem agora de onde vem o termo CONJUNÇÃO ADVERSATIVA? Nessas conjunções há, como indicado, uma adversidade. Ou seja, vão contra uma ideia anterior, frustrando expectativas. Assim, em
Maria foi à praia, mas choveu
temos, no início da segunda oração, uma conjunção adversativa, fazendo dessa oração uma ORAÇÃO COORDENADA SINDÉTICA ADVERSATIVA. Oração, porque possui um verbo; coordenada porque mantém uma independência sintática com a primeira (podendo até ser dividida por ponto); sindética, porque sua passagem em relação à antecedente se faz por conjunção; adversativa porque quebra a ideia da primeira oração. E qual é a ideia da primeira? Ora, é ir à praia para pegar sol, MAS aconteceu uma adversidade: choveu.
Desse modo as conjunções e os conectores vão "costurar o texto", encadear sua lógica, fazendo com que haja uma progressão de ideias. Ideias essas que vão - de acordo com a fluidez do pensamento - se concatenado, vão tecendo suas teias. É possível colocar "Maria foi à praia. Choveu"? Claro que é... Mas deixa de ter coesão e perde certa clareza da expressão. Além de indicar uma certa descontinuidade do pensamento. Claro, se o propósito é estilístico, tudo bem! Se um escritor quer tratar a vida de um trabalhador de maneira mecânica e representar isso na estrutura, na forma do seu texto, tudo bem. Dará até mais sentido a sua técnica - como neste pequeno exemplo criado por mim:
João acordou às 5. Se vestiu. Tomou café. Pegou o ônibus. Martelou, martelou, martelou. Almoçou. Arrotou. Trabalhou. Trabalhou. Trabalhou. Ônibus. Bebeu. Riu. Cuspiu. Casa. Brigou. Dormiu. Às 5 acordou...
Seguindo ainda o roteiro de exemplos que dei no início, vamos ver o período complexo (composto)
Ainda que chova, vou viajar.
Já sabemos que há nesta frase duas orações. Mas aqui temos uma oração principal "Vou viajar" e a oração subordinada "Ainda que chova". Pois bem. É subordinada porque depende sintaticamente da primeira, pois indica uma CONCESSÃO desta, algo que não serve como obstáculo a realização do termo principal. Haja visto que, mesmo "chovendo", nada impede que a viagem seja feita. Por isso então que o sentido fica muito semelhante a essas:
Mesmo que chova, vou viajar.
Apesar de chover, vou viajar.
Ou até em:
Chovendo ou não, vou viajar.
Ora, se temos uma oração concessiva, logo a conjunção que se encontra nela é uma CONJUNÇÃO CONCESSIVA também, a saber: "Ainda que...". É esta partícula que vai fazer o nexo com a oração principal e dar o sentido que vimos. Pode ser comutada, conforme já vimos respectivamente, por "Mesmo que..." e "Apesar de...".
Já na frase "Chovendo ou não, vou viajar" não há textualmente uma conjunção, mas denota uma concessão, pois já vimos seu valor aproximativo com as anteriores.
Para concluir estas breves palavras sobre conjunções, observemos detalhadamente a frase acima citada:
Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.
Há nesta frase quatro orações:
1°: Carlos era casado;
2°: Joana namorava;
3°: Mas só Maria [...] era feliz;
4°: que nunca teve ninguém.
Na primeira temos a oração inicial. Na segunda, como não há conjunção, temos uma oração coordenada (independente) assindética à primeira. Na terceira, temos a conjunção "mas" com valor adversativo (de oposição de ideia) à oração (ou mesmo o todo) anterior, por isso é uma oração coordenada sindética adversativa. Mas repare que no meio desta há uma outra (a quarta) que se subordina a ela e ligada pelo CONECTIVO "que". Repare que dissemos conectivo, não conjunção. Isso se explica porque essa partícula é, na verdade, um pronome. É só desdobrar que tudo fica mais claro.
Maria era feliz. Ela [Maria] nunca teve ninguém.
Viram?... O "que" da oração "que nunca teve ninguém" é um PRONOME RELATIVO, pois substitui Maria (faz referência a). Por isso, faz parte do processo coesivo também, evitando a repetição do termo anterior e unindo (assim conector) os períodos ou orações. O que faz dessa oração ser subordinada é o fato de ter dependência da principal "...mas só Maria era feliz".
Mas, seguindo os conselhos do mestre Tom Jobim na música Wave,
"Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho"
creio ser melhor dar uma ponta de esperança a Maria e colocar uma CONCESSIVA. Talvez ela não seja tão feliz assim e as coisas mudem:
Carlos era casado, Joana namorava, mas, apesar de ainda ter esperança com José, só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.
Bem... Depois desse momento de conjecturas e preocupações com a vida de Maria, cabe-nos observar que as orações (com o correto modo de usar os conectivos e, especificamente, as conjunções) podem crescer infinitamente ao gosto do escritor. Como se percebe, coloquei outra subordinada (através da conjunção "apesar de...") na principal "... mas só Maria era feliz". Ressaltamos com isso o poder criativo e ilimitado da organização das frases. E, por conseguinte, as conjunções ajudam-nos a tecer, a armar, a costurar esse tecido flexivel e móvel ao sabor da criatividade e ao delineamento lógico da razão - que, se às vezes escapa, é por um capricho estético (como no exemplo que dei do trabalhador) ou até inconsciente, fazendo com que mergulhemos no universo da fantasia e das sensações inusitadas - do estranhamento, como um crítico literário já fez observar. Mas isso é outra história.
Prof. Ivonilton G de Souza
Muito bom amigo excelente texto para trabalhar coesão da coesão, super beijo
ResponderExcluirObg Simone!🌷🌷🌷
ExcluirObg Simone!🌷🌷🌷
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