terça-feira, 29 de setembro de 2020

Impessoalidade no discurso: a "fala"  institucional, a terceira pessoa do singular com índice de indeterminação "se" e a terceira do plural


Num discurso objetivo é importante demonstrar impessoalidade e isenção. Mas primeiro, pergunta-se: o que é discurso objetivo? E em segundo lugar: o que é impessoalidade?


Bem. Discurso objetivo é aquele que traz uma marca de um suposto distanciamento pessoal do que se quer falar. "Suposto" porque, mesmo que haja impessoalidade (afastamento em relação a opiniões próprias), é de se questionar se não há sempre um interesse pessoal sobre o tema tratado com tanta objetividade. Mas isso é uma questão que não vem ao propósito deste texto. Assim, conforme íamos dizendo, o discurso objetivo busca uma isenção e imparcialidade que são típicas de textos que, antes de falar em tom próprio e subjetivo, falam em nome de uma instituição. Essa instituição pode ser uma comunidade científica, uma empresa, uma fundação etc., como neste trecho de um comunicado da Fiocruz:


"A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) esclarece que é falsa a mensagem que vem circulando no WhatsApp e em redes sociais, atribuída à instituição, com orientações de como se proteger contra a Covid-19."


https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-esclarece-informacoes-falsas



Desse modo, o discurso objetivo é muito encontrado em textos científicos, técnicos, documentos de empresas, comunicados institucionais etc. Assim, como neste da Fiocruz, rapidamente observamos que em seu texto sempre se coloca numa posição "de fora", usando a terceira pessoa: "A Fundação Oswaldo Cruz...". Por isso 3a pessoa, onde o termo "Fundação Oswaldo Cruz" pode ser comutada pelo pronome do caso reto "Ela".O que há, portanto, é uma "fala" em nome da instituição.


Com essas pistas, já podemos averiguar com mais profundidade o que significa impessoalidade. Ora impessoalidade é todo discurso, como o nome o diz, que não é pessoal. E não sendo pessoal é quase nula a carga afetiva, os apelos emocionais, as figuras de linguagem (duplo sentido, metáfora, hipérboles, ironias etc). Por esses motivos que obedecem à uma função referencial da linguagem, ou seja, é essencialmente uma manifestação denotativa. Objetiva e direta, portanto. E podemos ir além, dizendo que, já que não trazem no seu bojo sentimentos pessoais e opiniões, fogem totalmente do senso comum. Senso comum nada mais é que a opinião particular e popular (a conversa - se assim podemos dizer - da feira, do bar, com os vizinhos), sem fundamento científico. Seja ele lógico-racional ou empírico (de experimentos observáveis). Podemos matizar essas diferenças com  dois exemplos:



a) 


"Ele faz é bem; mesmo se o médico chegasse a falar, eu usaria. Se eu tivesse certeza que algum remédio caseiro ia ajudar, eu usaria; teve uma vez que um médico disse que eu não devia tomar garrafada e uns chás porque podia fazer mal, mas eu não parei e melhorei meu problema de bronquite sim."


SIQUEIRA, Karina Machado et alli. "Crenças populares referentes à saúde: apropriação de saberes sócio-culturais". http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072006000100008



b)


Os efeitos terapêuticos e tóxicos das plantas são conhecidos desde as épocas mais remotas, sendo um capítulo importante da Toxicologia. Atualmente muitas pesquisas são realizadas buscando conhecer os princípios ativos das plantas para fins terapêuticos. Muitas dessas plantas podem determinar quadros tóxicos a depender da quantidade, parte da planta utilizada, forma do contato, cutâneo ou ingestão, dentre outros fatores. No Estado da Bahia, foi registrado no período 1997-1999, 336 envenenamentos por plantas, representando apenas 2,35 % do total de casos, com 2 óbitos, causados por Nerium oleander (espirradeira), largamente encontrada nos jardins de residências, e Manihot utilíssima (mandioca-brava), também muito comum em nossa região. As crianças de até 9 anos foram as maiores vítimas - 54,43%. Em 2006 registrou 185 casos, representando 2,8% dos casos (RODRIGUÊS, et al.,2009, p. 42).


COSTA, Tatiane Oliveira; ALMEIDA, Obertal da Silva. "O conhecimento popular e o risco de intoxicação por ervas medicinais": https://www.efdeportes.com/efd194/o-risco-de-intoxicacao-por-ervas-medicinais.htm



Como se vê, são textos bastantes diferentes. O primeiro (a) é um relato de uma pessoa feita para uma pesquisa. E, conforme observamos, patenteia-se uma linguagem oral e em tom de conversa, com opiniões bem próprias, que carecem de base científicas. Já o segundo (b) busca uma informação mais precisa, pois cita dados estatísticos além de bibliografia, ou seja, orienta-se em outros estudos. É, portanto, um artigo científico, cuja objetividade, clareza, documentação e isenção são fundamentais. Assim, em nenhum momento o discurso deverá estar em primeira pessoa. Bem diferente aliás do texto (a), no qual se observa: "eu usaria...", "se eu...", "eu não devia...", "eu não parei...", "meu problema...". Concluindo: o texto (a) tem como base o senso comum e o (b) o método científico.


Apesar de serem rigorosas, as questões científicas nem sempre são eternas, pois podem haver outros estudos que mudem os rumos do pensamento até então em vigor. Tanto o é que o tratamento fitoterápico (por plantas), ainda que com restrições, já é admitido por conselhos de medicina, pois alguns trabalhos alegam que facilitaria ao atendimento, com alguma eficácia, de camadas mais carentes da população. E, diante disso, fez-se estudos também com a população que usa esses medicamentos fitoterápicos, justamente para mapear a classe econômica, a escolaridade e os objetivos de quem os usa. E mais uma vez temos uma linguagem isenta. Confira um:


c)


"Verificou-se neste estudo que 96% dos entrevistados escolheram plantas medicinais como a principal terapia entre os remédios caseiros. Neste sentido, dados da OMS informam que, na busca pelo bem estar e qualidade de vida, as plantas medicinais tornaram-se uma alternativa pela sua credibilidade terapêutica e baixo custo."


ZENI, Ana Lúcia Bertarello et al. "Utilização de plantas medicinais como remédio caseiro na Atenção Primária em Blumenau, Santa Catarina, Brasil": https://www.scielosp.org/article/csc/2017.v22n8/2703-2712/


Como se verifica, este texto vai investigar dados da população que usa plantas medicinais. É comum no universo acadêmico surgirem pesquisas em cima de outras. Mas o que importa para nosso estudo é o tratamento linguístico dado ao texto. Por isso, observem logo no início do fragmento (isso é de suma importância). É utilizado o verbo "verificar" na terceira pessoa do singular com a partícula "se": "verifica-se" E o que significa isso? Significa que essa maneira de usar o verbo indica uma imparcialidade, pois fala-se em nome de uma pesquisa. Os dados são mais importantes que a opinião. O autor confere assim um gesto de "afastento". A pesquisa, nesse sentido, diz mais que a pessoa, mesmo que tenha sido feita por pessoas. O que, naturalmente, traz um ar de "humildade", de discrição. A entidade, a instituição, a ciência diz por si próprio.


Dessa maneira, a terceira pessoa do singular, combinada com o índice de indeterminação do sujeito "se", deixa a oração sem sujeito, neutralizando, desse modo, uma eventual opinião própria. Conforme esses exemplos:


Estuda-se muito o  corona vírus hoje em dia.


Fala-se que muitas pessoas foram curadas.


Comenta-se em universidades questões de bioética.


Namora-se muito no verão.


Ora, está bem claro que há uma "indeterminação" do ser que "estuda", "fala", "comenta" e "namora". Por isso a partícula "se", sempre aliada ao verbo na terceira pessoa do singular, dará indeterminação ao sujeito. Este é um dos casos (excessões) no qual a oração é sem sujeito, porque ele não aparece materialmente na oração. Lembrando que quando dizemos "materialmente" estamos queremos dizer sintaticamente, formalmente.


É importante não confundir estas frases com esta outra: "Vendem-se casas". Aqui o sujeito está expresso. É o termo "casas". Ao colocarmos em outra ordem, fica mais explícito: Casas vendem-se. Então, a partícula "se", neste último exemplo, é um pronome reflexivo. E a frase está na voz passiva sintética, ou seja, uma ação que sai e retorna ao próprio ser,  como em "Vesti-me com pressa". (Em outra oportunidade estudaremos isso com mais calma.)


Outra possibilidade de dar impessoalidade ao discurso, deixando o autor (ou autores) em posição mais modesta que o próprio texto (que se corporifica numa verdadeira entidade) é o uso da primeira pessoa do plural:  "[Nós] pesquisamos o assunto", por exemplo. Vejamos:


Nesta pesquisa, verificamos as causas do problema ecológico no Brasil.


O propósito neste trabalho é encontramos soluções para o tratamento da dependência química.



Mas essa forma, de usar o verbo com impessoalidade, não se resume a trabalhos científicos, pois é também encontrada de maneira mais ampla, quando não há identificação do sujeito na estrutura da frase:


Aplaudiram o jogador quando entrou em campo.


Roubaram meu carro.



Nesses exemplos também temos uma oração sem sujeito, já que não se determina sintaticamente quem o é. Evidentemete que podemos supô-lo através do sentido como em "Aplaudiram o jogador...", mas ele, o sujeito, não se presentifica na estrutura da oração, tal como verificamos com os exemplos da partícula "se" como índice de indeterminação do sujeito. 


Vale lembrar ainda que a leitura dessas frases como sujeito indeterminado vai depender do contexto. Pois pode tratar-se de um sujeito oculto ou desinencial quando a situação é mais clara como em:


Como os alunos estão doentes, faltaram a aula. 


É evidente que o sujeito (oculto mas representado pela desinência verbal "faltarAM") é "alunos".


Pois bem. Há uma preferência em trabalhos formais, ou melhor, acadêmicos em utilizar-se a terceira do singular com "se", mas a outra via ("estudamos", por exemplo) também é possível.


Com isso, chegamos às seguintes conclusões:


- o texto objetivo usa uma linguagem isenta;


- são textos que se sobrepõem a autoria (que, apesar da importância, permanece em postura modesta);


- englobam textos científicos, relatórios, textos jurídicos etc;


- são textos com a variante formal/culta/exemplar da língua;


- referem-se a instituições, órgãos etc, colocando-os como vozes superiores e destacando-os na terceira pessoa.


- expressam-se pelo uso da 3a pessoa do singular com o índice de indeterminação "se" ou pela 1a pessoa do plural, formando orações sem sujeito; e


- são textos bastante padronizados.



Enfim, podemos encontrar discursos com gradações entre pessoalidade e informalidade. Os ensaios (tipos de textos acadêmicos mais livres) podem nos dar bons exemplos. Aliás, por mais que haja protocolos de escritas oficiais, nunca se elimina de vez o estilo pessoal. Claro que obedecendo a certos limites, caso contrário há o risco de se fugir completamente ao contexto e ficar deslocado do meio que se está utilizando para comunicar algo. 


Aliás, fica a pergunta, que pode ser até estranha, mas pertinente: o texto literário, por mais que tenha mais liberdade estilística (pessoal), também não se serve a certas convenções? O uso de metáforas, de imagens, de sonoridades. Por isso, o que faz de um texto literário de boa qualidade é a fuga de imagens já cristalizadas, ou seja, pré-concebidas e desgastadas pelo tempo. Sim, se for bom, é evidente que a liberdade é infinita. Liberdade, ressaltamos, que tende, por sua própria natureza, ser maior do que uma tese científica ou um tratado de medicina, por exemplo. Mas nestes últimos, mesmo havendo limitações convencionais, a boa instrumentalização da língua e um estilo próprio e elegante pode, além de trazer clareza, dar prazer na leitura, por mais que o tema seja árido.


Prof. Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

A coesão em exemplos e algumas palavras a mais



Conforme vimos em lições anteriores, a coesão é responsável pelo encadeamento discursivo com suas remissões (retomadas) ao já dito, suas projeções, seu encadeamento racional, portanto lógico. Cumpre, dessa maneira, o papel de "costurar" o texto, de "amarrá-lo", preenchendo eventuais lacunas. Delineia o pensamento com ritmo, pausas, idas e vindas, recuperando o que foi falado e preparando o que está por vir. Além de sugerir, "emendar", acrescentar, e até mesmo dar um toque estilístico, pessoal e esclarecedor com o valioso auxílio dos OPERADORES ARGUMENTATIVOS tais como "desse modo", "a propósito", "aliás", "de acordo com essa afirmação", "diante disso", "bem o sabemos" etc.


Já a coerência é o correspondente da coesão em significado. Desse modo, os termos usados na coesão devem ter um  significado adequado à ideia proposta do enunciador. E claro, não podemos esquecer também que, quem profere um discurso, deve levar em conta o meio por qual profere e quem são seus receptores (quem vai recebê-lo). Por isso, se estou falando (por meio oral, entende-se) numa situação informal e para amigos do convívio familiar, é até mais adequado usar a conjunção popular "aí" do que usar "por conseguinte". Portanto, o significado norteia a expressão a ser usada. Não só nesse sentido, mas também e principalmente para se obter a própria coerência em si. Se não, veja:


No almoço como bastante, PORTANTO sou magro.


Ora, não há algo estranho nesta frase? Evidentemete que sim. Espera-se, pois, que quem coma muito não fique magro, porém gordo. Diante disso, temos uma falta de coerência ao usarmos o conector "portanto". E qual seria a conjunção mais adequada? Seria, já o vimos no outro trabalho, a conjunção adversativa "mas", "porém", "contudo", "todavia"... Assim:


No almoço como bastante, PORÉM sou magro.


Enfim, faltou clareza no raciocínio, faltou coerência, porque não foi selecionada a conjunção adequada. Só poderíamos aceitar a hipótese dessa frase estar certa, e portanto coerente, se a se situação em que se deu fosse uma piada e o enunciador flertasse com a ironia. Ou seja, se houvesse uma linguagem conotativa, se houvesse, para concluir, um recurso estilístico-expressivo, como muitos poetas e artistas das palavras sabem bem usar.


Bem. Feitas essas observações preliminares, vamos passar a elencar as principais conjunções e seus respectivos significados dentro dos períodos compostos. Basicamente se dividem em dois grupos: o das orações coordenadas (sintaticamente independentes) e o das orações subordinadas (ou dependentes).


Orações coordenadas


- Conjunções aditivas. São aquelas que incluem um ou mais ítens à principal. Representadas por: "e", "nem...nem", "não... nem", "não só... mas também" (ênfase).


a) Carlos cuida da casa e Maria trabalha fora.


b) Nem sabe falar inglês nem francês.


c) Não joga vôlei nem basquete.


d) Não só estuda mas também dá aulas. (Neste exemplo é evidente que o par "não só... mas também" enfatiza o enunciado.)


- Conjunções adversativas. Este grupo de conjunções tem como significado ligar a oração anterior, contudo negando-a. Assim cria-se uma oposição à ideia expressa anteriormente. São elas: "mas", "contudo", "porém", "todavia", "entretanto". Ex.:


a) Acordei muito cansado, mas fui trabalhar.


b) O país vive num momento inseguro, contudo nos resta esperanças.


c) Economizo dinheiro, porém sempre me falta para pagar as contas.


d) A cidade grande é violenta, entretanto ainda há lugares calmos.


- Conjunções alternativas. São aquelas que excluem uma das possibilidades do grupo. Indicadas por "ou", "ou...ou", "seja...seja", "quer... quer", "ora...ora" etc


a) Você estuda ou trabalha?


b) Ou você prática esporte ou vai ter problemas de saúde.


c) Seja rico seja pobre o importante é ser honesto.


d) Quer vençamos o jogo quer percamos o importante é não desistir.


e) Ora você está feliz ora você é só tristeza.


- Conjuncões conclusivas. Remetem-se ao término da proposição, concluído algum raciocínio. Eis algumas: "logo", "portanto", "por isso", "por conseguinte" etc.


a) Penso, logo existo. (Descartes)


b) Todo homem é mortal; Sócrates é um homem; portanto Sócrates é mortal.


c) Estudei bastante, por isso passei na prova


d) A média da temperatura mundial está subindo, porconseguinte as geleiras vão derreter.


- Conjunções explicativas. Tem o papel de justificar a primeira oração. São algumas: que, porque, pois etc.


a) Acorde cedo amanhã, que vamos viajar.


b) Não falte o trabalho, porque há muitos desempregados querendo seu emprego.


c) Não gaste todo dinheiro, pois não se sabe o dia de amanhã.


Orações subordinadas


- Conjunções concessivas. São as que não impedem que algo se realize. Ei-las: "apesar de", "embora", "mesmo que", "não obstante" etc


a) Apesar de estar frio, não vou sair de casaco.


b) Embora sejamos um povo trabalhador, não somos ricos.


c) Mesmo que tenha propósitos firmes, me deixo seduzir pela vaidade.


d) Não obstante ter realizado todos meus desejos, não ou feliz ainda.


- Conjunções condicionais. São termos que introduzem possibilidades, dúvidas, hipóteses: "se", "caso", "a menos que", "salvo se", "a não ser que".


a) Se você tocasse o instrumento, eu teria cantado na festa.


c) Caso você decida ir ao teatro, eu vou também.


d) A menos que o nosso time não jogue, eu estou decidido a entrar em campo.


e) Salvo se reivindicar melhores salários, não teremos aumento.


f) A não ser se ele for generoso, nunca vai nos pagar melhor.


- Conjunções finais. Indicam a finalidade máxima de alguma ação: "para que", a fim de que", "porque", "com o propósito de" etc.


a) Estudo bastante para que possa passar de ano.


b) A fim de que nossa relação seja solucionada, falei com meu advogado.


c) Treino muito, porque quero vencer o campeonato.


d) Acordo cedo com o propósito de não me atrasar ao trabalho.


- Conjunções temporais. Como o nome já o diz, introduzem subordinadas relacionadas a tempo. São algumas: "quando", "antes que", "depois que", "enquanto", "desde que" etc.


a) Quando a quarentena terminar, iremos num baile.


b) Antes que anoiteça, termine suas obrigações.


c) Depois que nos casarmos, seremos mais felizes.


d) Enquanto o país não resolver o problema da fome, não se fala em desenvolvimento humano.


e) Desde que você foi embora, não consigo dormir bem.


- Comparativas. Iniciam uma oração que comparam algo na oração anterior. Representadas por: mais... (do) que", "tanto... quanto", "como", "assim como" etc.


a) O mar é mais perigoso do que a floresta.


b) Ele é tanto inteligente quanto bonito.


c) O pássaros cantam como se estivessem executando uma sinfonia.


d) Assim como o amor dos filhos aos pais é importante, a educação dos pais aos filhos é fundamental.


- Consecutivas. Iniciam uma oração que dá sequência a algo iniciada na primeira. Alguns elementos coesivos são: "tão... que", "tal... que", "tão...de sorte que"etc.


a) Fez tão rápido a tarefa que ainda deu tempo de sair para jogar bola.


b) Discursou de tal maneira, que foi aplaudido.


c) Ensinou tão bem aos alunos de sorte que foi aplaudido ao final da aula.


- Integrantes. São aquelas que vão formar orações subordinadas com valor de objeto direto, objeto indireto,  predicativo do sujeito, complento nominal e aposto. Formadas por: "que" (precedido ou não de preposição) e "se".


a) Desejo que vença. (objeto direto).


b) Não sei se te amo. (objeto direto)


c) A felicidade depende de que estejamos bem consigo mesmo. (objeto indireto)


d) A luta pela vida é que nos move. (predicativo do sujeito)


e) O desejo de que venças é constante. (complemento nominal)


f) Faça o bem: que é excelente ideia. (aposto)


- Conformativas. São orações subordinadas que encerram uma ideia de conformidade com a principal. São encabeçadass pelas conjunções: "segundo", "conforme", "consoante", "como" etc.


a) Segundo me disseram, os Estados Unidos são extremamente capitalistas.


b) Conforme está escrito na Bíblia, devemos amar uns aos outros.


c) Consoante ao que foi dito nos autos do processo, não há indícios de crime no réu.


d) Como se sabe, o sol é uma estrela de quinta grandeza.


- Proporcionais. São as orações que registram algo que está acontecendo ou irá acontecer em relação ao enunciado da oração principal. Alguns elementos são: " à medida que", "ao tempo que", "quanto mais... menos" etc.


a) À medida que o desemprego cresce, a população se revolta.


b) Ao tempo que vou te amando cada vez mais, você vai me desprezando.


c) Quanto mais se pesquisa, mais se transforma a sociedade.



Essas são as principais conjunções e suas respectivas orações (claro que a lista pode se estender). Vale ressaltar que neste trabalho tomamos como base o livro de Celso Cunha e Lindley Cintra: "Nova Gramática do Portugês Contemporâneo". Mas algumas lacunas ainda podem ser preenchidas, já que, claramente, esta gramática traz uma exposição bem resumida do assunto e com intenções normativas e didáticas.


Por isso, se nos determos com mais acuidade, veremos que muitas das conjunções ou das chamadas LOCUÇÕES CONJUNTIVAS (ou seja, a reunião de duas palavras para formarem uma unidade) são, na verdade, provenientes de outra natureza gramatical. Assim é que podemos ter advérbios em "Assim que terminou o exercício, foi jogar bola" ("assim", advérbio); preposições em Arrumou-se para ir à festa ("para"); advérbios e conjunções em "Ainda que seja feliz, falta-me algo" ("ainda que", advérbio e conjunção)";  preposição + advérbio em "Fiz tudo, contudo estou triste" (com+tudo, preposição e advérbio); ou mesmo verbo como em "Seja culto seja humilde, o importante é ser honesto" ("seja...  seja", verbo). Desse modo, já podemos vislumbrar que muitas palavras podem adquirir, de acordo com o sentido do texto ou mesmo com o passar do tempo - com o  "evoluir" da língua -,  um deslocamento semântico, podem adquirir outra função, enfim; acomodando-se, dessa maneira, a uma outra realidade linguística e discursiva. Mas tudo isso veremos em outra lição.


Prof. Ivonilton G de Souza


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Coesão: o encadeamento lógico do texto


Em coesão referencial vimos que há palavras que retomam outras, "costuramdo" o texto sem repetições desagradáveis e, por isso mesmo, trazendo mais concisão e elegância. São os pronomes demostrativos (este, isso, aquilo etc), os pronomes pessoais (ele, nós, lhe, te, o etc), os sinônimos e mesmo as "ausências" podem marcar uma coesão referencial (indicada muitas vezes já pelo contexto e/ou uma desistência verbal. Ex.: "Cantei ontem"; logo: "[Eu] cantei ontem").

No estudo que se segue agora vamos ver o processo de coesão no seu aspecto lógico e sintático-semântico da frase, ou melhor, período - para colocarmos as coisas nos seus termos certos.

Sim, amigos, período (e de preferência período composto). Por quê? Porque é no período composto que utilizamos com mais frequência as CONJUNÇÕES. E o que são conjunções? Conjunções, como vimos na outra aula, são termos que vão ligar diversos elementos do texto, deixando-os unidos numa lógica COERENTE. Assim, é bom rever antes o que é frase, período simples e período composto.

Frase é qualquer sentença iniciada por maiúscula e terminada por ponto com sentido completo: Ex.:
 
Ai!

Tô cansado.

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Você foi ao colégio hoje?

Já o período é a frase dotada de verbo (não confunda: em "Ai!" não temos verbo), por isso é considerado também como oração. Se há uma só oração é período simples, como em:

Cheguei cedo ao trabalho. (Um só verbo; período simples)

Se há mais de uma oração é período composto (ou complexo):

Andei, corri e nadei. (Aqui há três verbos; portanto, três orações.)

Ainda que chova, vou viajar. (Duas orações.)

Bem. Isso foi só para refrescar a memória. Mas já posso aproveitar dois dos nossos exemplos para dar início ao nosso assunto. O primeiro a ver é o período composto:

Pedalei, corri e nadei.

Repare que são três verbos (portanto três orações) e só entre o penúltimo e o último separamos com o termo "e". E o que faz esse termo aí? Simples. Esse termo vai ser um elo, entre a oração precedente "corri" com a última "e nadei". Portanto é uma CONJUNÇÃO. Mas não basta só dizer que é uma conjunção. É também uma CONJUNÇÃO ADITIVA. E isso fica bem claro quando percebemos que a partícula "e" tem o papel semântico de adicionar mais uma atividade física praticada pelo interlocutor. Diante disso, em "corri" temos uma oração assindética, pois foi separada pela primeira por vírgula e em "e nadei" temos uma oração sindética, já que a passagem da segunda oração para esta última foi feita por tal conjunção.

É importante salientar que o uso da conjunção deve ser adequado; se não, tira o sentido lógico da frase, pois se colocássemos "mas" em vez de "e" tudo ficaria muito estranho e sem sentido: *Pedalei, corri, mas nadei. Não fica estranho? Sim, claro que sim. Já que vínhamos tendo uma sequência de coisas relacionadas a esporte, não faz sentido colocar o "mas".

Por quê? Porque o "mas" é outra conjunção, com outro significado. Temos, pois, aqui uma conjunção adversativa, que serve a outros propósitos, como no outro exemplo citado: 

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Ora, agora sim o "mas" encontrou seu lugar certo. Já que se esperava, ao contrário de Carlos e Joana, que ela que NÃO fosse feliz - afinal passaporte de felicidade na sociedade em que vivemos é ter um relacionamento amoroso, por mais que haja gente que não pensa assim; mas essas pessoas creio que seja a minoria. Percebem agora de onde vem o termo CONJUNÇÃO ADVERSATIVA? Nessas conjunções há, como indicado, uma adversidade. Ou seja, vão contra uma ideia anterior, frustrando expectativas. Assim, em

Maria foi à praia, mas choveu

temos, no início da segunda oração, uma conjunção adversativa, fazendo dessa oração uma ORAÇÃO COORDENADA SINDÉTICA ADVERSATIVA. Oração, porque possui um verbo; coordenada porque mantém uma independência sintática com a primeira (podendo até ser dividida por ponto); sindética, porque sua passagem em relação à antecedente se faz por conjunção; adversativa porque quebra a ideia da primeira oração. E qual é a ideia da primeira? Ora, é ir à praia para pegar sol, MAS aconteceu uma adversidade: choveu.

Desse modo as conjunções e os conectores vão "costurar o texto", encadear sua lógica, fazendo com que haja uma progressão de ideias. Ideias essas que vão - de acordo com a fluidez do pensamento - se concatenado, vão tecendo suas teias. É possível colocar "Maria foi à praia. Choveu"? Claro que é... Mas deixa de ter coesão e perde certa clareza da expressão. Além de indicar uma certa descontinuidade do pensamento. Claro, se o propósito é estilístico, tudo bem! Se um escritor quer tratar a vida de um trabalhador de maneira mecânica e representar isso na estrutura, na forma do seu texto, tudo bem. Dará até mais sentido a sua técnica - como neste pequeno exemplo criado por mim:

João acordou às 5. Se vestiu. Tomou café. Pegou o ônibus. Martelou, martelou, martelou. Almoçou. Arrotou. Trabalhou. Trabalhou. Trabalhou. Ônibus. Bebeu. Riu. Cuspiu. Casa. Brigou. Dormiu. Às 5 acordou...

Seguindo ainda o roteiro de exemplos que dei no início, vamos ver o período complexo (composto)

Ainda que chova, vou viajar.

Já sabemos que há nesta frase duas orações. Mas aqui temos uma oração principal "Vou viajar" e a oração subordinada "Ainda que chova". Pois bem. É subordinada porque depende sintaticamente da primeira, pois indica uma CONCESSÃO desta, algo que não serve como obstáculo a realização do termo principal. Haja visto que, mesmo "chovendo", nada impede que a viagem seja feita. Por isso então que o sentido fica muito semelhante a essas:

Mesmo que chova, vou viajar.

Apesar de chover, vou viajar.

Ou até em:

Chovendo ou não, vou viajar.

Ora, se temos uma oração concessiva, logo a conjunção que se encontra nela é uma CONJUNÇÃO CONCESSIVA também, a saber: "Ainda que...". É esta partícula que vai fazer o nexo com a oração principal e dar o sentido que vimos. Pode ser comutada, conforme já vimos respectivamente, por "Mesmo que..." e "Apesar de...".

Já na frase "Chovendo ou não, vou viajar" não há textualmente uma conjunção, mas denota uma concessão, pois já vimos seu valor aproximativo com as anteriores.

Para concluir estas breves palavras sobre conjunções, observemos detalhadamente a frase acima citada:

Carlos era casado, Joana namorava, mas só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Há nesta frase quatro orações:

1°: Carlos era casado;

2°: Joana namorava;

3°: Mas só Maria [...] era feliz;

4°: que nunca teve ninguém.

Na primeira temos a oração inicial. Na segunda, como não há conjunção, temos uma oração coordenada (independente) assindética à primeira. Na terceira, temos a conjunção "mas" com valor adversativo (de oposição de ideia) à oração (ou mesmo o todo) anterior, por isso é uma oração coordenada sindética adversativa. Mas repare que no meio desta há uma outra (a quarta) que se subordina a ela e ligada pelo CONECTIVO "que". Repare que dissemos conectivo, não conjunção. Isso se explica porque essa partícula é, na verdade, um pronome. É só desdobrar que tudo fica mais claro.

Maria era feliz. Ela [Maria] nunca teve ninguém.

Viram?... O "que" da oração "que nunca teve ninguém" é um PRONOME RELATIVO, pois substitui Maria (faz referência a). Por isso, faz parte do processo coesivo também, evitando a repetição do termo anterior e unindo (assim conector) os períodos ou orações. O que faz dessa oração ser subordinada é o fato de ter dependência da principal "...mas só Maria era feliz".

Mas, seguindo os conselhos do mestre Tom Jobim na música Wave,

"Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho"

creio ser melhor dar uma ponta de esperança a Maria e colocar uma CONCESSIVA. Talvez ela não seja tão feliz assim e as coisas mudem:

Carlos era casado, Joana namorava, mas, apesar de ainda ter esperança com José, só Maria, que nunca teve ninguém, era feliz.

Bem... Depois desse momento de conjecturas e preocupações com a vida de Maria, cabe-nos observar que as orações (com o correto modo de usar os conectivos e, especificamente, as conjunções) podem crescer infinitamente ao gosto do escritor. Como se percebe, coloquei outra subordinada (através da conjunção "apesar de...") na principal "... mas só Maria era feliz". Ressaltamos com isso o poder criativo e ilimitado da organização das frases. E, por conseguinte, as conjunções ajudam-nos a tecer, a armar, a costurar esse tecido flexivel e móvel ao sabor da criatividade e ao delineamento lógico da razão - que, se às vezes escapa, é por um capricho estético (como no exemplo que dei do trabalhador) ou até inconsciente, fazendo com que mergulhemos no universo da fantasia e das sensações inusitadas - do estranhamento, como um crítico literário já fez observar. Mas isso é outra história.


Prof. Ivonilton G de Souza

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Morfologia: radical e raiz (os constituintes imediatos)



Nos textos anteriores trabalhamos somente com o conceito de radical. Isso porque RADICAL é o morfema extraliguístico (sustenta a significação exterior) mais evidente numa palavra. O que se apresenta de maneira mais clara e imediata na constituição da palavra e, vale ressaltar, em sua plena atualidade, ou seja, num registro sincrônico e vivo da língua. Mas o que queremos dizer com "registro sincrônico e vivo da língua"? Sincrônico quer dizer num ponto fixo, exato na linha do tempo, sem levar em consideração sua linha evolutiva, sua diacronia portanto. E vivo porque é a maneira como atualmente a usamos. Para facilitar as coisas, veja um exemplo, primeiramente de diacronia:


pede > pee > pé (diacronia, estudo da mudança da língua)


Com o que vimos acima, observamos por quais mudanças, através da história interna da língua, a palavra "pé" já passou. O interessante é que em palavras atuais ainda há reflexos da língua antiga como:


pedicure


pedestre


pedalar


Repare que em todas a forma básica "ped-" é igual. Mas em pezinho essa forma desaparece, passando a ser o radical somente "pe-", acompanhado do sufixo de grau diminutivo "-inho" com a consoante de ligação "-z-". Conclui-se então que o primeiro radical traz uma forma mais culta; o segundo, mais atualizada, por conseguinte popular. Poder-se-ia dizer que a realização do morfema "ped-" (ex.: ped + estre) é um alomorfe do radical "pe-" (pe + z + inho), cuja vogal temática sofreu crase com o "e" do radical depois que o "d" caiu, com a mencionada evolução do termo (repetindo: pede > pee > pé).


Feitas essas distinções iniciais entre diacronia e sincronia podemos prosseguir no nosso assunto; pois, afinal: Qual a diferença entre raiz e radical? Bem, RAIZ é a forma primária da palavra, a forma irredutível. E muitas vezes só é visualizada em uma forma latina, língua que deu origem a maioria das nossas palavras. Por isso foi necessário essa introdução ao conceito de diacronia, de história das palavras.


As palavras, assim, são passíveis de divisões até chegarem a uma forma mínima, às vezes só percebida ao estudioso do idioma. Ex.:


a) desconfiar

b) confiar

c) fiar


Como se vê em (a) temos o prefixo "des-". Mas em (b) esse prefixo cai fora, ficando apenas "confiar". Acontece que há outro prefixo que não é percebido claramente no estágio atual da língua. É o prefixo "con-"(que se escreve com "n" devido a acomodação fonética/ortográfica, pois deveria ser "m"). Até mesmo porque muitos desses prefixos são preposições que se juntaram aos radicais: complacente, compaixão, compatível etc. Semanticamente indicam algo que está junto a algo ou alguém.


A palavra assim pode ser "retalhada" morfologicamente até as últimas consequências, conforme se segue:


d) fia-r

e) fi-a

f)  fi


Em (d) destacamos o "-r" desinencial (verbo no infinitivo); depois em (b) separamos o morfema temático "-a-", ou seja tema da primeira conjugação, encontrado também em cant-a-r, am-a-r, palavre-a-r... Por fim, em (f) destacamos a raiz "fi-". Ora, é a mesma raiz que encontramos em fiança, fiador, fiado, inafiançável etc. Bem, todas essas palavras cognatas, ou seja, do mesmo grupo semântico, vem do latim "fidere".


Pois então. Para terem mais "confiança" no assunto guardem esta palavra na memória (voltarei a ela depois) e vamos a outro exemplo extraído da gramática do professor Evanildo Bechara. O vocábulo é este:


desregularizar


Ora, analisando-a, logo notamos que se trata de um verbo. Assim tirando a vogal temática "-a-" e o morfe de infinitivo "-r" temos


desregulariz.


Indo para o lado esquerdo da palavra temos o prefixo "des-", que também vamos apagar:


regulariz


Mas as coisas não param por aí. De "regulariz" podemos destacar outro sufixo: "-iz-". Ficando:


regular


Ora, regular pode ser dividido em


regul.


E para terminar logo, se não não sobra nada da palavra, temos ainda


reg.


Aliás, é a mesma raiz que aparece em "reger", "régua", segundo o professor Bechara. Com isso, chegamos à conclusão que para se chegar à RAIZ, também chamada de RADICAL PRIMÁRIO, deve-se destacar vários morfemas da palavra para obter-se sua base inicial, muitas vezes - mas nem sempre - de formação latina.


E muitas vezes também essa raiz já não faz mais sentido para nossa sincronia, para nosso estágio atual da língua. E é neste ponto que voltamos ao nosso exemplo: confiar.


Há muito tempo a noção de preposição "com" desapareceu e está totalmente integrada à palavra. Assim como a noção de prefixo também é quase despercebida nesse morfema. Desse modo, analisando sincronicamente a palavra, ou seja, em termos atuais, seria mais fácil dizer que em "confiar" o radical é "confi-". Por isso, cabe mais o estudo da língua (nas escolas principalmente) em seu momento presente, deixando as observações diacrônicas para os estudiosos da história da língua, para os etimologistas com vasta erudição.


Soma-se a isso, o fato de "confiar", apesar de ser uma palavra cognata (do mesmo grupo) de fiar, ter já um sentido próprio e diverso. Ninguém diz: - Eu vou fiar em você. Se alguém diz isso, ou é em áreas muito restritas, ou não está se apropriando bem da língua. Há o sentido de fiar ainda, mas atualmente denota mais coisas relativas a empréstimos, por exemplo: "Ele é meu fiador". Ou seja, de dar crédito monetário, mais adequada às questões pecuniárias. E, assim, pouco se tem lembrança de "fiar" como "confiar", manter laços de comprometimento, enfim.


E podemos - pegando esse gancho - ir um pouco além, já que pouco interessa ao estudante comum que a raiz da palavra comer é "ed-" (!). Isso mesmo, pois houve uma prefixacão do "com" em "edere" ("com + edere"), este último igual ao nosso comer, logo a raiz é, como dito, "ed-". Parece estranho mas é o mesmo que se vê em compartilhar, comprazer etc.


Desse modo, há duas vertentes ao analisar morfologicamente as palavras. A vertente diacrônica e a vertente sincrônica, esta mais em voga nos estudos "hodiernos" (talvez provocando com essa palavra já tão em desuso, que quer dizer "hoje em dia").


Bem, voltando... Na verdade, o que se tem é algo chamado de CONSTITUINTES IMEDIATOS. E o que é isso? Isso é nada mais nada menos do que analisar as palavras partindo, vamos dizer, de sua "totalidade" mais imediata. Assim, colhendo outro exemplo da "Moderna Gramática", de Bechara, vemos:


desrespeitosamente > desrespeitosa (constituintes imediatos)


E assim sugerindo destaques sucessivos:


respeitosa > respeit > speit (aqui, radical primário ou raiz)


Desse modo, o constituinte imediato de "desconfiantemente" seria "desconfiante-", destacando o morfema que indica advérbio "-mente": ("desconfiante-mente").


Enfim, análise sincrônica nos é válida porque atende à demanda de uma linguagem viva, sem precisarmos nos socorrer a conhecimentos eruditos e já perdidos da língua, favorecendo-nos assim numa compreensão mais, se é que posso usar esse termo, mais instrumental dela.


O mesmo se pode dizer para palavras compostas que já perderam seu sentido de composição há muito tempo, pois, a não ser consultando um manual de gramática tradicional, quem aqui se lembra que "fidalgo" provém de "filho de algo"? Ou seja, de nobres. Claro que esse sentido de composição já se perdeu há muito tempo e vemos a palavra em seu conjunto unitário. Por isso o radical dela, nesse sentido, é "fidalg-", como em fidalguia. O mesmo, cremos, pode se dizer de "telefone". A composição "tele"+"fone" (tranporte do som) já praticamente é ignorada (a menos se nos detivermos com atenção). Logo, seria melhor termos não dois radicais, mas somente um, como sugere seus inúmeros derivados: telefone, telefonar, telefonista, telefônica, telefonema, telefoninho etc. Portanto: telefon (R) + e (VT).


Diferente, é claro, de "navio-escola", "paraquedas", "sino-brasileiro", "pé-de-moleque" e até mesmo (por que não?) o sintagma "sala de aula"... Estas sim, verdadeiras palavras compostas.


Concluindo. O estudo da língua passou a ser essencialmente sincrônico, pois facilita a compreensão da constituição da palavra no seu estágio atual. Grande defensores dessa linha foram o mestre Mattoso Câmara e o veterano Said Ali. Apesar desse último ter escrito uma gramática histórica. Esse método de estudo teve imensa penetração nos nossos compêndios gramaticais nos anos 60 e 70 - com Bechara (já citado), Celso Cunha e outros.


Se as análises mórficas antes se pautavam pela história da língua, agora se pautam pela estrutura dada no momento atual da evolução. Isso traz a vantagem, como vimos, de podermos fazer a análise dos constituintes do léxico sem termos de socorrer-nos à formação inicial do termo, que muitas vezes só o erudito tem acesso. Podemos assim operacionalizá-la com os elementos disponíveis no nosso repertório linguístico sem maiores problemas. Há importância em saber sua formação histórica? Certamente o há. Talvez para captar sua essência e profundidade etimológica como tantos cientistas e renomados filósofos o fazem. Mas nunca para demonstrar a vaguidade ociosa e descompromissada da erudição. 


Ivonilton G de Souza