Coesão referencial
Todo texto envolve uma estrutura. Essas estruturas devem estar conectadas, pois uma parte leva a outra. Os conectores são responsáveis por essas "costuras" da construção textual. São palavras que, ajudando no sentido do texto, ligam as frases, orações e até parágrafos: mas, portanto, e, assim, por isso, desse modo etc. Ajudam também no equilíbrio desse tecido estrutural (trazendo economia de linguagem e elegância ao texto), palavras que fazem referências a outras palavras ou a partes do discurso já pronunciadas ou a ser pronunciadas. Esse grupo de palavras fazem a coesão referencial.
Coesão porque trazem unidade ao discurso, referencial porque, como o próprio nome diz, fazem referências a partes do discurso. Usamos intuitiva ou conscientemente todos os dias. Seja em discurso oral (falado), ou em discurso escrito. Vale lembrar que o discurso escrito é sempre mais bem planejado do que o oral. Por isso, o bom uso desses elementos de coesão se faz importantíssimo. Até mesmo para evitar ruídos de comunicação, ou seja, mal-entendidos.
Veja este exemplo de um texto com FALHAS na sua coesão:
"João comprou um carro. O carro de João quebrou. João levou o carro para o mecânico. O mecânico consertou o carro de João. Já funcionando bem o carro, João fez uma bela viajem com o carro. A bela viajem deixou João feliz."
Então. O que acharam? Evidentemete que não parece ser um texto bem escrito. Como poderíamos melhorá-lo?
Uma das respostas está no uso de elementos coesivos referenciais. Pois bem. Veja como fica agora:
"João comprou um carro, QUE quebrou. ELE levou-O para o mecânico. O HOMEM consertou seu AUTOMÓVEL. Já funcionando bem [...], [...] fez uma bela viajem [...]. ISSO o deixou feliz."
O texto agora não mudou bastante? Não está mais elegante e coeso?
As partes que destaquei são os conectores referenciais, responsáveis pela coesão, unidade e sentido do texto (e os colchetes veremos depois). Assim temos:
"João comprou um carro, QUE quebrou."
O "QUE" é um pronome relativo. Se refere a "carro" da oração anterior. Desdobrando ficaria: "João comprou um carro. O carro quebrou". Assim evita-se a repetição desnecessária da palavra "carro". É o mesmo que veremos a seguir:
"ELE levou-O para o mecânico."
Ora, fica bem claro que "ELE" (pronome pessoal do caso reto) só pode se referir a "João". E o "O" destacado depois do verbo "levou" é também um pronome pessoal (mas não mais do caso reto, mas oblíquo, porque se segue ao verbo como seu complemento). É um pronome que substitui a palavra "carro". Nesta frase, então, evita-se duas repetições enfadonhas.
Mas veremos que a coesão referencial nem sempre se dá com pronomes. Pode se dar por sinônimos ou palavras próximas também. É o nosso exemplo seguinte:
"O HOMEM consertou seu AUTOMÓVEL."
Ora, "HOMEM" está por "mecânico" e "AUTOMÓVEL" está por "carro".
E quase não percebemos, mas "seu" (pronome possessivo) está por "automóvel DE JOÃO".
Vejamos mais um caso de coesão referencial. Quando as palavras chaves já foram mencionadas no texto, podemos até omiti-las, sem precisarmos nos socorrer de nenhuma outra, como se observa nos colchetes pontilhados:
"Já funcionando bem [...], [...] fez uma bela viajem."
Já funcionando bem o quê? O carro, evidentemente. Quem fez uma bela viajem? João. Essas perguntas são tão simples que evidenciam a desnecessidade de colocar esses termos nas orações apontadas. É uma informação que já foi dada no texto. Por isso não há necessidade de repetir tais termos. Assim, quando o sentido já está dado, seria um desperdício de energia repetir tais termos novamente. Isso (para ficar só neste exemplo) é o que muitos estudiosos da língua chamam de economia linguística. Auxilia ainda o verbo fazer na 3a pessoa do singular: "[Ele] fez". E o contexto explicita uma eventual dúvida, pois "ele" só pode ser o João.
Por fim, temos no final o termo ISSO (pronome demonstrativo). Este pronome está retomando, fazendo referência à oração anterior: "... fez uma bela viajem". Desse modo os pronomes demostrativos podem apontar não só um termo mas uma oração, uma frase, ou até mesmo um parágrafo anteriormente expresso. Veja no nosso exemplo:
"Já funcionando bem, fez uma bela viajem. ISSO o deixou feliz."
Pode também apontar algo que vem à frente como em:
"Para vencer na vida faça ISTO: se dedique aos estudos."
Assim, se há uma referência a algo anterior temos uma ANÁFORA. Se for algo posterior haverá uma CATÁFORA.
Portanto, no exemplo do texto de João temos uma anáfora; e neste último, uma catáfora.
Concluindo, a coesão referencial nos ajuda a construir um texto com mais elegância e, se bem usada, coerência. Atende a dinâmica da língua, sua concisão e equilíbrio. No discurso oral expontâneo, as repetições de palavras são mais comuns do que no discurso escrito, além de ser uma linguagem mais fragmentada com mais lapsos e descontínua. Já o discurso escrito exige mais reflexão, "enxugamento" dos termos, precisão. Enfim, é bem mais elaborado, o que faz do bom uso das conexões uma peça fundamental para a arte escrever.
Em outra aula veremos que podemos, com auxílio de conjunções e conectores, melhorar ainda mais este e outros textos.
Ivonilton G de Souza
terça-feira, 23 de junho de 2020
terça-feira, 9 de junho de 2020
Figuras de Linguagem (antítese, paradoxo, metáfora, comparação)
Quando queremos expressar algo de uma maneira que crie mais impacto, ou dê um realce significativo ao que queremos dizer, usamos a figura de linguagem, muito utilizada nos textos conotativos, por isso é também muito trabalhada pelos escritores de literatura, sobretudo os poetas. Vamos ver algumas:
- Antítese
Consitse em colocar pares opositivos no texto. Ex.: Grande/pequeno; alto/ baixo; feliz/ triste. Muito comum na literatura Barroca, pois revela a tensão dos opostos em que viviam os poetas, como em:
"Nasce o Sol e não dura mais que um dia:
Depois da Luz, se segue a noite escura;
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria."
(Gregório de Matos, "A inconstância das cousas do mundo", fragmento)
- Paradoxo
Nesta figura, também há oposição de ideias. Mas neste caso a oposição se dá num mesmo ser, criando uma contradição como se disséssemos que o gelo arde mas é frio ao mesmo tempo. Assim, o calor e o frio pertencem ao mesmo ser. No barroco também há muitos paradoxos. Por isso muitos dizem que Camões já produzia algumas obras não do estilo do Classicismo, mas do barroco (principalmente nas peças líricas), pois este poema dele é repleto de paradoxos. Veja-o:
"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer."
(Luis de Camões, fragmento)
- Metáfora.
É a figura de linguagem literária por excelência. Num sentido amplo pode englobar as outras. Por isso é comum escutarmos, de uma maneira geral, "a obra literária tem uma grande metáfora", ou "esse quadro metaforiza a dor humana". Em sentido específico tem suas características próprias. É uma comparação que fazemos de uma coisa a outra de maneira mais direta e imediata. Seria como se falássemos: o mel dos seus lábios (os lábios são doces como o mel). Observemos no olhar de uma poeta:
"Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.
Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.
Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!"
(Cecília Meireles, "Coração de Pedra", fragmento)
Como se vê o coração é "de pedra" porque o eu lírico está sofrendo, mas antes era clamo e livre, por isso era de "asas" , ou " de lágrimas", representando o estado de tristeza, e passou a ser de "sílex", por isso pode o eu lírico ter uma inconstância e fragilidade nos seus sentimentos.
- Comparação
Consiste em comparar duas ou mais coisas devido a características contíguas, próximas, para realçar a ideia. Se na metáfora a comparação é mais imediata, sintética, na comparação ela é madiada, analógica. É muito comum escutarmos comparações no nosso dia a dia como "ele é duro como uma pedra", "fulano fala como uma matraca" etc. Padre Vieira era mestre nesse estilo. Vejamos algumas dele no Sermão da Sexagésima:
"O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum."
(Padre Antônio Vieira, "Sermão da Sexagésima", fragmento)
Concluindo, as figuras de linguagem são um recurso que podemos utilizar para realçar nosso pensamento, dar um matiz diferente (nos apropriando de imagens) para estilizar nosso texto. Há algumas figuras de linguagem já desgastadas pelo tempo, que caíram no uso comum, como nos ditos populares (por exemplo, "Água mole e pedra dura / tanto bate até que fura"). Assim, a poesia autêntica reside em a figuras de linguem extremamente trabalhadas, imaginativas e originais, criando, portanto, um universo único (fora do senso comum) e brilhante.
Ivonilton G de Souza
Assinar:
Comentários (Atom)