quarta-feira, 15 de julho de 2020


PONTUAÇÃO: PANORAMA GERAL



O estudo de pontuação merece a devida atenção porque são nestes sinais que conseguimos expressar com mais clareza nosso pensamento, atendendo sempre à dinâmica e à "respiração" do texto, já que ela é responsável por pausas articulatórias no discurso, seja em forma gráfica ou em sua correspondente oral. O que, muitas vezes, pode acarretar mudanças de estrutura na sentença e, por conseguinte, semânticas. Isso faz com que, quando não bem executada, acarrete prejuízos comunicativos. Ruídos que só o uso coerente e sensato pode dissolver. Os exemplos que se seguem não esgotam a matéria. Mas já servem como um bom guia introdutório.


PONTO FINAL ( . ). Encerra uma frase declarativa (ou período):

João andou muito.

O dia amanheceu ensolarado.

Apesar de estar frio, vou sem casaco.


PONTO E VÍRGULA ( ; ). Representa uma ligeira pausa. Seu uso segue um esquema mais estilístico do que sintático, mas há ocasiões em que seu uso se faz mais solicitado:

-  Para evitar acúmulos de vírgulas. Ex.:

 João, que é querido por todos, foi convidado; eu não.

- Para enumerar ítens. Ex.:

O futebol se joga com os pés; basquete se joga com as mãos; xadrez, com a cabeça.

É expressamente proibido:
a) andar sem camisa;
b) usar trajes de banho;
c) fumar; e
d) falar alto.

DOIS PONTOS ( : ). Em geral é utilizado para se colocar um aposto em final de frase. Ex.:

Os esforços sempre nos dão uma recompensa: a felicidade.


VÍRGULA ( , ). Serve para organizar a frase sintaticamente e marcar, na respiração, uma pequena pausa (ver texto "Com ou sem vírgula? - Eis a questão"). Ex.:

João, fez os exercícios? (Neste exemplo João é vocativo, pois a pergunta é feita a João.)

João fez os exercícios? (Neste, João é sujeito, já que alguém pergunta a outra pessoa se João fez os exercícios.)

Marcela comprou um carro, mas só Ricardo sabe dirigir. (Aqui a vírgula separa duas orações.)

Andei, corri, gritei. (Temos outro exemplo de vírgulas que separam orações.)

A árvore, que vive há 200 anos, foi cortada. (Separando uma oração intercalada numa principal.)

A igreja, infelizmente, pegou fogo. (A vírgula aqui intercalou um advérbio, que também poderia ficar no começo ou no final: A igreja pegou fogo, infelizmente.)

O carro, de cor branca, é meu. (A vírgula intercalou um aposto explicativo)

Eu comi bastante; ela, muito pouco (neste exemplo a vírgula está suprimindo o verbo comer: Eu comi bastante; ela comeu muito pouco. Assim, funciona como recurso estlístico, elipse.)

A Deus, amo acima de tudo.(Aqui a vírgula serve para antepor o objeto direto preposicionado "A Deus".)

Caneta, papel, borracha e lápis; estes são os materiais que vão ter que levar para prova. (Cabe neste exemplo enumerar ítens.)


EXCLAMAÇÃO ( ! ). Exerce o papel de ressaltar algo ou de demostrar algum apelo emocional numa frase exclamativa. Ex.:

Cuidado! Pista molhada!

Paaara! Eu não aguento mais escutar isso!!!


INTERROGAÇÃO ( ? ). Questiona em frases interrogativas; seja objetivamente:

- Quantos anos você tem?
- 20 anos.

Seja retoricamte:

O Brasil tem muitos analfabetos. Você sabe o que isso significa? Significa que temos que prorizar a educação.

Obs.: Podem os dois sinais precedentes (interrogação e exclamação) aparecerem na mesma frase, num misto de exaltação com dúvida. Ex.: Joana gritou: -- Que história é essa de não fazer o dever?!


RETICÊNCIAS. ( ... ) São três pontos (o famoso três pontinhos) que colocamos ao final para indicar algo que não terminou:

Andamos indefinidamente, sem parar...

Ou para dar vaguidade a algo:

Não se sabe quantas estrelas há no céu nem quantas indefinições no seu coração...


TRAVESSÃO ( -- ). Inicia um diálogo. Ex.:

-- Você vai à festa?
-- Não.

Ou coloca, tal como os PARÊNTESIS, apostos, orações intercaladas, e mesmo advérbios. O travessão sempre ressalta mais do que se estivéssemos colocando entre vírgulas.

A casa -- abandonada há muitos anos -- é misteriosa.


ASPAS DUPLAS ( " " ). Servem para marcar diálogos em discurso direto:

Ele disse: "Vou à festa".
Marcela desafiou: "Ah não... Não vai não".

As aspas duplas servem também para citar o texto de alguém, incorporando no de quem está discursando:

O pesquisador afirmou que Machado de Assis era "um escritor realista, porque analisava o jogo de interesse da sociedade burguesa".

Podem as aspas também servirem  para destacar uma ironia:

Todo mundo na cadeia é muito "honesto".

Ou pode simplesmente realçar uma palavra:

O mais importante da vida é ser "feliz".


ASPAS SIMPLES ( '  ' ). Servem para fazer uma citação de uma citação. Ou seja, quando um autor já citado cita outro. Ex.:

Nas palavras do professor:

"Machado é um escritor realista porque vai falar em seus livros sobre a disputa na sociedade. Aliás, como Machado mesmo diz em um dos seus livros: 'Ao vencedor as batatas'. Isso quer dizer: que os melhores vençam."



Ivonilton G de Souza

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Com ou sem vírgula? - Eis a questão


Para entender a importância de uma vírgula, repare neste trecho do jornal eletrônico "Correio Brasiliense", de 15/05/2018:

"O convite para a cerimônia marcada para esta terça-feira (15/4) pelo Palácio do Planalto, com o objetivo de celebrar os dois anos do governo de Michel Temer, provocou uma crise e teve de ser alterado de última hora. Expedido pelo cerimonial do Planalto, o convite trazia o slogan 'O Brasil voltou, 20 anos em 2'. A mensagem foi considerada desastrosa por auxiliares do presidente, uma vez que, sem a vírgula após o verbo, poderia passar a impressão de que o País regrediu duas décadas sob a gestão Temer."

Pois bem. Com isso dá para perceber a importância de uma vírgula. Houve, depois desta cerimônia em Brasília, inúmeros internautas que fizeram chacota com o slogan, pois bastava só tirar a vírgula para ficar: "O Brasil voltou 20 anos em 2". Ou seja, o Brasil retrocedeu em termos sociais e econômicos para épocas antigas.

Desse modo, já sabemos que o sentido da frase muda. Mas como isso se dá em termos de estrutura? É o que vamos ver a seguir.

Se temos a vírgula ("O Brasil voltou, 20 anos em 2"), o termo "20 anos em 2" passa a ser um APOSTO EXPLICATIVO, já que tem a função de explicar, de dar uma informação positiva a mais em relação ao conjunto anterior, no qual o verbo "voltar" conota revigoramento do país. Assim explica, representa - estilizando com uma hipérbole - uma grande quantidade de tempo de avanços positivos essa volta supostamente triunfal (pois se trata de peça publicitária) em apenas 2 anos. Poderia haver travessão, parêntesis ou dois pontos em vez de vírgula (O Brasil voltou: 20 anos em vinte). Assim, teremos outros exemplos similares em:

Meu pai trabalhou - quarentena anos de dureza.

Carlos abriu o presente: um relógio.

O pássaro canta muito, boa saúde.

João, homem sempre sisudo, deu um sorriso.

O Brasil (maior país da América Latina) ainda possui pobreza.


Por outro lado, sem a vírgula, como ficaria a frase de nossa campanha publicitária? O sentido já é patente, pois "O Brasil voltou 20 anos em 2" significaria que ele retrocedeu simbolicamente em termos de desenvolvimento socioeconômico 20 anos no decorrer de 2 anos seguidos. A ausência de vírgula, então, é responsável, não só por uma mudança semântica, mas estrutural. Melhor dizendo: pode haver implicações semânticas-estruturais no discurso quando se muda a pontuação. Se semântico (de sentido e significado) já temos uma ideia, cabe-nos responder o que muda estruturalmente. Ou ainda: sintaticamente. Vejamos então.

"O Brasil voltou".  Mas voltou para que época? Voltou para 20 anos atrás. Ora, essa pergunta "Para que época?" indica um advérbio de tempo (podendo ser até de lugar, talvez: "Voltou para onde?). Lembrando que advérbio é aquela palavra que modifica o verbo (João acordou CEDO); modifica o substantivo "Marcelo" em "Marcelo fez o trabalho TRISTEMENTE", ou seja, "Quem fez o trabalho tristemente?"; modifica o  adjetivo "feliz" no exemplo "O pássaro canta MUITO feliz"; e modifica o próprio advérbio "bem": "Ele está MUITO bem". Assim, a resposta de "Para que época?" só pode se referir ao tempo de 20 anos atrás. E em quanto tempo se operou essa volta? Ora, apenas em 2 anos. O que indica também um advérbio de tempo. Assim o conjunto "20 anos em 2" seria uma LOCUÇÃO (porque envolve um aglomerado de palavras) ADVERBIAL DE TEMPO.

Advérbios, por conseguinte, indicam circunstâncias diversas: de tempo, de modo, de lugar etc. Por isso, pode-se chamar também este pequeno fragmento (termo) da frase de adjunto circunstancial.

Mas há gramáticos que vão além da argumentação precedente. Vão dizer que o verbo "voltar", da sentença sem a vírgula ("O Brasil voltou 20 anos em 2"), mudaria de postura e seria não intransitivo, mas solicitaria um complemento (transitividade) conforme o sentido exigido pelo contexto comunicativo do falante. Por isso vão dizer (Celso Luft, por exemplo) que "20 anos em 2" seria um complemento circunstancial: complemento de verbo + circunstância de tempo. Ou então, como quer Evanildo Bechara, complemento relativo.

Mas isso é uma discussão para outra oportunidade. O importante é ter em mente que a ausência ou não de uma vírgula pode ser definitiva para a clareza do texto. Todo jogo semântico-estrutual pode ser afetado através de sua ulilização ou não no texto escrito. Há, evidentemete, muitos outros exemplos ainda. Mas que vamos conferir em outra aula.


Ivonilton G de Souza