Alguns tópicos sobre a literatura de Machado de Assis e Rubem Fonseca
- Machado de Assis e Rubem Fonseca são escritores realistas. Ou seja, tratam das questões sociais da sociedade. Mas tratam no sentido de fazer o retrato das camadas sociais, dos interesses, do fingimento da sociedade e sua hipocrisia.
- Machado (segunda metade do século XIX) faz parte de um realismo psicológico. Assim seus personagens revelam dramas, contradições e incertezas interiores, trazendo riqueza a caracterização psíquica da mente humana, que é cheia de labirintos, fingimentos, dúvidas e até mesmo crueldade. Por isso seu personagens são redondos.
- Rubem Fonseca, escritor da segunda metade do século XX, traz em sua literatura algo chamado de "ultrarrealismo". Nesse sentido, as questões sociais como pobreza, crimes, ambição, perversidade, sexo, luta pela vida e etc são tratadas de maneira mais direta, crua e seca. Sem muitas entrelinhas, diferentemente de Machado. Mostra-se Rubem Fonseca mais objetivo, vai direto ao ponto. Por isso seus personagens são planos.
- Há uma tendência da literatura moderna, e sobretudo contemporânea, de tratar os personagens como anti-heróis. Isso vemos facilmente nos filmes onde os protagonistas não são mais os mocinhos mas os vilões. Muitas vezes é a justiça pelas próprias mãos que interessa. Quando não é mostrada a realidade de um personagem sem caráter e escrúpulos. É o que vemos em "Passeio noturno" de Rubem Fonseca. "Passeio noturno" e "Passeio noturno II", já que há outro conto com o mesmo personagem, que é de família de rica com uma vida aparentemente normal, mas que na verdade é um psicopata, pois tem como prazer assassinar mulheres atropelando-as.
- É digno de nota que em "Passeio noturno" há também uma relação simbólica e machista que relaciona o fato de ter um carro potente com a virilidade masculina. Associação que é muito comum encontramos no nosso dia a dia entre pessoas que ostentam "machismos".
- Em Machado de Assis os personagens não chegam a ser propriamente anti-heróis como na literatura contemporânea, mas são personagens sonsos, sarcásticos, ambiciosos, repletos de falhas morais, evidenciando o jogo de interesse e disfaçes do mundo burguês. Ele pouco trata da classe mais baixa, o que será feito exemplarmente depois no naturalismo de Aluísio de Azevedo e se radicalizando com Rubem Fonseca (ver conto "Feliz ano novo", onde os protagonistas são assaltantes, assassinos e estupradores). De qualquer modo, já em Machado é revelada crueldade humana. Só que de uma maneira mais sutil e irônica. Por isso é chamado de "O Bruxo".
- De maneira geral, a literatura realista (ou mesmo a autêntica literatura) não está interessada em fazer julgamentos, ditar verdades ou lições de moral. No caso da literatura realista, seu interesse é somente representar a sociedade e seus costumes de maneira fidedigna. Ou seja sem romantizar ou criar universos de esperança e salvação. Não está em pauta para a literatura discutir verdades porque isso seria papel da retórica, da filosofia, da ciência e das igrejas. Ela pode se limitar (e isso Machado fazia muito bem) a dar sugestões, e cabe ao leitor decidir qual caminho enveredar, cabe ao leitor tirar suas conclusões. Se ela é realista e cruel é porque o autor simplesmente está espelhando os costumes da época. O que aqui é dito se dá principalmente em Machado, pois dos escritores realistas era o mais ambíguo. Já a escola Naturalista, que vem logo depois, talvez já haja um propósito de verdade, de defesa de tese, pois já há um maior direcionamento para a crença na evolução das espécies, em certo biologismo e cientificismo. Mas isso é assunto para outra discussão. O importante é ter em mente que Machado de Assis e Rubem Fonseca retratam a realidade como ela é. E sabemos que mazelas e interesses fazem parte dela.
Prof. Ivonilton G de Souza